Meu filho é gay

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Sou de uma família muito tradicional, tive 2 filhos, uma menina de 14 e meu filho, de 19. Quando ele tinha 17 anos, comecei a observar o seu comportamento diferente. Comecei a perceber algo estranho quando ele estava no computador. Quando eu chegava perto, ele minimizava e eu não conseguia ver com quem estava falando no msn. Às vezes eu via fotos, mas sempre só de homem. Até então não tinha certeza, mas minha filha de 14 um dia chegou pra mim e falou que eu ia ficar triste, mas mesmo assim ela iria me falar. Foi aí que me falou que meu filho era gay. Pra mãe, o filho é sempre filho. No começo só chorava o tempo inteiro. Foi muito difícil pra mim, como está sendo. Nunca tive coragem de contar para meu marido porque ele ficaria muito decepcionado e triste. Ele é muito calado, não fala muito o que sente, sabe. Eu acho que ele sabe, mas não quer se abrir. Meu filho se abriu comigo, chorou bastante, aceitei a situação, sempre converso muito com ele sobre as doenças, enfim, sobre as consequências. Mas meu filho começou a abusar, levando os amigos pra nossa casa e fazendo bagunça. Chegando tarde em casa, de madrugada, com amigos e amigas. Aí conversei com ele que essa situação eu não ia aceitar, porque o quarto da minha filha fica ao lado do dele e ela estava escutando coisas que não seria legal. Ele sempre falava que iria embora. Quando foi no domingo passado, ele pegou a mochila e foi embora para casa de uma família não muito recomendada. Sabe, eu fico chorando, porque amo muito meu filho e ele é muito agarrado comigo. Não sei o que fazer: se vou atrás dele, se fico esperando em casa. Sabe, estou desesperada. O que vc acho que devo fazer? Me ajude por favor. Meu marido me culpa dizendo que tudo que meu filho me pedia eu fazia, sabe. Mas uma mãe quer ver seu filho feliz. Então, tudo o que ele me pedia, eu fazia mesmo. Não me culpo pela criação. Ele nunca gostou de brincar com menino. Sempre só queria ficar em casa. Foi aí que comecei a perceber. Nunca gostou de pipas, jogar bola, fazer coisas de menino. Não me importo por ele ser gay. Ele é meu filho e o amo muito. Estou sentindo muita falta dele e não sei o que fazer. Se não for atrás dele, ele pode pensar que a mãe não se importa com ele. Se eu for atrás dele, ele pode achar que estou fazendo chantagem. É muito difícil, sabe. Beijos… Não estou conseguindo mais escrever… Tereza.

Tereza,

O que mais me chamou a atenção na sua mensagem foi a fortíssima tendência que você tem de se sentir responsável por tudo que ocorre à sua volta. Da “estabilidade emocional” da sua filha, comprometida pela falta de “harmonia no lar”, até a “paz” e “tranqüilidade” do seu marido, “fortemente abaladas” pela orientação sexual do seu filho, você passa nitidamente a idéia de acreditar ser a grande “causadora” de tudo. E que, por isso mesmo, também deve ser a “grande salvadora” de todos.

Eles, é claro, estão se esbaldando com isso. Quem não quer ter um “bode expiatório” de plantão, alguém para jogar a culpa de todos os seus desconfortos, problemas e frustrações, passadas, presentes e até futuras?

Tudo bem que, como esposa, mãe e dona-de-casa dedicada e amorosa que é, você queira e trabalhe intensamente para produzir o bem-estar e a felicidade de todos que a cercam. Tudo bem que, eventualmente, você faça até muito mais do que pode a fim de que eles se sintam confortáveis e felizes nesse mundo. Nada agrada mais a uma pessoa generosa como você do que ver a felicidade das pessoas que você ama.

Porém, tudo tem limites, com os quais, no seu afã de assegurar a felicidade dos outros, você tem rompido sistematicamente. Senão vejamos:

1 – O filho descobrir e assumir a própria orientação sexual é um processo inteiramente dele – e não da mãe, do pai ou de que quem quer que seja. Orientação sexual não é algo que a mãe ou o pai possam “escolher” pelo filho ou determinar a ele que seja dessa ou daquela forma. Só ele pode dizer como quer expressar ao mundo a sua própria sexualidade.

2 – A Sociedade – ou seja, os outros – não têm nada a ver com a orientação sexual de cada pessoa, a menos que seja uma manifestação mórbida e doentia, que “invada” o território do outro sem obter sua licença – como são os casos da pedofilia e do estupro. Fora isso, toda orientação sexual é saudável, com reconhece a própria Organização Mundial de Saúde, na sua Classificação Internacional de Doenças, o CID-10 (décima edição).

