Meu Jeito de Ser Gente

Meu Jeito de Ser Gente

Geraldo Eustáquio de Souza. Com esse nome tenho vivido a vida inteira, mesmo sem jamais gostar dele nem me identificar com ele. Mesmo sendo o nome do meu querido pai, seguramente o melhor homem que conheci em toda a minha existência. Mudá-lo sempre foi minha ideia fixa. Só que nome é um troço ainda mais rígido do que ideia fixa! É uma marca permanente, irretocável, indelével e imexível na vida de qualquer pessoa. A menos que a gente tenha um motivo que o juiz de plantão venha a considerar como “pra lá de justo”, mudar de nome é praticamente impossível. Ainda mais no meu caso, em que “identidade de gênero” continua sendo visto como “motivo menor”, sem importância e até mesmo “fútil” pela maioria dos juízes de plantão. E no entanto, só quem viveu com esse conflito a vida inteira sabe o peso monstruoso, o efeito devastador, que a questão da “identidade de gênero” tem na vida de pessoas transgêner@s.

Por décadas, tenho vivido com um nome que não corresponde à pessoa que eu sou e que, como qualquer outra pessoa, eu também desejaria poder mostrar ao mundo, com orgulho e dignidade, em todos as ocasiões. Mas, também, por décadas, fui absolutamente impotente para vencer o bloqueio que, desde criança, havia sido imposto à livre expressão da minha identidade de gênero. Enfim, por décadas fui interditad@ por eficientíssimos mecanismos de auto-repressão, encabeçados pelo medo paralizante de perder até mesmo o nome que eu nunca gostei e que nunca me representou de verdade.

O mais engraçado é que o nome pelo qual eu nunca tinha morrido de amores foi a primeira coisa que perdi quando, no limite da minha auto-repressão, comecei a assumir publicamente o nome de Letícia Lanz. E perdi de uma forma muito cruel, pois junto com ele foram anos e anos de exercício de uma profissão, como se nada do que eu fiz tivesse tido alguma importância neste mundo.  Letícia Lanz é o nome que eu escolhi para me batizar na pia da vida. O nome que trago tatuado na minha própria alma, como símbolo do carinho por mim mesm@ e do sofrimento de quem teve que esculpir na própria pele o seu eixo existencial.

O nome que eu nunca gostei desapareceu tão rapidamente como se nunca tivesse realmente existido. Perdeu-se no vazio, como no mais completo vazio mergulhou a minha reputação de consultor empresarial, de psicanalista, de palestrante, de poeta, escritor e pensador, pacientemente construída ao longo de anos de trabalho. É claro que eu sabia que isso iria acontecer, que ninguém me estenderia tapete vermelho e me cumprimentaria por minha audácia e coragem de assumir a minha verdade existencial diante de todos. Ainda mais sendo uma verdade que, mesmo diante das “maravilhas tecnológicas” do século XXI, consegue gerar mal-estar e desconforto na maior parte das pessoas, até naquelas que se consideram mais evoluídas e “descoladas”…

A verdade sempre perdeu feio para qualquer mentira, até mesmo para mentiras muito mal-contadas, como são a maioria das “verdades” que existem por aí. Mas também perdeu feio quem apostou que eu perderia alguma coisa de valor ao ser posta à margem do mercado de trabalho e excluída do convívio com gente “normal”. Menos dinheiro em caixa e um corte drástico nas oportunidades de trabalho foi um preço até modesto para obtenção da minha carta de alforria, para a liberdade de poder ser eu, do jeito que eu sou, sem ter que fingir ser uma pessoa que eu nunca fui. E considerando que ninguém me jogou pedra, nem me dirigiu palavras ásperas ou fez comentários indecorosos ao meu respeito, posso até me considerar um felizardo, numa sociedade onde homem morre de pavor de ser ao menos comparado com a mulher. Fui apenas convenientemente esquecid@, o que é mais do que muito, considerando que transfobia é quase uma religião para uma grande maioria de homens e de mulheres neste país.

Eu sabia ser inevitável o desprezo oficial pelos meus ofícios e a minha discreta exclusão de toda a atividade profissional que exerci ao longo da vida, com tanta garra, amor e brilhantismo. Num país ainda tão patriarcal-machista como o nosso, até mulheres muito avançadas não conseguem disfarçar seu desconforto e estranhamento diante de homem que, por simples “capricho”,  “passa a se vestir de mulher”… Essa é a leitura simplista e chinfrim que ainda fazem por aqui do devastador conflito de identidade de gênero que, segundo a própria Organização Mundial de Saúde, atinge de 1% a 5% da população adulta do planeta. 

Mas, como eu disse, devo até considerar-me felizard@ por não ter sofrido nenhum desrespeito ou mesquinharia. Apenas fui lançada no ostracismo do “mercado”, criando-se em torno de mim uma densa cortina de fumaça, um “barulhento” silêncio, como se eu tivesse desaparecido completamente da vida das pessoas e das empresas com quem convivi durante tanto tempo, prestando valiosos serviços. Talvez tenha sido mesmo a melhor forma de me preservarem de males ainda maiores, pelo que, desde já, agradeço o apreço, o carinho e o empenho de todos.

