Montar-se Por Dentro

“Transgeneridade” não apenas rima com “tempestade”: – ela é um grande e devastador furacão na vida de um homem. Descobrir-se transgênero – e assumir-se como tal – é um tremendo vendaval na vidinha regrada, enquadrada, rígida e bem-comportada da “masculinidade oficial”, aquela que a educação e a socialização impõem ao macho biológico.

Para os mais desavisados e desatentos, a maioria dos machos encontram-se perfeitamente ajustados e “totalmente” à vontade com esse modelo de masculinidade. Pois sim.

Mesmo quando não quer admitir, toda pessoa portadora de algum traço transgênero necessita de ajuda e apoio sócio-psíquico para estruturar e conduzir sua vida de modo razoavelmente confortável e seguro. Da chamda “CD de armário” à transexual operada, o transtorno de identidade de gênero implica num grau de dúvida, solidão e desamparo muito maior do que um ser humano “cisgênero” (isto é, perfeitamente ajustado ao gênero em que foi enquadrado ao nascer) costuma enfrentar nesse mundo. Acontece que a maioria das pessoas transgêneras, quando se dão conta da própria transgeneridade, já estão “profundamente doutrinadas” na cartilha da masculinidade, onde um dos itens mais fortes é exatamente a decantada “autonomia de decisão e ação” que todo macho deve possuir. Ser macho/masculino/homem implica em prescindir inteiramente de qualquer tipo de ajuda. E transgeneridade rima com extrema vulnerabilidade, com altíssima sensibilidade, com enorme e constante necessidade de apoio/ajuda e compreensão.

A vida de uma CD que teima em se manter solitária e independente é no mínimo muito mais desamparada, desconfortável e sofrida do que a CD que convive em um grupo de apoio, junto com outras pessoas transgêneras. Ao guardar o seu “segredo” de todos que a cercam, em nome de preservar-se e preservar os demais, a CD é mais uma vez vítima de outros dois traços extremamente neuróticos do já extremamente neurótico “caráter masculino” que é lhe imputado pela cultura: – a honra e o heroísmo.

Mas transgeneridade também rima com vaidade. Nada como uma CD olhar-se no espelho e ter aquela indescritível sensação de estar explendidamente sensual, feminina, glamurosa. Uma arte complicada de se praticar quando se é treinado exatamente para não cuidar do próprio corpo, como recomenda a conduta de um “verdadeiro macho”. Uma “grande produção” não pode ser obtida instantaneamente, apenas com o uso de produtos de maquiagem. Começa muuuuuito antes, com todo um longo e exaustivo ritual de cuidado com a pele, depilação, ginástica para se entrar em forma, alimentação adequada, escolha de vestuário compatível com o próprio biotipo, hora e local de apresentação, etc, etc, etc. O longo processo de preparação que requer uma boa montagem exige muito treinamento, muita paciência e muita perseverança no aprendizado, coisas muito difíceis de se obter sozinha e isolada do grupo.

Mas de nada adiantará cuidar da “casca” se, na sua “essência”, a CD continua insegura, aterrorizada, tendo descargas de adrenalina, vivendo a paranóia de imaginar que pode vir a ser descoberta pelos pais, vizinhos, colegas de trabalho, namorada, esposa, filhos e até pela comunidade inteira.

O “prazer de estar montada” desaparece rapidamente quando entram em cena as inúmeras outras variáveis determinantes da vida de qualquer pessoa. O segredo de ser uma “CD feliz” (urgh! parece até livro de auto-ajuda!) consiste em aprender a equacionar todas as variáveis envolvidas no processo de transformação. É preciso que a CD encontre uma maneira suficientemente “administrável” para conduzir sua vida a fim de não cair na esparrela de trocar a tristeza, a angústia e a depressão de NÃO SE MONTAR pela vergonha, a culpa e a ansiedade de ESTAR MONTADA.

MONTAR-SE DO LADO DE FORA é algo super-importante para toda CD – uma das suas principais “metas existenciais”. Mas para que as “montagens do lado de fora” não acabem sendo um festival de conflitos adiados e não-resolvidos, capazes de precipitar repentinamente enormes turbulências psíquicas e somáticas na vida de uma CD, sem falar em verdadeiras “hecatombes” familiares e profissionais, é preciso focar, simultaneamente à montagem do lado de fora, a MONTAGEM DO LADO DE DENTRO.

