Meu Marido Assumiu Que É Transgênero

Gostaria muito de saber como lidar com esse momento dele. Primeiro foi repulsa; depois insisti para ele fazer terapia e se abrir, pois desde pequeno ele se traveste (6 anos). Gostaria de entender melhor essa situação. Já li suas matérias, mas ainda falta muita informação para mim. Ele sempre se veste (em casa) mesmo. Temos 2 filhas, somos casados há 8 anos e estamos juntos há 14. Descobri há pouco mais de 2 anos. Até o momento, eu não sabia o que fazer. A terapeuta indicou o seu site e aos poucos estou me esclarecendo de uma série de coisas… Mas no geral, sendo verdadeira, senti o chão se abrir debaixo dos meus pés… Aguardo um retorno. Obrigada. Regina A. Santos (São Paulo – SP).

Prezada Regina,

Se falta informação pra você, eu também não fico muito atrás, não. Apesar de sempre ter dedicado boa parte do meu tempo a estudar esse fenômeno da transgeneridade, quanto mais eu me aprofundo na pesquisa, na reflexão e debate, mais eu tenho dúvidas a respeito desse tema, tão vasto e controverso.

A cada dia que passa, coloco em cheque alguma afirmação ou crença das muitas que existem por aí a respeito de pessoas transgêneras. Pensa-se e fala-se muita bobagem, que as próprias pessoas transgêneras acabam aceitando como verdades. Mas sentindo o fenômeno debaixo da minha própria pele, e convivendo com pessoas que também têm convivido com ele a vida inteira, em vez de firmar a minha posição em torno de uns poucos conceitos “definitivos”, vejo ampliar-se cada vez a minha perspectiva de análise.

A transgeneridade compõe um universo de comportamentos muito mais complexos e diversificados do que supõem os conceitos que hoje são aceitos pela maioria. Aliás, em se tratando de gênero, estou cada vez mais convencida de que cada pessoa é uma pessoa, o que torna ainda mais desprezível e ultrapassada essa ridícula divisão binária da espécie humana em apenas dois gêneros, masculino e feminino, em função da genitália que cada indivíduo traz entre as pernas ao nascer.

Tudo que tenho visto e pesquisado me leva a concluir que deveriam existir milhões, bilhões, de categorias de gênero! O melhor mesmo seria um gênero para cada ser humano, o que equivale dizer que não existir GÊNERO NENHUM, sobretudo como critério de classificação das pessoas.

Veja o seu caso, semelhante ao de numerosas outras esposas mundo afora, que vivem momentos de angústia ao descobrirem que seus maridos são transgêneros. Tanta aflição apenas por uma polaridade de gêneros que todo mundo aprende a reconhecer como fato natural e irreversível, quando se trata de algo absolutamente artificial e arbitrário. Tão artificial e arbitrário que pode ser mudado a qualquer momento! Ser homem ou ser mulher não é uma questão de nascimento, mas de aprendizado social. O sexo entre as pernas pode até ser biológico (embora até isso seja discutível), mas a afinidade de cada pessoa com os papeis e comportamentos sociais não tem nada de biológico. Trata-se de pura percepção pessoal e treinamento social. O fato de eu ter nascido macho e preferir usar saia e maquiagem no lugar de calça, paletó e gravata não tem nada de biológico, porque não existe nenhum “gen” determinando que homens devem usar calças, e nunca usar maquiagem, e mulheres devem usar saias, e sempre se maquiar… 

Pela elevadíssima repressão e rejeição que socialmente sempre se exerceu contra a transgeneridade, qualquer um pode perceber que ela é sinônimo de “transgressividade” de gênero. Sendo a divisão binária de gêneros a base de todo o gigantesco castelo social construído pela civilização, é mais do que justificado que assim seja. Transgredir o gênero é colocar em risco a própria ordem sócio-política”. Ainda que a maioria não tenha a menor consciência disso, tod@ transgênera@ é subversiv@, quer a pessoa queira, quer não. Quando você disse que, ao saber da transgeneridade do seu marido, “o chão se abriu debaixo dos seus pés”, estava mostrando com isso o quanto esse comportamento dele coloca em risco todo o equilíbrio do casal e da família dentro da sociedade em que vivemos.

