Vidas Invisíveis. Até quando?

Como foi que você descobriu que era uma pessoa trans? Como foi que você conseguiu ter esse “insight” se a nossa sociedade não é capaz de reconhecer nenhum gênero além da dupla homem e mulher?

É quase certo que a primeira vez que você ouviu falar de outro gênero, além da dupla oficial masculino-feminino, foi de maneira depreciativa, na base da piada e da gozação, uma das formas mais sutis e poderosas de controle social.

É quase certo que a primeira vez que você viu a imagem de alguém com quem, pela primeira vez na vida, pôde se identificar inteiramente, “de corpo e alma”, foi a foto de uma travesti ou de uma drag-queen ou de uma transexual operada. Como bom cidadão e profissional exemplar de classe média, você deve ter olhado a foto o mais furtivamente possível, de modo a esconder até de si próprio a profunda, imediata e “altamente ameaçadora” identificação ocorrida com a imagem estampada no papel.

Na minha infância e adolescência, meu coração quase pulava pela boca quando eu via uma foto assim. Como por mágica, imediatamente eu compreendia quem eu era e não me sentia mais só. Aquela era a minha turma, pensava; finalmente encontrara meus iguais.

Mas, ao mesmo tempo, o que seria de mim se “eles” viessem a saber que eu também era uma daquelas pessoas que eles rotulavam de marginais obcenas, decadentes, ridículas e vulgares? O mínimo que aconteceria comigo, com certeza, era queimar eternamente no fogo do inferno, o lugar reservado para todos aqueles pecadores…

Aprendi muito rápido que não havia maior pecado nesse mundo do que discordar do gênero que nos carimbam na testa quando a gente nasce. E para a sociedade machista em que ainda vivemos parece não haver maior criminoso do que o homem que assume não ser homem, pouco importando que seja por algumas horas ou a vida inteira.

O que teria acontecido comigo se eu tivesse dito a eles, em alto e bom tom, como hoje eu digo: – ei, calma lá! Meçam as palavras comigo, pois eu sou uma dessas pessoas aí – e exijo respeito pela pessoa que eu sou! Talvez não tivesse acontecido nada – quem pode saber? Mas todas as expectivas me apontavam, como continuam apontando pra muita gente, para o pior de todos os mundos:

- repulsa e abandono por parte da família, dos amigos, da comunidade;
- perda de qualquer vestígio de “respeitabilidade” pública;
- exclusão sumária do convívio com pessoas “normais” da sociedade
- marginalidade política-econômica-religiosa-social-cultural

O que impede a pessoa de ser o que é senão a permanente ditadura do “discurso sócio-político-cultural” sobre a realidade de cada ser humano? A vida em sociedade nos força a ser o que não somos, ao mesmo tempo que nos desautoriza, demove e desestimula inteiramente de ser do modo que a Natureza nos criou. De maneira absolutamente arbitrária e arrogante, somos obrigados a adequar a nossas “identidades” – de sexo e de gênero – às incômodas matrizes que a sociedade nos fornece, como se tivéssemos obrigação “natural” de nos ajustar a elas. Como se elas tivessem sido criadas pela própria Natureza. E não foram! Elas são apenas reflexo do modelo de organização socio-política em vigor numa sociedade, numa determinada época. Então que se mude o modelo social para que ele se ajuste às demandas da natureza – e não o contrário, como se exige das pessoas, à custa de muito desconforto, sofrimento e neurose!

Eu comecei a me auto denominar de “transgênero” quando descobri toda a vasta trama histórica construída no sentido de “invisibilizar” qualquer manifestação natural do ser humano capaz de chocar com o “discurso oficial de gênero” e a “ordem sócio-política” que sobre ela repousa. Eu nunca me identifiquei com nenhum dos dois gêneros existentes. Sempre senti pertencer a uma outra categoria que, evidentemente, não existe do ponto de vista oficial.

A convicção definitiva de que eu era realmente uma pessoa transgênera veio com a leitura do livro “My Gender Workbook”, da atriz/escritora/ativista/advogada transexual americana Kate Bornstein, cujo link para leitura on line, gratuita, está disponível clicando aqui. Foi através desse trabalho precioso e fundamental que eu pude compreender – e passar a me orgulhar – de que eu simplesmente não estava adequado ao “gênero” que me carimbaram na testa ao nascer e que essa tinha sido a fonte de todos os meus tormentos nesse mundo.

Levei muitos anos para compreender que eu não estava, não estive, não estou e provavelmente nunca estarei adequado ao “discurso oficial de gênero” produzido pela “ordem vigente”. Mas que, nem por isso, eu deveria me sentir menor do quem quer que seja. O gênero é que está errado; não eu, por ser simplesmente quem eu sou.

Tenho o direito de ser do jeito que a natureza me fez; não necessito estar enquadrada em nenhuma categoria estabelecida para ser respeitada como pessoa. Posso, aliás, criar a minha própria categoria de gênero, sendo quem eu sou. Como diz a Kate, gênero é a roupa que eu decido vestir quando me levanto todas as manhãs…

De resto, sou uma pessoa de bem, que trabalha e contribui para o progresso da minha comunidade, e minha única diferença em relação aos outros é que sou “diferente” deles.

Grande novidade! Todo mundo é diferente de todo mundo! Um dia, quando o “discurso” oficial não conseguir mais calar a natureza própria de cada ser humano, essas espúrias, arbitrárias e arrogantes construções de gênero virarão pó, instantaneamente. Masculino e feminino deixarão de ser “fatalidade” para se tornarem meras “possibilidades”, dentre infinitas outras expressões de gênero existentes no vastíssimo leque da diversidade humana.

O caminho até esse dia ainda deve ser longo e cansativo. A grande maioria dos diretamente afetados preferem aguardar que outros façam a jornada no lugar deles, enquanto continuam a olhar, furtivamente, na calada da noite, cheios de medo e preconceito, a imagem daquelas pessoas com as quais seus corpos e suas almas realmente se identificam. Esse é, sem dúvida alguma, um procedimento seguro, sob todos os aspectos. Mas valerá a pena gastar a vida inteira sendo alguém que a gente nunca foi apenas por medo de ser a pessoa que a gente realmente é?

Letícia Aparecida Lanz, 03-02-2009.

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