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	<title>Letícia Lanz - Arquivo Transgênero</title>
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	<description>Informações e orientações destinadas a pessoas transgêneras e seus familiares</description>
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		<title>Meu Marido Assumiu Que É Transgênero</title>
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		<pubDate>Mon, 14 May 2012 02:39:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Letícia Lanz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divã da LeLanz]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.leticialanz.org/meu-marido-assumiu-que-e-transgenero/"><img align="left" hspace="5" width="65" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2011/09/img_divanlelanz.gif" class="alignleft wp-post-image tfe" alt="" title="img_divanlelanz" /></a>Gostaria muito de saber como lidar com esse momento dele. Primeiro foi repulsa; depois insisti para ele fazer terapia e se abrir, pois desde pequeno ele se traveste (6 anos). Gostaria de entender melhor essa situação. Já li suas matérias, <a class="more-link" href="http://www.leticialanz.org/meu-marido-assumiu-que-e-transgenero/">Leia mais</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img title="img_divanlelanz" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2011/09/img_divanlelanz.gif" alt="" width="720" height="112" /><em></em></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small; color: #8b0000;"><em>Gostaria muito de saber como lidar com esse momento dele. Primeiro foi repulsa; depois insisti para ele fazer terapia e se abrir, pois desde pequeno ele se traveste (6 anos). Gostaria de entender melhor essa situação. Já li suas matérias, mas ainda falta muita informação para mim. Ele sempre se veste (em casa) mesmo. Temos 2 filhas, somos casados há 8 anos e estamos juntos há 14. Descobri há pouco mais de 2 anos. Até o momento, eu não sabia o que fazer. A terapeuta indicou o seu site e aos poucos estou me esclarecendo de uma série de coisas&#8230; Mas no geral, sendo verdadeira, senti o chão se abrir debaixo dos meus pés&#8230; Aguardo um retorno. Obrigada. Regina A. Santos (São Paulo &#8211; SP).<br /></em></span></p>
<p style="text-align: justify;">Prezada Regina,</p>
<p style="text-align: justify;">Se falta informação pra você, eu também não fico muito atrás, não. Apesar de sempre ter dedicado boa parte do meu tempo a estudar esse fenômeno da transgeneridade, quanto mais eu me aprofundo na pesquisa, na reflexão e debate, mais eu tenho dúvidas a respeito desse tema, tão vasto e controverso.</p>
<p style="text-align: justify;">A cada dia que passa, coloco em cheque alguma afirmação ou crença das muitas que existem por aí a respeito de pessoas transgêneras. Pensa-se e fala-se muita bobagem, que as próprias pessoas transgêneras acabam aceitando como verdades. Mas sentindo o fenômeno debaixo da minha própria pele, e convivendo com pessoas que também têm convivido com ele a vida inteira, em vez de firmar a minha posição em torno de uns poucos conceitos “definitivos”, vejo ampliar-se cada vez a minha perspectiva de análise.</p>
<p style="text-align: justify;">A transgeneridade compõe um universo de comportamentos muito mais complexos e diversificados do que supõem os conceitos que hoje são aceitos pela maioria. Aliás, em se tratando de gênero, estou cada vez mais convencida de que cada pessoa é uma pessoa, o que torna ainda mais desprezível e ultrapassada essa ridícula divisão binária da espécie humana em apenas dois gêneros, masculino e feminino, em função da genitália que cada indivíduo traz entre as pernas ao nascer.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo que tenho visto e pesquisado me leva a concluir que deveriam existir milhões, bilhões, de categorias de gênero! O melhor mesmo seria um gênero para cada ser humano, o que equivale dizer que não existir GÊNERO NENHUM, sobretudo como critério de classificação das pessoas.</p>
