Minha esposa descobriu que eu me monto (02-03-2012)

Minha esposa descobriu que eu me monto e desde então estou vivendo um inferno. Ela ficou chocada ao voltar das férias de repente com as crianças e me encontrar em casa, dormindo no sofá de short, blusinha, sandália de salto e ainda maquiada. Eu tinha chegado da night meio chumbado e nem sonhava dela chegar sem avisar. Como ela ia voltar só na outra semana, deixei minhas cositas espalhadas pela casa toda e até o meu computador estava aberto num site pra onde eu mando minhas fotos montada (ou quase…) Quando eu abri os olhos e vi ela ali, com meus dois filhos bem na minha frente, parecia até coisa de cinema. So que não era, meu! Era tudo real. Dá pra sacar o meu desespero? Agora ela quer acabar com o nosso casamento, diz que vai contar pra toda a minha família (meu pai é pastor, super-moralista e super-conservador) e me impedir judicialmente até de ver meu filho e minha filha, de 10 e 12 anos, dizendo que eu sou uma péssima influência para eles. A gente se casou em 1998, mas namoramos e fomos noivos desde 1994, e eu fui o seu primeiro e único namorado. Eu me monto escondido dela muito antes do nosso casamento, sempre com o maior cuidado pra não deixar rastro, pois eu não queria que ela nem ninguém soubesse desse meu vício que eu tenho desde os 5 anos de idade. Já tentei acabar com ele por diversas vezes, jogando fora todas as coisas que eu guardo nos fundos da minha oficina, mas sempre acabo voltando, comprando tudo de novo, me montando e saindo escondido pros meus passeios noturnos. Eu me sinto impotente de dizer não pra mim mesmo e parar com isso de uma vez por todas. Já fiz até terapia, mas não resolveu. Preciso de alguém que me ajude urgentemente a encontrar um jeito de impedir que minha esposa acabe com o nosso casamento, pois eu não quero, de jeito nenhum, perder a minha família desse jeito. Eu amo a minha mulher e também não posso viver longe dos meus filhos. Por favor, dê-me ao menos uma luz, porque estou completamente desnorteado, sem saber o que fazer. M L Teixeira, Belo Horizonte – MG.

 

Caro M L,

Quem é casada, feito eu e você, que gosta muito da ideia de ter esposa, família, filhos, netos e tralha e tal tem trabalho triplicado. Além de carregar a carga transgênera, que às vezes é um senhor fardo, tem que passar boa parte do tempo conversando, explicando, mostrando, se expondo, convencendo e olhando no olho da mulher genética com quem vivemos, dos filhos, dos parentes, dos amigos próximos. É preciso rebolar (e nem pode ser muito, pra não dar bandeira…). O direito a ter e a desfrutar de uma família é um dos itens mais ostensivamente negados às pessoas transgêneras, às vezes de maneira sutil, às vezes de maneira até grotesca, mas sempre sob a alegação de que a gente não é “normal”. A revelação ou a descoberta da identidade transgênera de uma pessoa NÃO PODE ser motivo de sua exclusão da família! Aliás, o momento da descoberta ou revelação é a hora que a pessoa transgênera MAIS PRECISA do apoio dos seus entes queridos. Trata-se de um procedimento muuuuuuito injusto, sobretudo quando a pessoa declara sua vontade (e sua necessidade!) de continuar vivendo em família. Travestismo e família NÃO SÃO incompatíveis!!! É preciso acabar com esse circo onde a pessoa é excluída sumariamente do convívio familiar só porque tem uma identidade fora do binômio masculino-feminino.Mas ainda teremos que lutar muito para mostrar isso à sociedade e exigir dela o PLENO RESPEITO AOS NOSSOS DIREITOS E AO NOSSO BEM ESTAR.

Até agora, você sistematicamente evitou fazer as duas coisas: – evitou conversar com sua mulher, familiares e amigos e evitou participar, ainda que modestamente, de algum grupo transgênero de apoio e convívio. 

Neste momento, infelizmente, não há muito a fazer além de ter paciência e esperar que a poeira se abaixe. Mas é bom não achar que ela vai se abaixar inteiramente…  Sendo sincera com você, casos semelhantes ao seu tornam-se grande divisores de água na vida das pessoas envolvidas; dificilmente as coisas voltam a ser como eram antes da ocorrência. No seu caso específico, há muita mágoa em jogo e mágoa é um sentimento que não desaparece facilmente. Imagine como sua mulher está se sentindo neste momento: traída, enganada, envergonhada, confusa, amedrontada e com muita raiva de você. Nessas condições, qualquer mortal, por mais pacífico que seja, acaba pensando em algum tipo de vingança, como esta de contar tudo pra sua família e detonar de vez sua reputação junto ao seu pai.

A coisa mais importante a fazer neste momento é dedicar o máximo de atenção possível aos seus filhos. Pelo que você disse, eles também viram você montado, dormindo no sofá, e devem estar bastante confusos com o que presenciaram. Por outro lado, podem estar sendo alvo de fortes descargas emocionais da mãe, ainda que não seja intencionalmente. Enfim, eles estão precisando de muito carinho e apoio para não sofrerem danos psíquicos maiores. É preciso que você converse com eles, expondo os fatos no nível do entendimento deles, sempre do modo mais claro, objetivo (e amoroso…) que você conseguir, sem omitir nada, sem dourar a pílula, sem tirar o corpo fora e sobretudo, sem lhes mentir.

Essa é também a minha recomendação quanto ao modo de proceder com sua mulher: a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade. Agora você deve estar sabendo como poucos o quanto uma mentira ou uma “omissão de verdades essenciais” podem ser devastadoras para a saúde de um relacionamento.

