Onde Comprar Roupas e Calçados…Femininos

Alguém me pediu a indicação de “lojas físicas” onde “crossdressers” sejam atendidos como “pessoas normais”, e possam sentir-se à vontade para comprar roupas e calçados femininos, sem qualquer constragimento.

Por ser um tema que sempre desperta o interesse de toda a população de crossdressers e demais pessoas transgêneras, transcrevo abaixo a resposta que lhe enviei.

Minha resposta é simples e direta: em qualquer lugar onde haja uma loja com mercadorias que lhe interessem! Aí mesmo, bem próximo da sua casa, deve existir um monte delas. Posso até imaginar você, espichando o pescoço ao máximo quando passa pela porta de alguma, “babando” pela visão das roupas e calçados femininos maravilhosos, expostos nas suas vitrines. 

Mas parece que a dificuldade está em você entrar na loja, pedir pra ver o produto, experimentar, comprar e até mandar fazer os ajustes necessários. Parece que você imagina que será tratado como pessoa “anormal” e muito provavelmente “enxotado” das lojas em que for comprar roupas femininas para uso próprio.

Não consta que as lojas de produtos femininos vendam seus produtos exclusivamente para o uso das mulheres. Pode não ser algo tão comum assim, pode até não ser amplamente aceito do ponto de vista cultural, mas eu desconheço qualquer registro de uma loja feminina que tenha se recusado a vender seus produtos para um homem que quisesse adquiri-los para uso próprio.  

Embora seja por demais óbvio, é preciso lembrar que o principal objetivo de qualquer loja deste mundo é vender, vender o máximo possível, pouco se lixando se quem compra é homem, mulher, travesti, jovem, velho, criança, branco, negro, machão, bicha, chinês, hindu, católico, crente, ateu ou o escambau. Contando que vendam as suas mercadorias, os proprietários e os vendedores não fazem a menor questão que elas fiquem para uso próprio ou sejam oferecidas de presente, como pouco lhes importa se será usada por mulheres, por homens ou permaneçam no armário ou sejam postas no lixo. Desde que os consumidores comprem, para a loja está tudo bem.

Eu até não duvido que possa haver por aí uma meia dúzia de lojas vinculadas a crenças religiosas fundamentalistas, partidos políticos radicais ou outros segmentos conservadores da sociedade que contrariem a lógica fundamental das vendas, que é vender, podendo até mesmo negarem-se terminantemente a fornecer vestuário feminino para homens usarem. Mas não só acredito ser altamente improvável que você esbarre por acaso numa loja assim ao sair para suas compras numa cidade descolada como Floripa, como acredito ser mais improvável ainda que, no azar extremo de encontrá-la, uma tal loja tivesse alguma mercadoria que lhe atraísse…

Um dos maiores equívocos dos crossdressers é justamente pensar que serão destratados nas lojas de produtos femininos se disserem aos vendedores que desejam comprar roupas, calçados, maquiagem ou adereços para uso próprio. Nem eu nem ninguém que eu conheça jamais foi repudiado em uma loja, como também acredito que jamais será, por feito um pedido assim. Ao contrário, o que tenho vivenciado ao longo da vida foi uma atenção e um carinho ainda maior por parte das vendedoras ao dizer a elas que a roupa ou o calçado feminino são para o meu próprio uso.  

Pode ser que você não goste muito do que eu vou lhe dizer, mas o problema que você diz que é das lojas na verdade é seu. Vem, na verdade, da maneira como você concebe o seu travestismo, do modo como se sente em relação a ele e a você mesmo. Não é o tipo da loja que inibe (ou estimula) o seu desejo de comprar produtos femininos: – você é que ainda não se sente completamente natural e à vontade com o seu desejo de se travestir.

Se você imagina estar praticando algo vergonhoso, ilegal ou pecaminoso ao se travestir, algo que deve ser mantido bem distante do olhar reprovador e condenatório das outras pessoas, é mais do que certo que você projetará sempre no olhar do outro essa crítica tão severa e cruel que você dirige o tempo todo contra você mesmo.

