A principal característica da pessoa transgênera, seja macho ou fêmea, é a sua relutância, sua resistência e sua insistência em não se comportar estritamente de acordo com os padrões de conduta socialmente exigidos dos membros do gênero que lhe foi atribuído ao nascer, exclusivamente em função da sua genitália. O macho transgênero, com raríssimas exceções, busca expressar sua identidade vestindo-se de mulher ou, no mínimo, usando roupas, calçados e/ou adereços que afrontam claramente os padrões masculinos de vestuário normalmente aceitos. De várias formas e em muitos sentidos, ele tenta usurpar das mulheres certas prerrogativas que hoje são exclusivamente delas, como usar maquiagem, pintar as unhas ou depilar-se. Em muitos casos, ele pode querer inclusive modelar seu próprio corpo de homem de maneira a torná-lo o mais próximo possível do corpo de uma mulher. Em síntese, quando um macho transgênero se veste de mulher, está basicamente em busca de um canal de expressão da sua identidade reprimida. Eles não se “vestem de mulher” com o objetivo de “incrementar” suas práticas sexuais, solitárias ou com outra(s) pessoa(s), tal como acontece com quem tem o travestismo como um fetiche sexual (parafilia).
Ainda é incipiente número de homens, assumidamente transgêneros, que conseguem ver seu desejo de expressar atributos socialmente “femininos”, dentro do quadro mais amplo de uma “revolução masculina”, em muitos aspectos semelhante à revolução feminista da segunda metade do século XX, cujo combustível é uma imensa demanda sociopolítica, cada vez mais a descoberto, em virtude dos imensos e contínuos avanços da mulher na sociedade contemporânea.
Poucos reconhecem e compreendem sua necessidade de expressão fora dos antigos e rígidos cânones masculinos como uma alternativa para a “masculinidade histórica”. Nos tempos atuais, essa “masculinidade histórica” nada mais é do que uma tosca “camisa de força”, que mantém o macho refém de ridículas restrições de vestuário, de hábitos, de comportamentos e até de expressão da própria sensibilidade. Por causa dessas pesadas restrições socioculturais, enquanto a mulher avança, o homem vai ficando na lembrança…
Muito mais do que uma simples identificação com os valores da feminilidade, o travestismo masculino pode e deve expressar cada vez mais uma necessidade política de mudança da ordem social, que permita ao homem manifestar, publicamente, atributos e valores que, apesar de humanos, ainda são tidos como de “natureza” feminina. Essa também era uma das principais metas da mulher, ao deflagrar a revolução feminista: – poder expressar, publicamente, atributos e valores que, apesar de humanos, ainda eram tidos como exclusivamente masculinos na segunda metade do século XX.
Desde então, a mulher não parou mais de crescer, redefinindo sucessivamente a si própria e ocupando praticamente, com excelente desempenho, todos os papéis existentes na sociedade, inclusive aqueles que foram por milênios domínios exclusivos do homem. Enquanto isso, o homem permaneceu estacionado ou, em muitos casos, entrou em franco retrocesso. Em vez de “revolução”, o homem tem estado num processo de franca “involução”. Basta comparar a taxa de ocupação dos presídios, onde a presença masculina bate recordes crescentes, com a taxa de ocupação dos bancos escolares, onde a presença masculina é cada vez mais tacanha, sobretudo se comparada à presença esmagadora da mulher, em todos os níveis de escolarização.
Mas, para uma nova masculinidade emergir do “caos conservadorista” do homem contemporâneo, é preciso desencadear uma revolução masculina que é, antes de mais nada, uma revolução nos valores e posturas masculinas. A começar da hipocrisia com que o homem trata sua própria necessidade de mudança falando, em público, da necessidade de “libertar sua sensibilidade” e agindo no privado de maneira sexista, homofóbica e transfóbica.