3 – A sexualidade se manifesta naturalmente em cada indivíduo, e nada poderá impedir a sua manifestação. De resto, o que há em torno da homossexualidade é puro preconceito. De homens “machões” (e mulheres “machonas”) que não admitem a hipótese de um homem (ou de uma mulher) tendo relações com outro homem (ou outra mulher).

4 – Fale francamente com seu marido. EM PLENO SÉCULO XXI, AS PESSOAS AINDA NÃO CONVERSAM SOBRE UMA COISA TÃO FUNDAMENTAL QUANTO SEXO!!! Se seu marido se sentir “desconfortável” com a orientação sexual do filho, diga-lhe que converse sobre isso COM ELE. Não se faça de pára-raios ou de porta-voz dos desconfortos dele, porque o problema (se é que ele quer ver isso como um problema…) DEFINITIVAMENTE NÃO É SEU.

5 – Em momento nenhum aceite a acusação “esfarrapada” do seu marido de que seu filho possa ter “escolhido” ser homossexual por causa da forma como você o criou, fazendo todos os desejos dele. Já pensou que, da mesma maneira “esfarrapada” você poderia lhe acusar de coisas tão bobas quanto: – da “caladez” dele, da sua sistemática “omissão” na criação do filho? Mas corra dessas acusações vazias e de “bate bocas” inúteis. Se ele “se irritar” por saber da orientação sexual do filho, simplesmente recomende que ele se eduque a respeito da sexualidade humana da qual, pelo jeito, ele deve saber muito pouco…

6 – Uma coisa é seu filho ter uma orientação sexual homo que, como eu disse, é assunto íntimo dele – e de mais ninguém. Outra coisa, é ele se sentir “dono do pedaço”, sentindo-se no direito de invadir a privacidade dos outros que o cercam. Aqui existem duas questões absolutamente distintas que ele, espertamente, está tentando fazer com que você creia ser apenas uma única. MAS NÃO É! Seja a pessoa hétero, homo, bi, tudo isso junto ou coisa nenhuma, isso NÃO A AUTORIZA fazer DEMONSTRAÇÕES PÚBLICAS E OSTENSIVAS DA SUA SEXUALIDADE!!! Aqui não é questão de orientação sexual MAS DE SENSO DE LIMITES, CONSCIÊNCIA DOS LIMITES DO SEU PRÓPRIO ESPAÇO. Parece que, infelizmente, seu filho, além de não demonstrar grande respeito pelo espaço dos outros, resolveu considerar-se vítima da situação que ele próprio criou . NÃO É A ORIENTAÇÃO SEXUAL DELE QUE ESTÁ EM JOGO, MAS O SEU DESPREZO PELO ESPAÇO DAS OUTRAS PESSOAS DA FAMÍLIA. Só uma curiosidade que tive a respeito da vida do seu filho “fora de casa”: – quem está custeando as despesas dele? Ele trabalha, consegue se manter?

7 – O interessante aqui é que o pai, que você tanto quer “preservar” de saber da orientação sexual do filho – que não é, absolutamente, assunto da conta dele – parece ter-se omitido inteiramente na hora de fixar os limites para o filho DENTRO DE CASA – esse sim, assunto importantíssimo e inteiramente dentro da competência de um pai. Aqui, mais uma vez, jogaram tudo sobre as suas costas e, mais uma vez, você assumiu a carga.

8 – Seu filho saiu de casa, está andando em más companhias, sua filha está “agoniada” e seu marido continua “vivendo calado”, comodamente “alienado” de tudo que está ocorrendo à sua volta. E todos, sem exceção, apontando o dedo para uma única pessoa responsável por tudo: – VOCÊ! Aliás, eles nem precisam mais apontar-lhe o dedo: – você própria já se acostumou a fazer isso, sempre que acontece alguma coisa do desagrado deles…

Agora é com você. Há muitas perguntas que você precisa responder para você mesma:

- Será que eu sou mesmo a responsável de tudo?

- Será que eu não estou assumindo coisas que não são – que nunca foram – da minha competência?

- Em nome de que eu estou me sentindo culpada pela situação e responsável por “salvar a pele” das pessoas envolvidas?

- Alguém nessa história lembrou-se que eu existo? Que eu também tenho as minhas próprias carências e dificuldades?

- Será que eu devo “continuar protegendo” todo mundo de assumir “as próprias responsabilidades nessa história?

- O que é que eu pretendo fazer a respeito disso tudo, daqui para a frente?

- etc, etc, etc.

Desejo que você encontre respostas BEM MENOS CULPOSAS do que as que tem hoje para perguntas semelhantes. E se forem, desejo que se arrisque a ACREDITAR NELAS, por mais que elas contrariem algumas das suas crenças pessoais mais arraigadas, pois você merece – e precisa – ser feliz.

Beijos

Letícia Lanz, 26-10-2008.

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