Quando você deixar de pensar que usar roupas e calçados femininos é coisa de “pessoas anormais”, como foi convencido a acreditar, desde cedo em sua vida, por força da brutal repressão que sofremos para nos enquadrar aos padrões de “conduta normal” da “masculinidade”, você será capaz de entrar em qualquer loja desse mundo, de peito aberto e cabeça (aberta) erguida, para comprar a roupa e o sapato que bem entendesse, sem se preocupar com essa asneira masculina de se é para homem ou para mulher.  Masculina porque mulher já perdeu isso há muito tempo! Hoje em dia o guarda roupa da mulher é tão livre e flexível que alguns itens tradicionais do vestuário masculino só são encontrados em lojas femininas, como é o caso da bota de montaria, do colete e do chapéu (qua qua qua quá!)…

Loja de crossdresser é QUALQUER LOJA. Não pode e não deve ser uma loja “exclusiva”, porque devemos recusar ser tratadas como pessoas estigmatizadas, que vivem à margem da sociedade. Trabalhamos e pagamos impostos como todos os demais, assim como a expressão da nossa identidade transgênera através do travestismo é garantida pela própria constituição do país que assegura a todos os seus cidadãos e cidadãs o pleno direito à livre expressão.  

Eu teria muitos “pé-atrás” com lojas que se propusessem a me atender de maneira diferenciada em função da minha condição transgênera. Antes de mais nada, eu me perguntaria em nome de que alguém resolveria atender crossdressers “com exclusividade”…

Sabe pra que? Invariavelmente para se aproveitarem de pessoas com identidade transgênera que ainda morrem de medo de se expressar publicamente, em geral com auto-estima muito rebaixada, totalmente fragilizada pela vergonha e pela culpa e, naturalmente, com dinheiro sobrando. Através de um suposto “atendimento personalizado”, manipulam descaradamente o travestismo mal-resolvido da maioria dos crossdressers que existem por aí, livrando-se de estoques encalhados a preços de encalhar qualquer orçamento, mesmo os mais polpudos. Pura sacanagem. Conheço umas lojas assim, em que proprietários e vendedores se desdobram em mesuras e rapapés ao receberem crossdressers. Têm, inclusive, instalações “privê”, onde as “monas” podem se livrar do terno e da gravata e se deliciar diante do espelho com um pretinho básico.  

Em síntese, nada nem ninguém – exceto você mesmo (ou seus apertos financeiros…rs) – podem impedi-lo de entrar em qualquer loja, de qualquer lugar, para comprar o que você bem entender. Não há nenhuma lei que obrigue homens a comprar exclusivamente “roupa de homem” em loja de homem, nem lei que obrigue o comprador a declarar para o comerciante a quem se destina a sua compra exceto, é claro, quando se trata de produtos controlados, como é o caso, por exemplo, dos medicamentos de tarja preta, antibióticos, armas de fogo e explosivos (sossegue: embora mini saia, sapato de salto e meias de seda sejam “objeto explosivos”, eles não estão incluídos nessa lista…rs).

Mesmo que ele ou ela vendedor lhe pergunte e até insista na resposta, você não está de maneira alguma obrigado a dizer o que é que vai fazer com o(s) ítem(ns)  que está comprando. Se você mente à vendedora ou vendedor que é para sua namorada, amiga, mulher, concubina, mãe, cunhada, irmã, paquera, sogra, chefa, vizinha, empregada ou periguete, é porque você mesmo quis mentir. Você mesmo é que se sente na obrigação de dizer que é para uma outra pessoa a fim de que a vendedora não descubra que você é travesti e informe aos redatores do Jornal Nacional, que imediatamente colocarão no ar, em edição extraordinária, o vídeo, gravado secretamente, com você experimentando um vestidinho da estação no provador da loja… E vou parar por aqui porque é muita paranóia para um parágrafo só!

Como é dura a vida do homem contemporâneo! Enquanto a mulher se esbalda fazendo o que bem entende, o pobre sujeito do “sexo” masculino (como se masculinidade fosse sexo…) passa metade do tempo “provando” que é homem e a outra metade “provando” que não é bicha.  Até nas lojas, onde todo mundo vai gastar dinheiro e se embonecar, o pobre diabo se sente “no dever” de oferecer essas provas!