<p style="text-align: justify;">Veja o seu caso, semelhante ao de numerosas outras esposas mundo afora, que vivem momentos de angústia ao descobrirem que seus maridos são transgêneros. Tanta aflição apenas por uma polaridade de gêneros que todo mundo aprende a reconhecer como fato natural e irreversível, quando se trata de algo absolutamente artificial e arbitrário. Tão artificial e arbitrário que pode ser mudado a qualquer momento! Ser homem ou ser mulher não é uma questão de nascimento, mas de aprendizado social. O sexo entre as pernas pode até ser biológico (<em>embora até isso seja discutível)</em>, mas a afinidade de cada pessoa com os papeis e comportamentos sociais não tem nada de biológico. Trata-se de pura percepção pessoal e treinamento social. O fato de eu ter nascido macho e preferir usar saia e maquiagem no lugar de calça, paletó e gravata não tem nada de biológico, porque não existe nenhum &#8220;gen&#8221; determinando que homens devem usar calças, e nunca usar maquiagem, e mulheres devem usar saias, e sempre se maquiar&#8230; </p>
<p style="text-align: justify;">Pela elevadíssima repressão e rejeição que socialmente sempre se exerceu contra a transgeneridade, qualquer um pode perceber que ela é sinônimo de “transgressividade” de gênero. Sendo a divisão binária de gêneros a base de todo o gigantesco castelo social construído pela civilização, é mais do que justificado que assim seja. Transgredir o gênero é colocar em risco a própria ordem sócio-política”. Ainda que a maioria não tenha a menor consciência disso, tod@ transgênera@ é subversiv@, quer a pessoa queira, quer não. Quando você disse que, ao saber da transgeneridade do seu marido, “o chão se abriu debaixo dos seus pés”, estava mostrando com isso o quanto esse comportamento dele coloca em risco todo o equilíbrio do casal e da família dentro da sociedade em que vivemos.</p>
<p style="text-align: justify;">É exatamente isso que faz você sofrer: Imaginar que você e sua família serão excluídos do convívio com pessoas “normais” <em>(ou seja, que seguem as “normas” da sociedade&#8230;)</em>; que o seu marido poderá ser objeto não apenas de “gozação” por parte dos colegas, vizinhos, amigos e inimigos, mas poderá até mesmo ser alvo de violência; que suas filhas serão olhadas de modo estranho na escola, em virtude de terem um pai que se veste de mulher&#8230; É praticamente inesgotável o repertório de maldades que essa hipócrita sociedade de pessoas ”normais” é capaz de fazer contra pessoas que transgridem as sagradas – e bestas – regras de gênero. Isso lhe dá pleno direito não só de ter medo do que o futuro reserva para você, na condição de cônjuge, e para suas filhas, em virtude do pai que têm, mas para o seu próprio marido transgênero. Se ele está empregado em uma organização, dificilmente vai conseguir se manter na condição de chefe ou profissional de alto nível: &#8211; espelhando a própria sociedade, as organizações são terrivelmente transfóbicas; não toleram pessoas transgêneras em seus quadros, a menos que elas permaneçam totalmente “armarizadas”. Até como empregado comum, numa linha de produção, o seu marido terá dificuldade para manter o emprego dele. Como profissional autônomo, também não será nada fácil manter o orçamento doméstico, pois boa parte dos clientes desaparecerão com desculpas as mais esfarrapadas possíveis. Só no serviço público é diferente pois o fato de possuir “estabilidade” no emprego inibe a ação predatória de superiores e colegas preconceituosos (a maioria, sempre), embora não elimine a redução substancial de oportunidades de crescimento.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa é realidade que vocês têm pela frente, como indivíduos e como família. E é exatamente o temor das consequências catastróficas dessa realidade que leva a maioria das pessoas transgêneras a se manterem trancadas em seus armários, sofrendo em silêncio o assédio do desejo de expressar ao mundo quem a pessoa realmente é, sem jamais conseguir fazê-lo &#8220;em paz&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Não pense você, contudo, que eu apoie os que se mantêm trancados em seus armários, pelo medo das represálias que poderão sofrer. Fugir do próprio destino é como tentar correr da gente mesmo. Por mais que a gente pense ter se afastado, acaba descobrindo que continuamos ali, bem dentro do nosso próprio nariz!