Sexualidade é um conceito muito mais abrangente do que a simples atração física entre indivíduos ou o aparelho genital de cada um e o seu engajamento no intercurso sexual com outra pessoa. No ser humano, a sexualidade possui componentes físicos, afetivos, intelectuais e socio-culturais que a distanciam imensamente de qualquer outro tipo de manifestação sexual dentro do reino animal. E, uma vez que cada pessoa é uma criatura humana é absolutamente única, não é possível afirmar categoricamente que exista uma sexualidade, ou mesmo uma atividade sexual, que possa ser considerada “normal”, em detrimento de todas as outras formas existentes.
Inúmeros fatores biológicos, sociais, políticos e psicológicos influem diretamente na formação e no direcionamento da nossa sexualidade, com destaque para o gênero, orientação sexual, níveis de hormônio no organismo, idade e perspectiva de vida, bem como as visões que os indivíduos possuem de sexo, baseadas em suas crenças religiosas e valores culturais.
Sexualidade é, dessa maneira, um termo composto por elementos de diversas esferas, do biológico ao sociopolítico, do genético ao psicológico, onde a educação recebida desde o berço e ao longo de toda vida cumprirá sempre um papel preponderante. Lidando simultaneamente com tantas variáveis, a sexualidade humana é o resultado e, ao mesmo tempo, a conseqüência direta da personalidade e das relações interpessoais de cada indivíduo, incluindo sua auto-percepção, sua auto-estima, sua história pessoal, a imagem de corpoalém, o amor, a intimidade, pensamentos, fantasias e desejos eróticos, etc.
A questão de gênero desempenha um papel crucial na construção política da sexualidade, uma vez que a sociedade define, a priori, mediante o estabelecimento de normas rígidas e explícitas, qual deve ser o comportamento sexual de um homem e de uma mulher, independentemente do que esse homem ou essa mulher realmente sentem e desejam para si em termos de expressão da sua sexualidade. Diante dessa armadilha, configurada pela camisa de força da normatização da sexualidade, é fundamental que cada pessoa aprenda a reconhecer o que é normal para ela mesma – o que a faz sentir-se cômoda, confortável e satisfeita em matéria de sexo – conforto e satisfação que pode ser bastante diferente e variar enormemente de pessoa para pessoa.
O filósofo Michel Foucault1 concebeu a sexualidade como uma construção social basicamente criada para submeter o corpo individual ao controle coletivo da Sociedade. Segundo ele, o conceito de sexualidade não é uma categoria natural, mas uma construção social e como tal só pode existir no contexto social.
Para Marilena Chauí2 “a sociedade em que vivemos é, antes de mais nada, uma sociedade inteiramente pragmática e funcional, isto é, nela tudo o que existe, só tem direito à existência se for definido por uma função útil, adequada e aceita pelo status quo. A sexualidade será, então, a função especializada em procriar e função especializada de alguns órgãos do corpo. A super-repressão não se contenta com a dominação e a funcionalização. nossa sociedade conseguiu transformar as diferenças anatômicas entre homens e mulheres em papéis e em tipos sociais e sexuais, criando uma verdadeira zoologia-sociologia sexual. Reprime, assim, a ambigüidade constitutiva do desejo e da sexualidade fazendo da diferença e multiplicidade sexuais um tormento, um crime, uma doença e um castigo… A super-repressão, porém, só pode operar se estiver interiorizada, se as pessoas considerarem normal, natural e desejável viver dessa maneira. Para isso ela recorre à divisão racionalizadora do tempo e do espaço, de tal modo que restem um tempo mínimo e um espaço mínimo para a sexualidade: algumas horas noturnas no leito conjugal, no quarto secreto do casal, num bordei, num camping… No entanto, como também as horas de lazer são controladas, porque estão ligadas ao consumo, assim como o consumo controla também os espaços do lazer, só restam duas saídas: ou o lazer exclui um tempo para a sexualidade, ou a coloca sob o controle do consumo, isto é, da pornografia, do motel, da sauna, da casa de massagem. Especialização do espaço e ilusão da sexualidade liberada”.
Leituras recomendadas
CHAUÍ, Marilena. Repressão Sexual. São Paulo : Brasiliense, 1984. Uma das obras mais ricas de conteúdo ao abordar a sexualidade humana como construção socio-política-cultural. A autora descreve, de forma clara e objetiva, o percurso humano na transformação da sexualidade advinda da sua natureza “animal”, numa sexualidade reprimida e “educada”, principal instrumento de dominação e opressão política, econômica e social da sociedade patriarcal.
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. Rio : Graal, 1993. A sexualidade tem sido bruscamente censurada, reprimida pela sociedade, depois de ter vivido em liberdade de palavras e atos? Segundo Foucault, a sociedade capitalista não obrigou o sexo a esconder-se, mas a submeter-se aos seus controles (clique aqui para uma ótima resenha desta obra, em inglês).




Só Auto-Aceitação Pode Vencer Auto-Repressão
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