É preciso confrontar seriamente os homens que acham que não é necessário mudar, que nenhuma revolução masculina é necessária exceto uma que recolocasse a mulher no seu devido lugar que, na opinião deles, é a cozinha e a cama…
Mas a revolução não começa porque nenhum homem está a fim de encabeçar a lista de quem vai se arriscar a criticar a masculinidade. Muitos homens vivem envergonhados com o comportamento retrógrado, anti-ético, mau, sujo e violento de tantos outros homens, mas se silenciam completamente em vez de denunciarem publicamente essas mazelas. Certamente serão chamados de “viadinhos” pela tropa de choque do patriarcado machista, mas não há outro caminho senão essa confrontação direta.
Silenciar diante do machismo retrógrado é pactuar com o atraso, é aceitar a ignorância. Precisamos parar de proteger uma masculinidade que já passou da hora da morte, em nome de laços de lealdade masculina que não passam de uma grande mentira coletiva.
Nós, homens transgêneros, podemos conscientemente expressar um novo modelo de masculinidade e gerar um efeito de transformação em todos os outros extratos masculinos da sociedade. Podemos mostrar a todos os homens que, ser um homem é permitir-se ser a pessoa que a gente é. Ser “macho alfa”, como os machões gostam de se auto-afirmar por aí, não é mais desejável e muito menos suficiente para se ser um verdadeiro homem.
Como eu já afirmei diversas vezes, as mães (os pais, os professores) continuam criando os meninos não para eles serem homens, mas para eles NÃO SEREM bichas, efeminados, maricas, gays ou qualquer outra coisa que se assemelhe à mulher (embora a mulher tenha crescido tanto na nossa sociedade, sua auto-estima continua baixa pois ela continua se envergonhando que seus filhos homens se comportem de modo feminino…)
Pensem como é impróprio e contraproducente ensinar um menino a ser homem ensinando-o a não ser mulher. Como se ser homem se definisse pelo oposto de ser mulher! Pensem em como esse procedimento que continua a ser largamente praticado na educação de todos os níveis contribui para o aparecimento da insuportável “ansiedade masculina” que se abate sobre o macho contemporâneo. Se todos os valores masculinos são baseados em negações de atributos femininos, o homem, então, não passaria de uma negação da mulher?
Talvez hoje em dia ele não passe mesmo disso: – uma vasta, confusa e totalmente infrutífera “negação da mulher”. O homem não deve chorar, porque quem chora é a mulher. O homem não deve demonstrar abertamente suas emoções, porque quem mostra abertamente suas emoções é a mulher. O homem não deve usar roupas alegres e descontraídas, porque quem usa roupas alegres e descontraídas é a mulher. O homem não deve ser maquiar, porque quem se maquia é a mulher. Alguém se lembra de ter sido chamado de “mulherzinha”? Eu me lembro e me lembro também de ter brigado – muito – para “provar” a todo mundo que eu não era mulherzinha. E assim por diante, numa listagem interminável de oposições onde, ao que tudo indica, a mulher deve se definir primeiro para, em seguida, o homem se definir como o seu contrário, o seu oposto, o seu espelho negativo.
Esse é o ponto de partida da grande revolução masculina que está para ser feita: – a checagem integral de um por um e de todos os valores e atributos masculinos. Sentimentos e emoções devem ser resgatados como atributos humanos; devem deixar de ser considerados como atributos femininos (qual foi o miserável que inventou uma besteira dessas?). Assim como as roupas que um homem (ou uma mulher) usam devem ser livremente escolhidas, de acordo com o gosto e preferência pessoal de cada pessoa (qual foi o infeliz que inventou a loja de “departamentos”, hein?).