</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, se o seu marido chegou à conclusão que agora é o momento dele se realizar como pessoa – que é, de longe, a única tarefa que realmente vale a pena nos empenharmos ao máximo neste mundo, já que é a nossa própria razão de ser – ele tem todo o meu apoio, todo o meu respeito e todo o meu carinho. E se a busca dele é verdadeira, genuína, seminal, ele jamais ficará desamparado, pois a vida não abandona ninguém que está lutando para expressar a própria vida que traz dentro de si! Esta é a nossa única missão neste mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Sei que você, também por mais medo e ansiedade que sinta, saberá encontrar a sua própria oportunidade de crescimento nessa história. Permanecendo ou não ao lado dele, será igualmente impossível abdicar da consiciência e do crescimento que a situação está lhe impondo. Mas se você ficar com ele, que não seja por piedade, por interesse, ou por medo seja lá do que for. Que seja por amor, respeito, carinho e amizade.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo dependerá dele estar sendo realmente verdadeiro, com ele mesmo, com você e com suas duas filhas. Não é porque alguém é transgênero que tem que renunciar a viver ao lado das pessoas que ama. A minha própria experiência pessoal tem me mostrado que é perfeitamente possível conciliar todos os nossos papeis com a nossa identidade, pois ser transgênero é normal e é legal.</p>
<p style="text-align: justify;">É o que tenho para lhe oferecer no momento, minha cara amiga, desejando que a verdade prevaleça entre você e seu marido, sempre. Apenas uma palavra final: quando tiverem superado essa fase tão difícil de transição, lembrem-se de oferecer o depoimento da sua busca para servir de referência a outras pessoas. Há muita gente esperando para iniciar a própria jornada de transformação pessoal, só precisando de uma palavra de verdade e força, vinda de gente como vocês. Carinhosamente,</p>
<p style="text-align: justify;">Letícia Lanz, 13-05-2012</p>
<hr />
<p><span style="font-size: small;"><em>(Os nomes verdadeiros são omitidos a fim de preservar o sigilo das consultas.)</em></span></p>
<hr />
<p style="text-align: right;">→ Envie sua consulta <a href="http://www.leticialanz.org/wrdp/consulta-ao-diva-da-lelanz-2/" target="_blank">clicando aqui</a></p>
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		<title>Ele Não Quer Reconhecer Pra Mim Que é CD&#8230;</title>
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		<pubDate>Tue, 01 May 2012 16:19:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Letícia Lanz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divã da LeLanz]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.leticialanz.org/ele-nao-quer-reconhecer-pra-mim-que-e-cd/"><img align="left" hspace="5" width="65" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2011/09/img_divanlelanz.gif" class="alignleft wp-post-image tfe" alt="" title="img_divanlelanz" /></a>Oi Leticia! Por favor, preciso de uma palavra, pois descobri que meu marido é cd. Achei no computador dele várias conversas gravadas, em períodos do dia em que não estava em casa. Perguntei pra ele o que era aquilo e <a class="more-link" href="http://www.leticialanz.org/ele-nao-quer-reconhecer-pra-mim-que-e-cd/">Leia mais</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img title="img_divanlelanz" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2011/09/img_divanlelanz.gif" alt="" width="720" height="112" /><em></em></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small; color: #8b0000;"><em>Oi Leticia! Por favor, preciso de uma palavra, pois descobri que meu marido é cd. Achei no computador dele várias conversas gravadas, em períodos do dia em que não estava em casa. Perguntei pra ele o que era aquilo e ele