Do meu lado, tenho buscado corresponder inteiramente ao desejo de esquecimento, afastando-me e silenciando-me, em sinal de respeito a todos e todas que não puderam – e que talvez jamais possam – compreender e aceitar a minha natureza humana.

Letícia Lanz, 04-06-2012.

29 Comentários para Meu Jeito de Ser Gente

  1. Helena Moreira Santos says:

    Letícia, boa tarde! Gostei do texto!
    Como você faz para sobreviver já que as oportunidades se foram? Outras oportunidades apareceram? Quais?
    Beijo.

    Helena.

    • Letícia Lanz says:

      Na minha vida, as oportunidades nunca “apareceram”: – eu sempre tive que construí-las com muito esforço e determinação. É o que continuo fazendo. Para cada porta que se fechou, tenho certeza que, ao seu tempo, uma outra vai se abrir.

  2. Eduardo Vieira says:

    Pra mim não muda nada. Sua palestra foi a melhor que assisti até hoje. Mudei a minha vida em função dela. Espero que você nunca pare de fazer palestras. Achei muito bom encontrar você outra vez. Abs

  3. Letícia Lanz says:

    Obrigad@ Eduardo. Valeu.

  4. Alexandre Carlos de Souza says:

    E aí mano? Vejo que sua vida mudou pra caramba, né?
    Apenas uma curiosidade minha: este nome, “Leticia Lanz”, tem algum significado especial para vc ou vc simplesmente gostou do tom das palavras?
    No mais, um grande abraço.
    Alex

  5. Juliana Müller (Hemerson Müller) says:

    Amiga Letícia,
    Esse é o meu maior dilema. Estou prestes a sair de vez da obscuridade e assumir a minha verdadeira identidade transgênera. Mas como resolver o embate: – crossdresser x trabalho? Estou estudando muito, acabei de me formar Técnica, passei para outro curso técnico e prestei vestibular para a faculdade. Sou palestrante sobre Diversidade sexual, e tenho tido resultados excelentes, em parte por eu aparecer muito bem travestida e dar depoimento sobre o meu crossdresser mas, por enquanto só me pagam ajuda de custo. Não vou desistir nunca, eu não abri o armário: eu arrombei a porta (kkkk)! Mas se você tiver alguma dica, eu ficaria grata.
    Um grande BEIJO, pois te considero a minha melhor amiga. Mesmo não te conhecendo pessoalmente, sua luta e seu site me ajudaram muito!!! Juliana Müller

  6. Silvio José dos Santos says:

    A pessoa mais simples e sincera que já conheci. Amiga de todas as horas. Companheiro que esquece dos seus próprios problemas para aconselhar a todos os que o procuram. Sinto-me honrado por Deus ter me permitido conhecer e conviver contigo. Saiba que sempre estarei ao seu lado e honrado de poder lhe chamar de meu amigo. Obrigado por você existir. De seu eterno amigo, Sílvio.

  7. Luiz Carlos Santos says:

    Sua história me tocou muito, Letícia. É legal demais encontrar alguém como você, caminhando firme e com tanta determinação em busca de viver sua própria realidade. Obrigado por compartilhar.

  8. Audizia Godinho says:

    Grande Leticia, foi e será autêntica, libertária . Vá em frente amiga e continuo te admirando mil.
    Audizia

  9. Luiza Fernandes says:

    Seu trabalho é seu trabalho e vc sempre o fez muitissimo bem feito, Geraldo. Todas as suas palestras sempre foram maravilhosas e só não aproveita quem não está a fim de crescer e ser feliz. Espero que você continue a ministra-las, sempre! Luiza

  10. João Baptista says:

    Pouco importa que seja Geraldo ou Letícia, aprendi e aprendo muito com você. E acho sinceramente que a Letícia tem mais a sua cara. Abs do João Baptista.

  11. Angela Maria de Souza Almeida says:

    Leticia, sou sua fã. Eu acredito que a humanidade caminha para o posgenerismo. Sou cisgênera e minha ideias concatenam com as suas. Estou escrevendo um livro cujo título é “Orgasmo Elétrico: mito ou realidade” que trata de sexualidade saudável para o ser humano e que vai estar nas bancas em maio de 2013 (provavelmente). Seria um prazer conhecê-la pessoalmente e, se fosse possível, seria uma honra recebê-la no lançamento. Um abraço. Angela Almeida.

  12. Leticia ou Geraldo Eustáquio, que é como eu o conheci, para mim não faz a menor diferença. O que vale é grande talento que você tem de escrever, falar ao público de forma honesta e sincera, sempre agregando valor e nos fazendo refletir sobre a vida e sobre como podemos ser mais felizes. É o que lhe desejo: que você esteja feliz e continue tendo muito sucesso. Divulgue, por favor, suas palestras e os locais onde estão ocorrendo para que eu possa comparecer e/ou indicar outras pessoas. Abraço, Shirlene.

