Solidariedade só na dor. É favor não insistir!

Quem omitiria da mulher, dos filhos, dos pais, dos colegas de trabalho que é portador de uma doença grave e que ela o matará em pouco tempo?

Ao saber da moléstia fatal do marido, a maioria esmagadora das esposas colocaria de lado até mesmo antigas pendências e idiossincrasias, procurando oferecer-lhe todo o seu carinho e dedicação. Ela e os filhos ficariam preocupados e certamente apoiariam e atenderiam o pai em tudo que fosse necessário, buscando fazer até mesmo o impossível para conforta-lo e ajuda-lo. Os colegas e amigos se aproximariam mais, telefonariam mais, tentariam estar de todas as formas mais presentes na vida do companheiro doente.

O doente, por sua vez, não precisaria esconder de ninguém os medicamentos que está tomando, nem teria que esconder sua vida de todos, até do médico, cada vez que fosse visitar o médico.

A dor atrai um grau muito elevado de solidariedade. Somos socialmente treinados para socorrer as pessoas quando elas sofrem. Nossa reserva de compreensão e carinho é destinada básica e fundamentalmente a quem está passando grande dores e aflições.

Quem conta para a esposa, para os filhos, para os pais, para os colegas de trabalho que sente um prazer imenso em se produzir inteiramente como uma mulher, embora sendo homem? Quem se declara bissexual para a mulher, dizendo que essa é uma necessidade da qual ele não pode abrir mão, sob pena de ser uma pessoa muito, muito infeliz?

Pode-se contar nos dedos as pessoas que até hoje tiveram a coragem de declarar aos demais as suas fontes de prazer e que as esposas e famílias foram capazes de compreende-las e aceita-las. Ao saber do desejo do marido, a maioria esmagadora das esposas iria abandona-los, depois de tortura-los além de todos os limites, acusando-os de devassos, sujos, pecaminosos, indecentes; impedindo-os de dormir na mesma cama, no mesmo quarto , sentar-se à mesa com a família ou até mesmo ter contato com os filhos. Filhos, amigos e colegas de trabalho também não deixariam por menos, se esmerando num grande mutirão de maldades destinadas a transformar a vida do sujeito numa perfeita “filial do inferno”.

Na nossa cultura, declarar a própria dor e o sofrimento angaria uma enorme simpatia e apoio popular. Ao contrário, declarar o prazer angaria ódio e repúdio por parte de todos. Ninguém tolera ver alguém feliz, sobretudo quando esse alguém encontra sua felicidade justamente num comportamento direta ou indiretamente relacionado com a sexualidade, por mais natural e inofensivo que seja tal comportamento.

Sexualidade é pecado, até mesmo para quem não acredita em pecado. Sexualidade é crime, ainda que não esteja enquadrada em nenhum dispositivo do código penal. Sexualidade é suja, ainda que toda a medicina se apresse em dizer que a sexualidade é perfeitamente saudável e imensamente prazerosa na maioria absoluta das suas manifestações.

Ninguém apóia o prazer porque ninguém é treinado nem para sentir prazer nem contribuir de alguma forma para que as outras pessoas sintam prazer.

Somos uma sociedade cujo pressuposto básico é a dor: – não existe nada mais nobre do que sofrer. O macho-herói-sofredor ainda é o encanto das multidões. O macho-alegre-prazeroso é o vilão a ser repelido para longe do convívio social “saudável e responsável”.

Toda forma de prazer está há muito tempo banida e sua prática, continua sendo duramente reprimida e castigada, por mais “avanços” que mídia anuncie a todo momento.

Solidariedade, só na dor. É favor não insistir.

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