É exatamente isso que faz você sofrer: Imaginar que você e sua família serão excluídos do convívio com pessoas “normais” (ou seja, que seguem as “normas” da sociedade…); que o seu marido poderá ser objeto não apenas de “gozação” por parte dos colegas, vizinhos, amigos e inimigos, mas poderá até mesmo ser alvo de violência; que suas filhas serão olhadas de modo estranho na escola, em virtude de terem um pai que se veste de mulher… É praticamente inesgotável o repertório de maldades que essa hipócrita sociedade de pessoas ”normais” é capaz de fazer contra pessoas que transgridem as sagradas – e bestas – regras de gênero. Isso lhe dá pleno direito não só de ter medo do que o futuro reserva para você, na condição de cônjuge, e para suas filhas, em virtude do pai que têm, mas para o seu próprio marido transgênero. Se ele está empregado em uma organização, dificilmente vai conseguir se manter na condição de chefe ou profissional de alto nível: – espelhando a própria sociedade, as organizações são terrivelmente transfóbicas; não toleram pessoas transgêneras em seus quadros, a menos que elas permaneçam totalmente “armarizadas”. Até como empregado comum, numa linha de produção, o seu marido terá dificuldade para manter o emprego dele. Como profissional autônomo, também não será nada fácil manter o orçamento doméstico, pois boa parte dos clientes desaparecerão com desculpas as mais esfarrapadas possíveis. Só no serviço público é diferente pois o fato de possuir “estabilidade” no emprego inibe a ação predatória de superiores e colegas preconceituosos (a maioria, sempre), embora não elimine a redução substancial de oportunidades de crescimento.

Essa é realidade que vocês têm pela frente, como indivíduos e como família. E é exatamente o temor das consequências catastróficas dessa realidade que leva a maioria das pessoas transgêneras a se manterem trancadas em seus armários, sofrendo em silêncio o assédio do desejo de expressar ao mundo quem a pessoa realmente é, sem jamais conseguir fazê-lo “em paz”.

Não pense você, contudo, que eu apoie os que se mantêm trancados em seus armários, pelo medo das represálias que poderão sofrer. Fugir do próprio destino é como tentar correr da gente mesmo. Por mais que a gente pense ter se afastado, acaba descobrindo que continuamos ali, bem dentro do nosso próprio nariz!

Portanto, se o seu marido chegou à conclusão que agora é o momento dele se realizar como pessoa – que é, de longe, a única tarefa que realmente vale a pena nos empenharmos ao máximo neste mundo, já que é a nossa própria razão de ser – ele tem todo o meu apoio, todo o meu respeito e todo o meu carinho. E se a busca dele é verdadeira, genuína, seminal, ele jamais ficará desamparado, pois a vida não abandona ninguém que está lutando para expressar a própria vida que traz dentro de si! Esta é a nossa única missão neste mundo.

Sei que você, também por mais medo e ansiedade que sinta, saberá encontrar a sua própria oportunidade de crescimento nessa história. Permanecendo ou não ao lado dele, será igualmente impossível abdicar da consiciência e do crescimento que a situação está lhe impondo. Mas se você ficar com ele, que não seja por piedade, por interesse, ou por medo seja lá do que for. Que seja por amor, respeito, carinho e amizade.

Tudo dependerá dele estar sendo realmente verdadeiro, com ele mesmo, com você e com suas duas filhas. Não é porque alguém é transgênero que tem que renunciar a viver ao lado das pessoas que ama. A minha própria experiência pessoal tem me mostrado que é perfeitamente possível conciliar todos os nossos papeis com a nossa identidade, pois ser transgênero é normal e é legal.

É o que tenho para lhe oferecer no momento, minha cara amiga, desejando que a verdade prevaleça entre você e seu marido, sempre. Apenas uma palavra final: quando tiverem superado essa fase tão difícil de transição, lembrem-se de oferecer o depoimento da sua busca para servir de referência a outras pessoas. Há muita gente esperando para iniciar a própria jornada de transformação pessoal, só precisando de uma palavra de verdade e força, vinda de gente como vocês. Carinhosamente,

Letícia Lanz, 13-05-2012


(Os nomes verdadeiros são omitidos a fim de preservar o sigilo das consultas.)


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Um Comentário para Meu Marido Assumiu Que É Transgênero

  1. Eu não conhecia esse site,estou, confesso que emocionada pela informação que obtive durante a leitura que acabei de fazer sobre trangêneros.Tenho essa experiência na minha vida,através do meu filho,que quando criança,por causa da nossa ignorância,eu e meu marido não soubemos dar pra ele o suporte necessário para que tivesse uma infância e uma adolescência feliz,se transformando numa pessoa triste e infeliz.Depois de muitas terapias ele revelou ser homossexual,resumindo:nosso amor por ele triplicou e as preocupações também,pois sabemos que vivemos num planeta homofóbico.

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