desconversou, dizendo não saber de nada&#8230; Fiquei muito assustada de inicio, pois nunca tinha ouvido falar do assunto e, como estávamos conversando sobre a situação do nosso casamento, não rendi esse assunto. Estamos juntos há quase 5 anos, sendo 3 de namoro e 1 e meio de casados. Eu játinha um filho de outro homem quando nos casamos. Tenho 30 anos e sempre amei fazer sexo, sempre fui alucinada com sexo, e por mim faria todo dia, várias vezes por dia. No início do namoro, era ótimo. Ele aprendeu muito comigo mas, de uns 2 anos pra cá, a coisa foi esfriando, ele deixou de me procurar sempre e isso foi me deixando triste. Ele dizia ser o estresse do trabalho. Eu entendia e me resignava. Depois que casamos, ficou pior&#8230; Agora fazemos sexo só umas 2 vezes no mês e isso passou a me incomodar bastante. Fiquei sem graça de dar de cima, medo de ser rejeitada, e com isso fui perdendo a vontade, ficando com vergonha de usar e criar situações provocantes, sensuais&#8230; Pedi pra Deus diminuir a minha vontade de fazer sexo&#8230; Ultimamente, estávamos como estranhos em casa&#8230; Horrível. Aí fiquei em casa nesse dia, e vi essas conversas sobre cd&#8230; Aproveitei a deixa e o chamei para conversarmos sobre o nosso casamento. Ele negou tudo, dizendo que o problema do nosso casamento é o meu filho, que eu não dou limites pra ele, etc, etc. Mas eu acho que isso é só mais uma desculpa. Ele chorou, disse que tem vergonha de mim por não fazermos sexo e que até pensou em separação, apesar de dizer que me ama. Eu amo muito o meu marido e já me casei sabendo que não seria fácil essa prova na minha vida mas, como o amo muito, me dispus a vencer qualquer obstáculo. Eu acredito no amor dele por mim&#8230; Depois dessa descoberta, comecei a pesquisar tudo sobre o crossdresser. Falei pra uma amiga que achou isso normal, que acontece muito, mas que eu acreditasse que ele me quer também&#8230; Durante nossa conversa, ele ficou com vergonha de olhar nos meus olhos. Eu fui chegando de mansinho, fazendo carinho, como se eu não estivesse incomodada&#8230; Quando fiz isso, ele fez amor comigo&#8230; Fiquei feliz demais! No outro dia, parti pra cima e mais uma vez ele fez amor&#8230; Eu disse que ele só não faria amor comigo quando não sentisse mais tesão por mim e ele disse que sente demais&#8230; Ontem eu o procurei novamente (3 vezes na semana&#8230;), mas ele não quis&#8230; Não me fez nem carinho&#8230; Leticia, desculpe-me por estar sendo tão extensa, mas preciso demais falar com você neste assunto&#8230; Li muita coisa sua e me identifiquei muito com a sua opinião&#8230; A dúvida agora é que, acho eu, enquanto ele não admitir isso pra mim, não ficaremos totalmente bem. Sinto-me mentindo pra mim mesma&#8230; Eu entendo a agonia que ele deve estar, porque é machista, e diz às vezes, que não é deste mundo, que deveria morrer&#8230; Veja bem o peso que ele carrega&#8230; Estou totalmente disposta a ajudá-lo, a entendê-lo, a ser amiga. Eu amo o meu marido, amo demais&#8230; Como faço pra voltar a abordar esse tema com ele, sem que ele negue novamente? Não falar disso abertamente está afetando toda a nossa relação! Em mim, cria desconfiança e eu nunca fui de julgar ninguém! Sou espírita, tento entender todas as coisas, mas ele é mais complicado&#8230; Eu não quero perdê-lo, mas tenho receio que ele prefira a separação pra não ter que admitir isso pra mim. Durante nosso namoro, ele terminou comigo 2 vezes, sem motivos. Disse que não estava me fazendo feliz, e no momento não estava mesmo&#8230; Ele estava diferente&#8230; Foi o período que ele descobriu ser cd&#8230; Mas eu sabia que voltaríamos, porque pra mim não tinha motivo e eu acreditava no nosso amor&#8230; Eu não o procurava, respeitava a decisão dele, mas ele acabava pedindo pra voltar e ai era ótimo, porque fazíamos amor com intensidade&#8230; Depois caia na mesmice de novo. Será que o fato dele me evitar é porque não sente tesão, apesar de dizer que sente? Será que ele quer transar com homens? Se sente mal por falar com outras pessoas na internet e se sente um anormal? O que será que faz ele se afastar de mim? Eu aceito tudo, mas não quero perder o homem &#8211; ou a cd – na cama! Eu quero fazer amor! Responda-me, por favor! Obrigada por tudo. Você foi uma luz na minha vida. Janine.</em></span></p>