Qual o problema que os vendedores imaginem que você não passa de um macho efeminado, de uma traveca desavergonhada e sem pudor, que vai usar aquela roupa para “fazer pista”, tarde da noite, no “ponto” das travecas da cidade?

O problema é um só, que tira o sono de 101% da população de crossdressers de um país machista como o Brasil: – porque tem medo de assumir claramente o seu desejo de se travestir e, em razão disso, ver a sua “reputação de macho ilibado” ir literalmente para as cucuias!

Pois é. Essa é a questão que você tem para resolver. Uma vez resolvida essa questão, você estará habilitado a comprar (e usar!) a roupa e o sapato que quiser (desde que tenha o seu número…), em qualquer lugar desse mundo, sem se incomodar nem um pouquinho com o que os outros possam pensar a respeito disso. Uma vez assumida a integridade do seu ser neste mundo, você descobrirá, por si mesmo, que o que os outros pensam de você, não é da sua conta, definitivamente.

Conhece aquele ditado “se você não sabe brincar, não desça para o playground”? Pois é mais ou menos isso que eu digo a todo crossdresser que pretende manter seu travestismo longe da vista de todo mundo (muitas vezes até de si próprio…). Primeiro de tudo é necessário você aprender a brincar com você mesmo, a parar de se levar tão a sério, como se sua vida não fosse tão fugaz e tão passageira. No nosso caso, aprender a brincar equivale a reconhecer-se como pessoa transgênera, com toda a inocência e naturalidade deste mundo. Quando você aprende a brincar, deixa de ter medo de descer para o playground. No nosso caso, isso equivale, dentre outras coisas, a entrar e sair de qualquer loja sem nenhuma preocupação de saber se o que vai comprar é de homem ou de mulher. Simples assim.

Uma sequência simples de passos a serem seguidos para comprar roupas, calçados e qualquer outra coisa que você queira em qualquer loja deste mundo.

  1. Você vê a mercadoria na vitrine e ela mexe com você.
  2. Você entra na loja e, se é auto-serviço – como a C&A, Pernambucanas, Renner e outras), você procura pela arara onde se encontra a mercadoria, pega uma peça de um número que acredita ser o seu e se dirige ao provador.
  3. Naturalmente, se você estiver vestido de homem e a loja tiver provadores separados para homem e mulher, eu sugiro que vá para o provador masculino, pois sua presença na certa vai causar estranheza no provador feminino.
  4. Uma vez ou outra, o(a) funcionário(a) do provador masculino poderá, sempre por conta dele, achar estranho que você esteja tentando experimentar uma peça feminina e  dizer que não é possível. Nesse caso, use com ele um argumento infalível: – você está me dizendo que para provar essa roupa eu tenho que me dirigir ao provador feminino? Tudo bem, eu vou. Mas vai causar um reboliço danado por lá. Na maioria dos casos o cara desiste por aí. Encontrando algum que resista, chame imediatamente o gerente e diga a ele que o funcionário está impedindo você de provar uma peça de roupa na qual está interessado em comprar…
  5. Provou, deu certo, ta legal em você? É só passar no caixa, pagar e se mandar da loja, contente da vida com sua nova aquisição. Não ficou legal? Ta pequeno? Grande demais? Larga ali mesmo no provador e continue as suas buscas.
  6. Se a loja não é de auto-serviço, ou seja, se tem vendedores(as), dirija-se a uma delas e peça para ver a mercadoria que lhe atraiu na vitrine. Antes que ela lhe pergunte para quem é – e a esmagadora maioria dos vendedores pergunta – diga-lhe que você quer ver uma peça DO SEU TAMANHO e complete: – será que você tem peça uma do meu tamanho?   
  7. Antes de sair às compras você deve se inteirar de qual é a sua numeração de roupas, as suas medidas de ombro, costas, cintura, quadris, pernas, assim como qual é a sua numeração de calçados e acessórios. Nem é preciso dizer, também, que você deve ter uma boa ideia das roupas e sapatos que lhe realmente lhe ficam bem. Muitos crossdressers compram não as roupas que lhe caem melhor, mas as que melhor atendem as suas fantasias. O resultado é terrível. Aliás, como acontece com as próprias mulheres que tentam seguir os modismos em vez de seguir as medidas e particularidades do seu corpo (mas esse é assunto para um outro artigo…)   
  8. Quando você já sabe a sua numeração, em vez de dizer à vendedora ou vendedor que quer ver essa ou aquela mercadoria, você pode lhe dizer, simplesmente: – pode me trazer aquela peça da vitrine na numeração X, Y ou Z?  Veja que essa sua pergunta barra, evita e dificulta que a vendedora ou vendedor lhe faça a pergunta que você tanto teme: “para quem é?” e que, por medo se ser confundida com “travesti”(kkkkkk!), você sempre responde que é “para uma amiga”…
  9. Você realmente acredita que as vendedoras e vendedores sejam tão simplórios e trouxas ao ponto de acreditarem nessa história de que a roupa ou calçado é para uma amiga ou namorada, né? É claro que está mais do que na cara que é para você! Uma vendedora, amiga minha, de uma loja feminina famosa, contou-me que ela e suas companheiras de equipe já perderam a conta de quantas vezes ouviram essa história de que “é para a minha namorada”… E a coincidência da maioria dessas histórias é que em geral as “amigas” se vestem numa numeração igualzinha a deles…
  10. Quando ela trouxer, diga a ela, direta e claramente, olhando nos olhos dela: “eu quero experimentar. É possível?”. Nesse momento, diante do seu pedido, a esmagadora maioria dos vendedores e vendedoras desse mundo vão, simplesmente, acompanhar você até o provador. Alguns, eventualmente, poderão lhe perguntar, do lado de fora, se ficou bom. Você, é claro, responde se quiser.
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3 Comentários para Onde Comprar Roupas e Calçados…Femininos