Tudo bem em agendar horários com maquiador, costureira, depiladora, salão. Tudo bem em passar horas escolhendo roupas e calçados. Tudo bem em sonhar com aquela saída en femme, com o calor da balada, com a volúpia do encontro com outras meninas e até “otras cositas mas”. Não há nada de errado com isso. Essa é a “piração” da vida de qualquer CD!

Mas se apenas a produção e a festa estiverem no seu horizonte, pode acreditar que grandes temporais acabarão se tornando inevitáveis na vida da CD.

Melhor defender-se antecipadamente, criando um bom guarda-chuva protetor contra as intempéries ou seja, MONTANDO-SE POR DENTRO. Aprender a equilibrar-se sobre sua própria estrutura existencial, gravitando em torno do seu próprio eixo, antes de ser capaz de desfilar com um salto 15, sonho de consumo de toda CD. Caso contrário, sinto dizer, qualquer CD vai acabar caindo do salto e torcendo o pé de modo muito feio!

Desenvolva auto-aceitação. Não teorize nem desqualifique tal esforço, fingindo que o mundo é “cor-de-rosa”. Que basta pensar para obter o efeito desejado, parecendo uma perfeita Pollyana. Aceitar-se é um desafio bem mais complexo, que não pode ser vencido simplesmente “decretando-se” que está “tudo bem” e pronto. Nada se resolve “por si mesmo” e as coisas deixadas a si mesmas sempre tendem a ir de mal a pior. A chave da auto-aceitação é CONHECER-SE. E conhecer-se implica em mergulhar fundo na compreensão da nossa própria história de vida, na localização exata do nosso desejo e dos objetos que o satisfazem, na compreensão da extensão e profundidade da nossa necessidade de expressão no mundo exterior, na nossa capacidade de nos expor ao mundo sem nos sentirmos acuadas por ele ou nos tornarmos pessoas prepotentes, narcisistas e arrogantes, como estratégia para enfrentar “a tudo e a todos”.
A maneira mais fácil de uma CD perder todas as batalhas que empreender com o mundo é exatamente a de IMAGINAR-SE NUMA GUERRA!!! E essa é outra característica terrível que a cultura masculina obriga o macho a assumir: – o traço de guerreiro permanentemente em luta com com tudo e todos. FEMINILIDADE E GUERRA são dois comportamentos diametralmente opostos, por definição!!!
Se, para auto-aceitar-se como CD, você tiver que destruir meio mundo, o que terá obtido ao final não será de maneira alguma “auto-aceitação”, mas “auto-imposição”!!!

Resolva suas “pendengas” familiares. Tem mulher, namorada, pai e mãe, filhos, amigos íntimos ou que vivem juntos ou muito próximos de você? Prepare-se então para abrir-se com todos eles o quanto antes! Quanto mais você adiar uma conversa franca a respeito da sua transgeneridade, mais complicada ficará a sua situação frente a eles. Sem falar que, caso eles tomem conhecimento do seu crossdressing por outros canais e circunstâncias fora do seu controle, será muito difícil recuperar a confiança e o respeito que hoje eles têm por você. Mas eu disse “prepare-se para se abrir”!!! E isso exclui todas as formas de “abertura intempestiva”, sem nenhuma preparação, onde a CD está pronta tão somente para levar – e dar – porradas, numa perfeita “guerra com o mundo”, como já descrevi no item anterior. Mas nem pense em resolver suas pendengas familiares antes de desenvolver auto-aceitação! Uma coisa é eu afirmar para as outras pessoas que eu sou assim ou assado, me conhecendo suficientemente bem para dizer isso de cara lavada e com os pés firmes no chão. Outra coisa é eu tropeçar nas palavras, sem a menor noção do que eu estou dizendo, sem nenhuma compreensão efetiva de quem eu sou e do que quero na vida. Uma coisa é eu me revelar pra minha mulher, namorada, mãe, irmã, amiga, filhos, etc, SABENDO, ACEITANDO E VALORIZANDO QUEM EU SOU. Outra coisa é eu me aproximar deles MENDIGANDO ACEITAÇÃO E AFETO, implorando que eles me compreendam e aceitem para que eu me sinta menos culpado em relação a eles e possa, assim, me aceitar. Culpa não serve para nada e querer que os outros me aceitem para eu me aceitar é sintoma de auto-estima totalmente rebaixada… pela culpa!!!