  13. Renata Lacerda says:

    Vejo que você continua fazendo a diferença, cada vez mais. Parabéns pelas transformações! Adorei! Queria muito encontrar com você pessoalmente. Quando virá a Brasília? Beijo da Renata.

  14. Álvaro A. Lins says:

    Geraldo/Letícia, Há muito tempo assisti uma palestra tua aqui no Rio. Saí de lá maldizendo a hora em que te conheci. Quem é esse cara que diz coisas tão verdadeiras de modo tão direto, sem rodeios? Eu me perguntei. Mas por mais resistência que eu tive, dali pra frente minha vida mudou. Eu mudei e pra muito melhor. Quero dizer que está sendo um prazer reencontrar A MESMA PESSOA quem me deu um pontapé um dia pra eu sair do conforto e começar a viver pra valer. Você está ótima e muito linda. Uma senhora senhora! Obrigado por existir!

  15. Sueli Pacheco Bernardes Costa says:

    Geraldo/Letícia. Vou ainda chamá-lo pelo nome que conheci Geraldo Eustáquio, mesmo sabendo agora que não é o nome que você se identifica, mas é como te conheci há vários anos atras ( Horizonte EPEME), e de quem guardo excelentes lembranças. Agora te encontro como Letícia e é com grande alegria que te parabenizo pela ousadia, coragem e como não dizer “macho pra caramba”. Afirmo como depoimento pessoal que conhecer você e sua família fez uma grande diferença na minha vida. Hoje graduada atuo na área da Assistência social e, posso afirmar com toda convicção que uma boa parte desta conquista se deve a você, pessoa unica, diferenciada, que Deus colocou em minha vida. Parabenizo mais uma vez por sua coragem e digo que minha admiração por você só aumentou. Desejo muita paz em seu coração e sucesso nesta nova caminhada….. Torço por você. Um grande abraço!
    PS: leio todos os textos que você publica, são sempre excelentes, continue assim.!!!

  16. Lorena says:

    Sensacional sua história, sua página e você mesma que é uma mulher lindíssima. Parabéns. Beijo da Lorena.

  17. Marcela Oliveira says:

    A Letícia é muito chic. Que nem o cartaz do Geraldo que amarelou na minha parede mas nunca saiu de lá e tem mais de 20 anos. Muito bom reencontrar você. Torço muito por você, viu? De Geraldo, de Letícia ou de outro jeito que você inventar. Marcela

  18. William L S Dutra says:

    Puxa vida, cara! Que coragem, meu! Com 10% dessas provações eu já tinha ido a nocaute! Mais gente precisava saber da sua história pois vc sempre foi e é cada vez mais uma grande referência de vida. Meu abraço cordial, William.

  19. Ricardo says:

    Assisti uma palestra sua faz uns 10 anos e ela mudou toda minha vida. Mudei de função, depois de profissão, depois de empresa e hoje tenho o meu próprio negócio que vai muito bem obrigado. Encontrar você de novo dez anos depois vai mudar minha vida de novo, pode crer! Um abraço fraterno do Ricardo Drummond (vc não lembra de mim mas eu sempre me lembro de você e agora com uma razão a mais: a Letícia…)

  20. Júlia Barroso says:

    É preciso ter muita coragem, Geraldo/Letícia (vou continuar te chamando de Geraldo até me acostumar, se me acostumar…). Mas fico pensando em você, esse tempo todo, guardando isso tudo dentro de você e aí fico morrendo de pena. Mas agora estou vendo que você está feliz. Suas fotos de Letícia são pura felicidade. Só sei que é impossível não te amar e eu vou te amar sempre!

  21. Garcinia Lemos says:

    Mestre: eu só tenho a lhe agradecer pela coragem de ser você mesma, a BELA Letícia! Nos seus livros Eu comigo aqui e agora e Muito Prazer em Me Conhecer pra mim estava claro que alguém como ela existia em sua vida… Eu só não sabia quem era até agora. Fiquei muito feliz de finalmente conhece-la!

  22. Denis Moreira says:

    Letícia, você é um exemplo. Quero ter forças para seguir um exemplo como o seu. Obrigado por existir!

  23. Maria Romano says:

    Letícia, você é um anjo que veio para nos ajudar a ser gente!

  24. M.C.Torres says:

    Pra quem conheceu você antes e conhece você agora só existe crescimento e progresso humano. Continuo a usar todos os seus escritos (agora vou usar também os da Letícia) com os meus pacientes e grupos. Feliz de ter encontrado. Gostaria apenas que você relançasse os textos e materiais da companhia para crescer. Posso esperar? Um grande beijo, Malu.

    • Letícia Lanz says:

      Oi Malu,
      Agradecida pelo seu feedback. Será que já nos conhecemos pessoalmente? Quanto ao material da Companhia Paracrescer em breve estará de volta na rede. Prometo. Bj, Letícia

  25. Verônica Prado says:

    Dá-lhe Letícia!!! Surpreendendo sempre! Acho que a próxima vez que eu te encontrar vc já será um ET…rs. Parabéns pelas transformações. Saudade das suas palestras aqui na empresa… Beijos

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Última Atualização: 11-07-2013

Data da Instalação: 29-06-2008