Por enquanto, a terrível “masculinidade histórica” ainda continua a reinar soberana, compulsoriamente compartilhada pela maioria dos homens contemporâneos. É uma pesada e incomôda “máscara de ferro”, que cada homem deve usar para esconder, até de si mesmo, o seu verdadeiro “eu interior”. E cada homem funciona como fiscal, censor e juiz de outros homens, como forma de assegurar que todos continuem usando esse famigerado aparato. Com o direito de checar, a todo momento, se o sujeito está usando ou se ousou deixar a máscara de lado, ainda que por instantes (pare de ser maricas! Deixe de ser mulherzinha! Seja homem! Etc, etc, etc)…
Os homens que assumem publicamente a sua transgeneridade poderiam ter um papel fundamental no desencadeamento dessa futura – e já totalmente defasada – “revolução da masculinidade”. Acontece, porém, que a maioria dos homens transgêneros continua acreditando que o seu desejo de se vestir e/ou de se comportar de maneira socialmente considerada feminina deve-se tão somente à sua própria “feminilidade”, que muitos teimam inclusive em considerar nada mais nada menos do que “geneticamente determinada”…
Letícia Lanz, 22-12-2012.





11 Providências Fundamentais para Assumir o Crossdressing
Declaração Internacional dos Direitos de Gênero


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Querida Letícia
Parabéns pelo seu editorial.
Eu percebo cada vez mais o quanto a minha relação com roupas de homem é apenas funcional, do tipo “tenho que cobrir o corpo de modo adequado para cada situação” e que não me sinto “representada” pelas roupas masculinas. Sabe aqueles dias em que parece que nenhuma roupa fica bem em você? É assim que eu sempre me sinto com relação às minhas roupas masculinas. Ao contrário, quando estou travestida, eu me sinto “representada”, eu expresso os meus sentimentos através das combinações que vou escolhendo. Eu sinto vontade de usar uma ou outra roupa feminina de acordo com as minhas emoções no momento. Escolher entre um vestido, uma saia ou um jeans tem uma relação mais forte com os meus sentimentos do que simplesmente “cobrir o corpo de modo adequado”. E, quanto mais tempo eu passo travestida, menor o frisson, que antes eu sentia devido à urgência de aliviar algo reprimido, e maior a naturalidade com que eu me comporto como uma mulher. E vou me dando conta que a minha necessidade de vivenciar, de explorar o meu lado”feminino” é um processo sem volta. Quando eu abri esta “caixa de Pandora”, eu ainda achava que poderia controlar a situação, que poderia voltar a “fechar a tampa” quando quisesse….
Beijo.
Camila
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Sou crossdresser, casado, e o meu lado feminino é totalmentelésbico! Amo minha mulher e sou louco por ela. Como CD sou Marcella, uma mulher vaidosa, sexy, bonita e muito exibicionista. Adora mostrar as curvas do corpo com roupas justas e coladas, a barriga e o piercing no umbigo. A pele depilada, sempre lisinha e perfumada, cabelos soltos, maquiagem carregada na boca e nos olhos, perfumes, cremes, vestidos bem curtinhos, minissaia, shortinho, salto muito alto e lingerie bem ousada. Antes, o meu lado masculino se incomodava com ela, me achava anormal, tinha vergonha e raiva depois das transformações. Passado algum tempo, jogava tudo fora, roupas, maquiagens e calçados. Queimava tudo, até a peruca, num perfeito ritual de exorcismo! Ficava me segurando por meses, achando que tava “curado”. Mas era só ver a calcinha que minha mulher acabara de comprar que chegava a tremer por dentro! Daí era tudo de novo, o vestido curto, a sandália de salto, enfim as roupas e calçados femininos maravilhosos, expostos nas vitrines, que eu tinha que comprar de qualquer jeito. Por fim, a maquiagem e a peruca para completar o visual. Ficava ansioso, esperando o dia em que estaríamos sozinhos, pra Marcella fazer um show só pra mim. Minha mãe era costureira e desde de pequeno eu ficava explorando e experimentando coisas do mundo feminino. Mas sempre em segredo. Depois que minha esposa descobriu (esta é uma outra história) passei a me entender melhor com a Marcella e comigo mesmo, vivendo bem os dois lados. Tiro fotos, posto videos no Youtube. Marcella é como uma amante, sempre lisinha, cheirosa, sexy e cheia de tesão, usando toda a sua imaginação e sensualidade pra me satisfazer.