<p style="text-align: justify;">Prezada Janine,</p>
<p style="text-align: justify;">Embora desaprove inteiramente os seus métodos para “extrair provas” da conduta do seu marido nos últimos tempos <em>(vasculhar o computador dos outros é muito feio, além de ilegal&#8230;),</em> você acabou tendo em mãos uma “batata quente”. Como diz o ditado, “galinha que muito cisca, acha cobra”&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Você parece ter evidências às quais ele tem negado qualquer fundamento <em>(exemplo de cima não lhe falta, né sr. Demóstenes?). </em>Eu digo “parece ter” porque você não descreveu em detalhe nada do que realmente leu, viu ou ouviu ao fuçar o computador do seu marido. Pelo que você disse, teriam sido diálogos gravados mas, mesmo assim, você não descreveu nada do conteúdo de tais gravações.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas onde eu fiquei realmente confus@ foi no trecho da sua mensagem em que você disse que “foi o período em que ele descobriu ser cd&#8230;”, situando esta época com sendo antes do seu casamento. Quer dizer, então, que você já sabia que ele era CD antes de se casarem?</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar dos “defeitos de prova”, você passou a querer que ele reconheça ser CD, diante de você, e quanto mais ele se nega a fazer isso, mais você vê sua confiança nele se esvair e, junto com ela, o seu casamento. </p>
<p style="text-align: justify;">Vai ser complicado obter dele essa confissão, sobretudo se ele é mesmo o cara machista que você falou e que, aliás, faz dele um “lugar-mais-do-que-comum”, num país absolutamente patriarcal, conservador e fundamentalista como é o nosso. Imagine que em dezenas de pedidos de inscrição que recebemos no Grupo Curitiban@s, ao responderem a questão: “sua mulher (ou namorada ou noiva ou companheira) sabe da sua condição transgênera?”, a maioria dos proponentes assinala a opção que diz “não sabe e eu gostaria que nunca viesse a saber”&#8230; Isso quer dizer que muitos homens desejam que suas mulheres, namoradas  ou companheiras jamais descubram ou venham a saber da sua condição transgênera.</p>
<p style="text-align: justify;">Homens assim preferem administrar as tensões de uma vida dupla do que a fúria das estruturas sociais de que participam (família, empresa, escola, etc), caso assumissem e passassem a expressar, pública e abertamente, as suas identidades de gênero “sócio-divergentes”, isto é, fora da conformidade com o modelo oficial masculino/feminino.</p>
<p style="text-align: justify;">O conflito do seu marido, portanto, não é exatamente com você – ou com você, em primeiro lugar. O conflito do seu marido é, antes de tudo, um conflito dele com ele mesmo (a menos que você esteja totalmente equivocada ao enquadra-lo como CD&#8230;)</p>
<p style="text-align: justify;">Dentro desse panorama,  de nada vai adiantar você retomar o assunto com ele, como é a sua intenção, antes que ele se disponha a dialogar com ele mesmo, buscando a sua própria auto-aceitação na condição de pessoa transgênera, um processo em geral muito longo e díficil. Tão mais longo e difícil quanto mais a pessoa imaginar que está fazendo uma coisa errada, suja, impura e pecaminosa, como é vendida ao homem qualquer prática que possa ser considerada “travestismo masculino”, do simples e inofensivo gesto de vestir uma calcinha ao complexo procedimento de se transformar integralmente numa “outra pessoa”, inclusive com o recurso de cirurgias estéticas e/ou de reaparelhamento genital.</p>
<p style="text-align: justify;">Meninos se constituem como homens a partir do aprendizado compulsório de condutas muito rígidas e limitadas, principalmente em termos de vestuário, gestual e apresentação pessoal em público. Pela sua natural “exuberância feminina”, o travestismo masculino – ou crossdressing – está  naturalmente fora de qualquer padrão masculino de conduta. Ao contrário, encabeça a lista negra da masculinidade, como um dos comportamentos mais indesejáveis e repulsivos no perfil de um “verdadeiro homem”&#8230; </p>
