Moral Farisaica

O moralista - ilustração de Dürer para a sátira renacentista "A Nau dos Insensatos", de Sebastian Brant (1494)

Os fariseus se caracterizavam pela total falta de modéstia e de autocrítica. Consideravam-se superiores em tudo, demonstrando excesso de arrogância,orgulho e soberba nas suas relações comunitárias.

Dentro dessa “neura” de perfeição moral, estética, filosófica, religiosa (e carnavalesca…) eles “oravam” agradecendo a Deus por pertencerem a grupo altamente selecionado de pessoas, uma elite da época em todos os sentidos, e não terem nascidos “nem gentio, nem plebeu, nem mulher”… Traços desse comportamento podem ser vistos em Lucas (18:11): o fariseu, de pé, assim orava consigo mesmo: ó Deus, graças te dou que não sou como os demais homens, roubadores, injustos, adúlteros, nem ainda com este publicano…

Entretanto, o fato mais evidente na conduta dos fariseus é que, na prática das suas vidas, eles eram exatamente o oposto do que apregoavam em suas falsas e surradas “lições de moral e de bem-viver”. Eram exatamente os piores elementos, os que mais ofendiam e transgridem as regras mais elementares de convívio humano. O discurso moralizante dos fariseus era apenas uma máscara da sua ação nefasta e predatória dentro da sociedade.

Desde sempre, o farisaísmo tem sido um dos maiores obstáculos para a construção de um mundo mais justo e verdadeiro, em todos os sentidos. Por se julgarem acima de tudo e de todos, fariseus não se consideram, nem se permitem, ser gente. Não erram, não têm desejos “ vulgares”, não sonham, não vivem suas fantasias. Encastelam-se nos seus rígidos princípios de conduta moral – para os outros seguirem, naturalmente – uma vez que eles, “ungidos da graça divina” como se acham, não necessitam de seguir nenhuma regra de conduta…

É essa “moral de fachada” que nos vigia e espreita, do alto da sua falsa máscara de hipócrita beatitude. É o olho que julga, que pune e ofende, que jamais compreende ou acolhe. O olho que, apesar de estar profundamente entranhado dentro de nós, também está nos “outros”: – esposa, filhos, parentes, colegas de trabalho…

Penso nessa moral farisaica, quando eu me vejo, ou vejo qualquer uma de nós, sofrendo, às escondidas, sem conseguir revelar ao mundo seu desejo tão banal de ser/estar mulher. Penso na hipocrisia de uma sociedade apodrecida no fingimento, quando escuto ou leio relatos pungentes de pessoas com as quais me identifico plenamente falarem do sofrimento incompreensível e atroz, pelo simples fato de se recusarem a pertencer ao mais farisaico dos gêneros – o masculino – seja porque motivos for. Penso, enfim, na falsidade, na artificialidade da “ moralidade” humana, quando nos vejo tão desconfortáveis no nosso pleito de expressão dentro da sociedade, tão bloqueadas nas nossas confissões, impedidas de esboçar um sorriso feminino em um dia claro de verão, tendo que nos refugiar nos “armários” da vida ou nos esgueirar noite adentro, feito almas penadas, apenas para sentir um minuto de conforto e realização pessoal.

Penso nessa moral farisaica e nos praticantes dela – inclusive, e sobretudo, os fariseus instalados dentro de nós – lançando-nos seu olhar reprovador e nos submetendo à tortura da vergonha, da culpa, da negação.

A moral, legislando sobre os “bons costumes” e principalmente sobre os “maus”, é o principal eixo em torno do qual gravitam as famílias, as organizações e as sociedades. A moral é um conjunto de regras de conduta que impõe deveres, pressupondo de antemão que os indivíduos são naturalmente incapazes de deliberar livremente sobre o seu próprio destino e que, para a segurança e o bem estar da sociedade todos precisam observar as mesmas normas e padrões de conduta. Nada a obstar à moral, enquanto ela representar apenas “padrões de referência” para a conduta dos indivíduos e lhes deixar amplas escolhas a respeito do que querem fazer das suas vidas. Porém, é necessário observar sempre que sexualidade é assunto absolutamente pessoal e privado e que quanto mais autoritária (e, muito provavelmente, mais farisaica) for uma família, organização ou sociedade, mais a sexualidade dos seus membros será objeto de repressão.

Contudo, é necessário reprovar e escorraçar para bem longe essa moral ambígua e absolutamente sacana, que reprova a conduta sexual dos indivíduos , que é assunto pessoal de cada um, e faz vista grossa para a invasão do território público, por ladrões disfarçados de representantes do povo e de “escolhidos do senhor”. Que moral é essa? Que credenciais de lisura e respeito nos oferecem os seus “dignos” representantes? Malas entupidas de dinheiro arrancado com total má-fé de gente simples e de boa-fé? Fachadas de respeitabilidade, com bigode, terno cinza, gravata preta, óculos de aro e face “carregada” de pudor – ocultando comportamentos abjetos, nojentos e repulsivos?

Hipócritas é o que são, esses abjetos seres sub-humanos, que querem nos fazer sentir vergonha de ser nós mesmos, que querem que sejamos “não-guéns” nesse mundo.

Tirem suas mãos sujas e seus olhares libidinosos do meu corpo, que é a única coisa que realmente me pertence nesse mundo. Dinheiro público é que é assunto público: tirem suas mãos sujas dos recursos que pertencem a toda a comunidade e não apenas para um grupo de fariseus sujos, auto-eleitos como “escolhidos do senhor”…

Eles, os que nos vigiam e punem, querem todos os espaços do mundo, sobretudo os espaços e os direitos que nunca lhes pertenceram. Eu quero apenas o direito de ser quem eu sou.

Letícia Lanz, 19-07-2005.

 

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