Mamãe não quer (21-12-2011)

Letícia, por favor, me ajude. Sou uma pessoa transgênera, de 39 anos. Minha melhor definição seria uma “cd de armário”, embora eu considere haver algum traço de transexualidade em mim. Na verdade, a condição que mais se adequa a mim seria aquela definição da “autoginefilia”, pelas características dessa condição. Mas o motivo que lhe procuro não é buscar um enquadramento ou definição do que eu sou. Meu problema é o estado em que estou vivendo. Vivo numa situação sufocante. Moro com minha mãe, que não sabe nem desconfia da minha condição. Ou, se sabe de algo, finge não sabe. Dependo dela inteiramente, inclusive do ponto de vista financeiro. Mas ela é o tipo de pessoa que não tem a menor compreensão ou aceitação para qualquer questão que envolva a diversidade de gênero. Para ela, homem é homem, mulher é mulher, e ponto final. Isso tem me feito viver num estado de extrema angústia. Sinto-me sufocada por não poder me expressar. Cheguei a um ponto que não consigo pensar em outra coisa. Para que vc tenha uma ideia, passo a maior parte do dia conectada à internet, lendo sobre o assunto, sobre questões de gênero em geral, ou simplesmente visitando sites de roupas femininas. Essa tem sido a minha única válvula de escape. Estou sentindo que esse estado de angústia cresce mais em mim a cada dia e, uma hora, pode tornar-se insuportável. Acontece que, sinceramente, não tenho a menor coragem de tocar no assunto com minha mãe, e muito menos de poder me expressar plenamente. Minha mãe nunca irá entender. O que faço??? Heloísa.

Prezada Heloísa,

Boa noite.

Posso imaginar o seu desconforto com a situação que está vivendo, assim como a sua dificuldade de encontrar alguma saída alternativa.

Você desenvolveu com a sua mãe um tipo de dependência neurótica onde, em princípio, ela controla tudo em sua vida, inclusive suas escolhas existenciais, seu estilo de vida e, principalmente, suas finanças.

Entretanto, a primeira coisa que eu quero tentar fazer você perceber é que ninguém pode ser controlado por uma outra pessoa se a própria pessoa não estiver igualmente tentando controlar quem a controla.

Parece paradoxal, mas é isso mesmo: – você está tentando controlar sua mãe da mesma maneira que ela a controla!

E dentro desse quadro de dependência neurótica em que vocês duas se encontram, nada melhor, para você, do que se ela mudasse o jeito dela de ser. Aí seria o máximo de controle sobre ela, não? Você poderia assumir ser integralmente a pessoa que você quer ser sem precisar “perder o controle” sobre ela. Pelo que você disse, ela parece detestar qualquer diversidade de gênero ou de orientação sexual que não esteja estritamente dentro dos modelos tradicionais da sociedade. O que você se esquece é que ela também está instalada dentro de uma relação neurótica com você e, portanto, pensando a mesma coisa ao seu respeito. Ou seja, que bom se eu conseguir fazer com que ela permaneça sempre debaixo do meu controle, que ela não mude jamais!!! 

Tentando, então, controlar sua mãe, você tem permanecido escrava dos desejos dela, ajustando-se como pode ao modelo de “filho homem” que ela, como toda boa mãe “espera ter” na nossa sociedade. Se você não desejasse controlar sua mãe, não haveria problema algum em ser a pessoa que você é, haveria? Mas o rompimento com ela seria inevitável, pelo menos numa primeira fase logo depois de você passar a viver da maneira que deseja. 

Então eu sinto muito lhe dizer que, na dependência neurótica de vocês duas, também conhecida como codependência, você tem controlado sua mãe tanto quanto ela a controla! Você já percebeu que, se não fizer a vontade dela, sendo quem ela deseja que você seja, não terá o apoio dela, inclusive o apoio financeiro, do qual parece depender  tanto? Em outras palavras, ser livre representaria para você romper os laços com sua mãe ou seja, sair da relação neurótica de co-dependência em que vocês estão instaladas.  

Não é fácil romper com uma dependência neurótica e você pode até mesmo precisar da ajuda especializada de um terapêuta para ajuda-la a decidir o que fazer. Afinal há muitos ganhos recíprocos, provavelmente acumulados por anos e anos de convivência entre vocês duas. Se nada for feito para romper o ciclo dessa dependência, você continuará sendo indefinidamente a pessoa que ela quer que você seja – mesmo que isso contrarie totalmente a sua vontade – e ela continuará abastecendo você de feedbacks que você tem necessidade neurótica de receber dela, inclusive feedbacks financeiros…

Não importa nem mesmo que o feedback seja negativo do ponto de vista emocional, como esse dela lhe dizer que “homem é homem e mulher é mulher”. Para alguém em relação de codependência, interessa mais ter o feedback, ainda que seja negativo, do que não ter feedback nenhum.