<p style="text-align: justify;">Embora sua descrição não permita tirar maiores conclusões, tudo leva a crer que seu marido ainda não tenha ingressado no mundo real, sendo apenas um “CD virtual”, cuja atividade se restringe ao mundo da internet, e consiste basicamente em breves e intermitentes “aparições”, para bater papo e mostrar fotografias onde dificilmente aparece a cabeça. Terminadas essas sessões, eles novamente se recolhem aos seus armários, onde passam a maior parte das suas vidas, trancados debaixo de sete chaves.   </p>
<p style="text-align: justify;">Esta é uma dificuldade adicional para você arrancar dele uma “confissão”, tal como você pretende, pois a maioria dos CDs virtuais rejeita qualquer tipo de identificação no mundo real. Para eles, “ser virtual” é melhor saída que encontraram para levar uma vida paralela, dentro da sua identidade transgênera, reduzindo ao mínimo possível o perigo de perdas e retaliações que potencialmente poderiam sofrer, caso tentassem fazer isso no mundo real.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar do conforto e proteção que aparentemente oferece, a estratégia da virtualidade representa no fundo uma profunda repulsa  à condição de crossdresser, cuja compreensão e aceitação poderia gerar uma dor psíquica insuportável para homens de personalidade fortemente machista.   </p>
<p style="text-align: justify;">Bem, até agora estivemos falando de gênero, uma coisa que não tem nada a ver com orientação sexual. Eu tenho que lhe lembrar isso porque uma das suas outras dúvidas é se o seu marido estaria tendo interesse em ter relações sexuais com outros homens. Naturalmente essa dúvida surgiu por você, como a maioria das pessoas, ter sido condicionada a relacionar gênero com orientação sexual.   Assim, quando o seu marido aparece vestido de mulher É PORQUE ELE QUER SER MULHER e, SE QUER SER MULHER, necessariamente DEVE ESTAR QUERENDO TER RELAÇÕES SEXUAIS COM HOMENS.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora a frase que eu acabei de escrever esteja repleta de impropriedades, infelizmente é assim que as pessoas aprendem a pensar. Mas basta algumas perguntas para você ver como essa frase é mentirosa.</p>
<p style="text-align: justify;">Em primeiro lugar, se um homem se veste de mulher não significa necessariamente que ele queira se transformar em mulher. No teatro, os atores homens fazem isso o tempo todo e nem por isso você escuta dizer a toda hora que algum ator que se vestiu de mulher terminou se operando para mudar de sexo&#8230; Um homem pode se vestir de mulher apenas para expressar uma identidade de gênero diversa daquela em que foi classificado ao nascer.</p>
<p style="text-align: justify;">Em segundo lugar, o fato de alguém ser mulher NÃO ASSEGURA que esta pessoa tenha necessariamente preferência por fazer sexo como homens.  Se fosse assim, não haveria lésbicas! Esta ligação espúria entre “sexo biológico” e “orientação sexual” é resultado de anos e anos de condicionamento para aceitarmos como “natural” e, portanto, “normal”,  apenas  pares sexuais dentro da lógica heteronormativa, ou seja, homem com mulher e mulher com homem. Nada mais!</p>
<p style="text-align: justify;">Em terceiro e último lugar, e apenas para ilustrar fortemente o nosso argumento, há machos (e não são poucos, você sabe) perfeitamente enquadrados no modelo geral de masculinidade, que nunca se vestiram de mulher e que provavelmente jamais se vestirão, mas nem por isso desejam fazer sexo como mulheres, estando muito mais à vontade com homens iguais a eles!  </p>
<p style="text-align: justify;">Diante do exposto, acho que será desnecessário dizer que, assim como diz o ditado “o hábito não faz o monge” também podemos afirmar, com certeza, que um homem ser crossdresser não implica necessariamente em que ele tenha atração sexual por outros homens.</p>