Crossdressing é uma prática que não causa nenhum mal a ninguém que nos rodeia, desde que a pessoa transgênera observe sempre algumas regras de conduta em relação às pessoas com as quais convive de modo mais íntimo ou próximo, como companheiras (esposas, namoradas, noivas, parceiras, etc), filhos que já podem compreender certas coisas, amigos muito chegados ou pais, irmãos e outros parentes, quando ainda se vive na casa dos pais. Essas pessoas precisam e devem ser informadas o quanto antes a respeito do nosso desejo de nos travestir como parte muito importante da expressão da nossa identidade transgênera. Devemos dizer a elas, sem rodeios nem subterfúgios, como esse desejo se manifesta em nós, com que frequência e intensidade ele aparece, a terrível carga emocional de vergonha e culpa que nos aflige, condenando-nos a uma vida isolada e solitária, como também o prazer e a satisfação que sentimos quando podemos manifestar integralmente a nossa identidade transgênera. Em síntese, dizer-lhes tudo que sabemos a respeito de nós mesmos, inclusive nossas dúvidas e inseguranças, que costumam ser muitas e imensas, tudo sem rodeios, sem mentiras ou “meias-verdades”.

A maior parte dos crossdressers casados repudiam terminantemente a ideia de contar para as esposas, preferindo a aparente segurança de levar “vidas paralelas”. Todos que agem assim afirmam ser totalmente capazes de administrar a situação de forma a que suas esposas jamais venham a saber das suas “peripécias transgêneras”, pois se cercam sempre de todos os cuidados necessários. O problema é que, por mais que julguemos ter o controle de todas as variáveis envolvidas numa dada situação, sempre existirá o fator “acaso”, totalmente imprevisível e absolutamente fora da nossa esfera de controle. Exatamente como ocorreu no seu caso.

Por medo da repercussão negativa que uma tal revelação fatalmente teria sobre a imagem de “macho ilibado” na família e na sociedade, a maioria prefere esconder esse lado tão essencial da sua personalidade, optando por fingir que estão longe de qualquer “desvio de conduta de gênero”, enquanto levam uma vida em paralelo, totalmente desconhecida das pessoas com quem normalmente convivem.   

A alegação de que abrir-se pode ser – como geralmente é – um desastre na vida da pessoa e da família é a grande defesa que têm ao seu favor. Infelizmente, a maior parte da sociedade está léguas de distância de compreender o comportamento transgênero como algo perfeitamente normal e aceitável, como efetivamente é. Mas também ocultar a nossa verdade das pessoas que nos cercam, vigiando e cuidando, sob permanente tensão, para que elas nunca descubram, não significa que jamais seremos descobertos, pois nenhuma estratégia de “ocultação de cadáver” é 100% segura, como o seu caso infelizmente nos mostra.

Por mais atento e vigilante que alguém esteja para que jamais suspeitem do seu travestismo, basta um pequeno deslize, um mínimo esquecimento, para que muita gente se sinta enganada e traída ao nosso respeito e, por consequência, julgue-se no direito de nos julgar, criticar, condenar, rejeitar, retaliar e punir, de modo quase sempre vingativo, desmesurado e irracional.

Por outro lado, se abrimos os fatos relacionados à nossa identidade transgênera, pelo menos para as pessoas mais próximas de nós, sublinhando sobretudo a necessidade compulsiva de nos travestir, que tanto nos atormenta quanto encanta, podemos receber delas o mesmo tipo de reação anterior, ou seja, julgamento, crítica, condenação, rejeição e exclusão.

Eis um impasse muito difícil de resolver, do tipo “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.

A opção aparentemente mais segura é não dizer nada e contar com a sorte de ninguém nunca nos descobrir. Entretanto, quem frequenta este site há mais tempo sabe que eu sou totalmente contrária a essa escolha, devido às terríveis e incontornáveis consequências que uma inadvertida descoberta pode acarretar na vida de uma pessoa transgênera, exatamente como está acontecendo com você agora. 

Sempre enfatizei neste site a necessidade de homens transgêneros casados se abrirem inteiramente, e o quanto antes, com suas parceiras matrimoniais, expondo-lhes seus desejos e compulsões de se travestir, com ou sem conotação sexual, da forma mais clara, objetiva e direta possível. Mesmo que não haja aceitação, que haja repulsa e condenação, pelo menos as coisas foram ditas e ditas claramente. E como nada está acontecendo de afogadilho, o tempo terá muito tempo para ajudar o casal a reorganizar suas relações ou cada cônjuge tomar o seu próprio caminho, com o mínimo de desconforto e, sobretudo, com ninguém se sentindo enganado ou traído.

Na sua atual situação não será nada fácil retomar as rédeas e agir da maneira acima exposta. Como você sabe, “consertar” um relacionamento é muito mais complicado do que construir um, em bases mais sadias. Mas ainda que neste momento sua mulher esteja querendo ver você “pelas costas”, não há outra coisa a fazer além de tentar conversar com ela, abrir-se com ela, de forma realista e verdadeira.

Considere-se um afortunado se ela, pelo menos, depois do que ocorreu, ainda estiver disposta a conversar com você. Deixe que ela fale tudo que quiser, que xingue, que esbraveje, que pragueje e maldiga a vida e os deuses por ter conhecido você.  E quando ela estiver mais calma, dessa vez fale e lhe conte toda a sua verdade, como deveria ter feito há muito tempo atrás. Sem nenhum tipo de arrogância mas com a humildade de quem quer fazer as pazes e recuperar, senão o casamento,, o direito de ser respeitado e amado pelo que é.

(Os nomes verdadeiros são omitidos a fim de preservar o sigilo das consultas.)


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