Em síntese, a codependência com a sua mãe manifesta-se numa atitude doentia que a obriga a deixar-se controlar inteiramente por ela, forçando-a a viver a sua vida de acordo com os parâmetros dela, ainda que sejam totalmente contrários aos seus. Sua necessidade de manter controle sobre ela, inclusive e principalmente sobre as opiniões que ela possa ter ao seu respeito (imagine ela ter um filho transgênero!), faz de você uma vítima permanente dos “maus-tratos” sócio-emocionais que ela lhe impõe no convívio diário de vocês duas.

Da sua parte, você acredita que deve reprimir-se inteiramente para “deixá-la feliz”, isto é, para mantê-la sob o seu controle. Talvez, no seu inconsciente, isso signifique ser amoroso com ela. Talvez você até se culpe por pensar o quanto ela poderia ficar magoada e infeliz se você lhe causasse o tremendo desgosto de não ser a pessoa que ela deseja que você seja, dentro das convicções existenciais dela. O problema é que, ao atender “neuroticamente” o desejo da sua mãe, você acaba causando um mal imenso, tanto a você própria quanto a ela mesma! Da sua parte, abdicar de ser quem você acha que deve ser, coloca-a numa posição de permanente luta interior, onde as suas próprias posturas e opiniões se confrontam permanentemente com as opiniões e posturas da sua mãe. No final, você toma não as decisões que acha que deveria tomar mas as decisões que você acha que não deixariam sua mãe triste, infeliz ou magoada. Só que, ao fazer isso, desagrada a você mesma e cria um ressentimento incurável com relação a ela.

Poderíamos ficar horas analisando a relação neurótica entre vocês duas. Penso, porém, que, no momento, está sendo muito mais importante para você enxergar alguma forma de sair dessa armadilha em que você se meteu, quase que certamente “estimulada” pela sua mãe (ninguém entra sozinha numa relação de codependência com  outra pessoa…). Então vamos lá para algumas ideias. Você não tem que nem deve segui-las à risca. Você só precisa refletir sobre o conteúdo de cada uma delas para, quem sabe, encontrar mais facilmente os seus próprios caminhos. Esta é a minha intenção.

1 – Ao tomar decisões quanto ao que vai ou não fazer da sua vida, pare de dar tanta importância às opiniões da sua mãe a respeito do que você deve ou não fazer da sua vida. Você já está mais do que na idade de assumir certos riscos por conta própria, não acha?

2 – Pare de imaginar que o mundo acabará se eventualmente sua mãe ficar zangada com você por alguma decisão que você tomou. Se ela realmente gosta do(a) filho(a) que tem, é preciso que ela veja quem ele(a) é, goste ela ou não do que estiver vendo.

3 – Os valores da sua mãe não precisam de ser necessariamente os seus, a menos que você queira continuar agradando a ela a fim de não perder o controle que tem sobre ela.

4 – É bobagem se irritar ou se entristecer com a ideia de que sua mãe talvez não goste de saber dos seus desejos. Em primeiro lugar, você só deve revela-los a ela se você realmente achar importante e estiver em condições de fazer isso. Em segundo lugar, se ela não apreciar algum(ns) deles, o problema é dela – não seu! Você não pode querer controlar a reação das outras pessoas a respeito do que você acha importante para si mesmo! Ela é que deve assimilar o que você lhe expor; até hoje tem sido exatamente o contrário! 

5 – Comece a andar por suas próprias pernas o mais rápido que puder. Isso significar tornar-se responsável pelos seus atos e pelas consequências deles, em vez de ficar sonhando mudar o mundo para que ele se adeque ao que você acha que é certo ou errado. Viva a sua vida e deixe o mundo ser o que ele é. Em relação à sua mãe, principalmente, viva e deixe-a viver. 

6 – Não misture dinheiro com emoções. Se sua mãe quiser lhe dar dinheiro, tudo bem. O dinheiro é dela e ela pode fazer com ele o que quiser, inclusive dá-lo a você! O que você jamais deve permitir é que alguém atrele o dinheiro que lhe dá ao compromisso de você levar a vida como ele deseja que você faça. Escravidão já acabou há muito tempo! Não venda as suas emoções por qualquer preço; não se violente!  

Beijos

Letícia Lanz, 21.12.2011

(Os nomes verdadeiros são omitidos a fim de preservar o sigilo das consultas.)


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