Avalie o custo/oportunidade de suas ações. Tudo tem um custo, seja ele financeiro, social, político, psíquico ou tudo isso junto, como é o caso mais freqüente. Mas tudo TAMBÉM TEM UM GANHO, embora a maioria das pessoas vivam muito mais empenhadas em “evitar o desprazer” do que empenhar-se seriamente na “busca do prazer”, como nos mostrou Freud. Todo mundo quase sempre tende a perceber muito mais OS ÔNUS (QUE, POR DEFINIÇÃO, SÃO SEMPRE DESPRAZEROSOS, INOPORTUNOS E INCONVENIENTES) do que OS BÔNUS. Assim, em nome de evitarem o “desprazer do custo”, a maioria pura e simplesmente abre mão de ir atrás do seu desejo. Ora, o custo da frustração sempre será muito maior do que o custo da ação. Como o ganho da ação sempre será muito maior, em todos os sentidos, do que o ganho da frustração (se é que frustração tem algum ganho que realmente valha a pena a gente se esforçar por ele…)

Faça escolhas e comprometa-se em leva-las adiante, em vez de ficar esperando que a vida ou “os outros” façam escolhas por você. Saiba que se você deixar ao encargo da vida, ou dos outros, escolherem o caminho que você deve ou não seguir, eles sempre o levarão PARA ONDE ELES ACHAM QUE VOCÊ DEVE IR – DIFICILMENTE PARA O LUGAR PRA ONDE VOCÊ QUER IR. Além do mais, ACEITAR COMO SUAS AS ESCOLHAS DE OUTRAS PESSOAS, sejam elas “boas” ou “más” no seu entendimento, É SUICÍDIO NA CERTA, porque “galinha que segue pata morre afogada”…

Seja realista quanto aos limites do seu crossdressing. Ninguém gosta de admitir, sobretudo os homens, que existem limites e restrições irremovíveis em todo processo humano, seja ele qual for. Não imagine que um macho, tendo basicamente a conformação biológica de macho, possa passar 100% como mulher, o tempo todo. Do ponto de vista do genótipo e do fenótipo (respectivamente herança genética e feições e atributos corporais) alguma coisa sempre estará fatalmente “fora do lugar”. Pode ser a voz, o tamanho do pé, a largura dos ombros, o tamanho das mãos, a altura e, é claro, a genitália. Mesmo após muitas cirurgias estruturais e estéticas, alguma coisa sempre ficará a descoberto em relação à mulher genética. Portanto, é necessário uma grande dose de realismo quando você esboçar o seu “projeto pessoal de crossdressing”. Se você escolher a Angelina Jolie como referência para a sua transformação, seja ela temporária ou definitiva, vai ter um bocado de obstáculos verdadeiramente intransponíveis pela frente. Como, aliás, até mesmo a maioria das mulheres que conheço também teriam, com certeza!!!
Se você se sente confortável com o seu órgão genital, não há porque pensar no extremo de remove-lo unicamente por “razões estéticas” do “estar mulher”. Para um segmento de pessoas transgêneras, os genitais masculinos são, de verdade, um insuportável “fardo psíquico”, ao ponto de levar a pessoa muitas vezes à loucura ou ao suicídio se não consegue remove-los. Mas se você está confortável com o corpo que tem, não há motivos para querer muda-lo apenas para romper “limites estéticos”. Eu tenho seios, mas, como eu digo, só eu sei-os! Só eu sei o quanto me custaram, custam e certamente ainda custarão, mas também só eu sei o quanto me ofereceram de volta em termos de recuperação e preservação da minha “saúde, desenvoltura e equilíbrio” biopsíquico. Mas não os obtive no “oba-oba”. Eles estavam presentes no meu horizonte de transformações desejadas e possíveis – DENTRO DA MINHA HISTÓRIA, DAS MINHAS NECESSIDADES E DA MINHA PERSPECTIVA DE VIDA. Nada de galinha que segue pata porque acha bonito mergulhar na lagoa! A coitada vai morrer afogada em suas próprias penas!!! (rs rs). O projeto pessoal de transformação é pessoal messsssmo!!! E de maneira nenhuma deve basear-se nos sucessos (ou fracassos), alegrias (ou tristezas) de outras pessoas. Muito menos em modismos estéticos ou “modelos de beleza feminina” cujo atingimento é absolutamente impossível até para a maioria das mulheres.

