Riscos Que Nos Fazem Crescer

Letícia Lanz, 26-04-2012.

O maior problema de uma pessoa transgênera ainda no armário é culpa. A permanente sensação de estar em falta com a sociedade. O medo absurdo de que, qualquer movimento de redenção – ou de reivindicação dos seus direitos – constitui pecado, crime e grave transgressão contra a “ordem instituída”. A culpa faz com a pessoa auto-imputar-se um estado de descomunal e insuportável mal-estar, proveniente da crença de que está fazendo (ou pode fazer…) a “coisa errada”. Ultrapassar esse estado de vergonha, medo e auto-punição é uma tarefa interminável, para a vida inteira. Por mais “resolvid@” que a pessoa transgêner@ se declare… Aliás, quanto mais resolvid@ ela se achar, menos é, com certeza. Quem se aceita de verdade não sai por aí, batendo no peito e dizendo que se aceita.

Todo homem que, apavorado, vê acender dentro de si esse fogo inexplicável de querer se expressar ao mundo “travestido de mulher” pensa que:

1) a fim de realizar seu desejo, terá que, primeiro, convencer todo mundo e controlar todas as variáveis que compõem o seu meio-ambiente.

Algo absolutamente im-pos-sí-vel. A única variável que mal-mal podemos controlar neste mundo é a gente mesm@. E olhe lá! Tentar controlar os outros é mais louco do que sair jogando pedra na lua!!!

2) não pode ser vist@, como não pode – nem deve – ser vist@ com quem não é conveniente ser vist@…

Faz parte da terrível “cultura da submissão”, junto com a terrível estrutura de “dominação de classe”. Você deve andar apenas com pessoas do seu “nível”, do seu círculo social e profissional. Imagine ser apanhado com um bando de “travecas desvairadas”! Mesmo estando formalmente instalado em roupas de sapo, pode dar um trabalhão danado ter que explicar porque é que você estava ali, naquele grupo, naquele lugar, naquela hora… Cultura da submissão…
Mas é impossível saber, de antemão, quem a gente vai encontrar ou não, neste ou naquele lugar, nesta ou naquela hora. As pessoas mais inusitadas aparecem no nosso caminho, do nada, nos momentos e locais mais incertos. Enfim, você jamais vai ter a certeza de que não foi vista, nem por quem você não gostaria que a visse, nem por quem você imagina que poderia ser conhecida de alguém que você não gostaria que a visse…

3) nunca estará suficientemente “preparad@ para passar”…

Se nem as próprias mulheres genéticas se sentem “preparadas para passar como mulher”, imagine @s transgêner@s, cuja ideal introjetado de “mulher perfeita” é muito superior e muito mais complexo do que a própria imagem mais requintada que uma mulher pode fazer de si mesma! Ouvi o Dr. Jalma Jurado, um dos maiores especialistas do país em vaginoplastia e, naturalmente, em cirurgia de reaparelhamento genital, dizer em uma de suas palestras que suas clientes transgênera@s eram muito mais exigentes em termos de perfeição estética do que suas clientes que eram mulheres genéticas. Portanto, relaxa e goza, pois até a Roberta Close viveu e vive crises de “não passar”!
Nessa área, o máximo que podemos fazer é o que toda mulher (e homem) sensata faz: procurar uma roupa bonita, confortável e adequada ao seu tipo físico. Que a faça sentir-se à vontade dentro dela.

4) não tem como resolver questões básicas de “montagem” e “desmontagem”;

Quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Se você estiver realmente necessitando de se expressar e tem dificuldades para fazê-lo, peça ajuda! É mais do que provável que muitas pessoas apareçam tentando de alguma forma ajudá-la. Mas ninguém vai sair por aí te oferecendo ajuda não-solicitada, correndo o risco, inclusive, de ser chamad@ de intrometid@ ou estar querendo “forçar a sua barra”…

5) logo ali, no futuro, algumas coisas acontecerão como que magicamente, fazendo com que todo o universo, que hoje conspira francamente contra, passe a trabalhar ao seu favor;

Você sabe que isso é uma grande ilusão. Tipo passar a vida esperando ganhar na loteria para pagar as dívidass que, enquanto isso, vão se acumulando cada vez mais. Se você não começar a agir – já! – as coisas deixadas a si mesmas permanecerão exatamente como estão ou, o que é pior, irão deteriorar-se cada vez mais.

Não podemos tudo que gostaríamos, mas podemos muitas coisas, que desprezamos, por não serem exatamente as coisas que gostaríamos… Mas não há maior loucura do que abrirmos mão das coisas possíveis e viáveis em nome das coisas impossíveis e inviáveis.

6) é uma pobre vítima indefesa, vivendo em uma sociedade transfóbica, necessitando de sobreviver e, portanto, tendo que sujeitar-se a todo tipo de restrição, imposição e bloqueio, por mais injusto e mesquinho que seja.

Coisas como dignidade, liberdade e auto-determinação não são coisas que nos possam ser delegadas por terceiros: – é preciso que nós as conquistemos. Não se trata, como eu digo sempre, de chutar o pau da barraca e botar fogo no acampamento. Atitudes intempestivas não produzem resultados duradouros. Mas também não podemos permanecer mergulhados no clima, altamente neurótico e necrófilo, da auto-piedade neurótica.

Se vc for esperar a boa vontade de mulher, filho(a), vizinho(a), sogra(o), amiga(o) ou a Dilmaquinista para se montar vai morrer barbada, de terno e gravata, pode ter certeza disso! Ponha na sua cabeça, de uma vez por todas, que na estrutura social brasileira, machista e patriarcal como é, ninguém aprova homem vestido de mulher, nem mesmo quem diz que aprova. No máximo, toleram, e assim mesmo somente de uns tempos pra cá, porque não querem parecer tão cafonas e ultrapassadas quanto realmente são. É preciso que você entenda de uma vez por todas que o que quer fazer é algo que não tem a aprovação da sociedade. Ou você assume os aspectos subversivos da coisa ou desiste dela. Pergunte a qualquer uma de nós: não é possível conciliar o desejo de se travestir – e de se mostrar assim ao mundo – com a necessidade, totalmente desnecessária e neurótica, de manter um controle absoluto sobre as pessoas que nos cercam (se vão nos ver ou deixar de nos ver em algum lugar e com quem; se vão nos crucificar; se vão nos abandonar; se vão nos amparar ou nos atirar na sarjeta… etc, etc).

Certamente você admira algumas pessoas transgêneras que vê por aí, livres, leves e soltas em sua “movimentação” pelos mais diversos nichos sociais. Provavelmente você as admira pela segurança e dignidade pessoal que essas pessoas lhe transmitem. Contudo, é possível que você não veja o itinerário que todas percorreram, e que nunca é feito de “pedras amarelas” e sapatinhos de cristal, como no antológico “Mágico de Oz”…

Tod@s estiveram expostas a todos esses “perigosos riscos mortais”, que hoje você está vendo praticamente em todos os lugares para onde olha. Mas, ao mesmo tempo, estão tod@s viv@s, cada vez melhores e mais felizes, vivendo suas vidas transgêner@s.

Em outras palavras, os riscos, se nos trazem ameaças concretas, também nos fazem crescer – e muito. Talvez de uma forma que ninguém poderia crescer, se tivesse ficado apenas imaginando em como é que as coisas poderiam ter sido, em vez de ter sido um pouquinho mais ousad@ e menos temeros@ numas quantas decisões existenciais.

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