  1. Camila says:

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    Após ler este artigo, fui a um brechó e conversei abertamente com a vendedora, sentindo orgulho de mim mesma. Fui muito bem acolhida na loja e pude experimentar, à vontade, o que quis. Foi bárbaro!!!!!!

    Eu amei esta experiência e quero repetí-la mais e mais vezes.

  2. Nina CD says:

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    Ontem à noite eu consegui comprar pela primeira vez as roupas que eu queria numa loja de departamentos. Fiquei vermelha na hora de passar com as peças pela moça do provador -masculino – já que eu estava de sapo… Mas ela nem ligou. Acho que passei no teste. E foi uma delícia! A maior sensação de liberdade!!!

  3. Paola Yin says:

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    Já faz muito tempo, mesmo antes de realmente me assumir como CD, que eu já entrava em lojas femininas em locais desconhecidos. Com o tempo, fui me aproximando, passando a comprar no mesmo estado, no mesmo município e até no mesmo bairro em que moro ou trabalho. Algumas das peças que compro já foram incorporadas em meu guarda-roupas masculino e tenho encontrado boas roupas que ficam bem no look Paulo. Até hoje foram raras as vezes em que fui mal atendida (o que acontece mais em salões de beleza e consultórios médicos). No geral, sou acolhida com carinho e respeito, recebendo o apoio de quem me atende. Talvez isto se dê por duas precauções:
    1º Eu sondo a(o) vendedora(r) antes de pedir. Pergunto sobre a peça, peço para ver o meu número e manuseio. Dependendo de como é a reação, peço para experimentar ou agradeço e saio. Só quando desejo muito a peça, eu peço assim mesmo.
    2º Me assumo incondicionalmente como uma pessoa de respeito e sentimentos. Sou sempre branda e gentil. Mesmo as pessoas mais broncas se rendem à minha delicadeza.
    3º Respeito sempre o espaço da(o) outra(o). Mesmo que eu não me importe mais de ser vista montada ou semi-montada, tenho ciência que nem todo mundo lida com a feminilidade de um homem com naturalidade. Assim, evito me expor inadvertidamente, de forma a evitar o ridículo, sem deixar de me posicionar onde quer que esteja. Até já andei em uma loja de fantasias, cheia de crianças, vestida de mulher-gato. Todo mundo agiu com a mesma naturalidade que eu. Beijos, Paola Yin.

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