Assim como não podemos desconhecer ou fazer pouco caso da nossa realidade física e psíquica, também jamais devemos perder de vista a nossa realidade sócio-econômica. Se viver uma vida já nos custa muito dinheiro – que não está nada fácil de se obter – imagine viver duas!!!
Por mais prementes que sejam os desejos de expressão e de transformação de uma pessoa transgênera, há um limite concreto que ela não pode desconhecer, junto com os seus limites físicos, psíquicos e sociais. Esse limite de difícil transposição chama-se “grana” e tudo a ela relacionado, como emprego, salário, profissão, etc. Não dá para brincar nessa área, sob pena de um aumento vertiginoso das penas que a transgeneridade já nos impõe por si mesma. A sociedade ainda está muito distante de aceitar, sem restrições, a participação de pessoas transgêneras, montadas full time, no mercado de trabalho. As empresas não se mostram abertas nem estão suficientemente preparadas para empregar homens travestidos, na esmagadora maioria dos seus postos de trabalho. Mesmo sendo um profissional liberal ou empreendedor cuja atividade, em tese, independe da “boa vontade” das organizações, ninguém está totalmente livre ou isento das atitudes de intolerância e exclusão que rondam a transgeneridade em todas as suas manifestações. E perder um emprego ou clientes, no mundo atual, pode significar muitas dores de cabeça adicionais às que a gente já tem de sobra. A nossa transgeneridade não pode ficar à mercê unicamente do nosso desejo de transformação, por mais intenso que ele seja. Embora isso restrinja muito a nossa liberdade de ação, precisamos nos disciplinar pelo limite das nossas condições financeiras, por mais que isso nos magoe.

Ame-se. Depois de muuuuuitos quilômetros rodados, hoje eu estou totalmente convicta de que reconhecer – e assumir! – essa coisa de transgeneridade – para si mesmo e para o mundo – NÃO É UMA EMPREITADA PARA QUALQUER UM!!! É uma pesadíssima jornada de crescimento pessoal, a mais dura e, paradoxalmente, a mais prazerosa, que eu percorri ao longo da minha vida. E ainda estou com o pé na estrada, pois sempre que a gente pensa que chegou, ainda tem muito mais chão pela frente. Nos meus momentos mais difíceis, de mais incerteza, medo, depressão, dúvida, angústia e ansiedade, só uma coisa foi capaz de me resgatar do fundo do poço: – o meu amor por mim mesmo/a . A aceitação de que eu não estou “brincando de fingir que sou uma outra pessoa, ocasionalmente do sexo oposto”. A consciência plena de estar sendo alguém que eu realmente sou, que está dentro de mim, que sou eu mesmo/a – e não “uma outra pessoa”. Não me interessa essa coisa de gênero ou de sexo. Sou uma manifestação de mim mesmo/ a , ou seja, SOU UMA MANIFESTAÇÃO DE MIM , SEM “O” NEM O “A”. E ME AMAR é ser capaz de ME PERDOAR por não ser exatamente o que minha mulher / família / amigos / filhos / sociedade / cultura / mundo programaram / esperariam/desejariam/estabeleceram que eu fosse. Mas essa é a minha essência, a minha verdadeira natureza. Assim, se alguém está errado nessa história são eles com seus arbitrários dispositivos de gênero. Não eu, com a minha natureza humana.

Transgeneridade pode – e deve – rimar com felicidade. Mas para alcançarmos a “plenitude possível” do nosso crossdressing é preciso aprender a administrar as numerosas variáveis que compõem a nossa vida diária, de família a finanças, passando por profissão e saúde. Isso tem que ser feito respeitando-se os numerosos limites pessoais e ambientais a que estamos inevitavelmente sujeitas e com os quais precisamos conviver de maneira lógica e objetiva. Transgeneridade não é doença, assim como crossdressing – travestismo – não precisa ser uma “roleta russa”, sujeita a todo tipo de surpresas e sobressaltos. Em vez de risco e ameaça permanente, o crossdressing pode ser uma inesgotável fonte de prazer, de satisfação do desejo e de crescimento pessoal, em todos os sentidos.

Tudo isso vai depender do tipo de iniciação, compreensão e aceitação que cada uma de nós tiver do seu próprio grau de transgeneridade e das formas possíveis de expressa-la, sabendo que o ato de travestir-se é a principal delas e a que mais nos assusta – e recompensa. Mas “quem vai no oba-oba acaba sempre voltando no epa epa”. Precisa dizer mais?

Letícia Lanz
29-04-2009

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