<p style="text-align: justify;">Aliás, pelo que você descreve das relações sexuais que mantém com seu marido eu diria que ele pode ser até bissexual, mas dificilmente homossexual.</p>
<p style="text-align: justify;">É o círculo vicioso do sistema patriarcal: as mulheres são subjugadas e “obrigadas” a reproduzir o modelo, indefinidamente.   Mesmo sem perceberem, elas se tornam grandes machistas e, portanto, em parte culpadas dos homens serem machistas o tanto que são.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora você não me pareça nem um pouco machista, veja como as suas preocupações com o seu marido não são essencialmente “machistas”: &#8211; você descobre que ele gosta de se vestir de mulher para concluir em seguida que ele pode estar interessado em fazer amor com outros homens&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Num ambiente não-machista, as pessoas se vestem como acharem melhor, com a roupa que lhes for mais atraente e confortável. Ninguém dirá que “saia” é roupa “de mulher” ou que “cueca” é roupa “de homem”.</p>
<p style="text-align: justify;">Num ambiente não-machista, as pessoas não vão se preocupar se “a” está fazendo sexo com “b” ou com “c” ou com o que for. Sexo é matéria de alvitre pessoal de cada um e, havendo consenso entre as partes, vale literalmente tudo.</p>
<p style="text-align: justify;">Num ambiente não-machista, as pessoas só ficarão juntas se houver uma atração muito, muito forte entre elas, algo que na falta de melhor nome eu vou chamar de amor. E amor não tem nada a ver com sexo, embora sexo com amor seja a coisa mais gostosa e sublime que existe neste mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Minha sugestão pra você é que, aproveitando a deixa do seu marido CD, comece a criar já um ambiente não-machista à sua volta.  Você diz que, por você, ele pode se travestir o quanto quiser, né? Então comece colocando peças de roupa à disposição dele. Não lhe diga nada. Apenas deixe as peças por aí, como quem está apenas respeitando e facilitando a vida da outra pessoa. Não fale, não sugira, não exija nada. E continue a expressar o seu carinho, como você tem feito. Não use palavras: use gestos, use beijos, use a inesgotável linguagem corporal. Proponha um “diálogo de corpos”, onde roupas e acessórios sejam apenas roupas e acessórios, sem nenhuma conotação categórica ligada a gênero.</p>
<p style="text-align: justify;">Pode funcionar. Vai depender do quanto, você e ele, estão dispostos a investir na construção do mundo de vocês, livres das influências nefastas de uma sociedade machista, cruel e decadente, cuja estrutura de funcionamento só serve para dividir e separar as pessoas. Nunca para uni-las ou fazer com que permaneçam juntas COMO REALMENTE SÃO!</p>
<p style="text-align: justify;">Letícia Lanz, 29-04-2012</p>
<hr />
<p><span style="font-size: small;"><em>(Os nomes verdadeiros são omitidos a fim de preservar o sigilo das consultas.)</em></span></p>
<hr />
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		<title>Mitos Sobre Crossdresser</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Apr 2012 16:51:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Letícia Lanz</dc:creator>
				<category><![CDATA[SOS Crossdresser]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.leticialanz.org/mitos-sobre-crossdresser/"><img align="left" hspace="5" width="65" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2012/04/img_mitoscds01.jpg" class="alignleft wp-post-image tfe" alt="" title="img_mitoscds01" /></a>(Letícia Lanz) A palavra “crossdresser”, que literalmente se traduz para a nossa língua como “travesti”, foi emprestada às pressas, do vocabulário do inglês, no início dos anos noventa, com o objetivo de designar uma supostamente nova categoria de homens que, <a class="more-link" href="http://www.leticialanz.org/mitos-sobre-crossdresser/">Leia mais</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em><img class="alignright size-full wp-image-2705" title="img_mitoscds01" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2012/04/img_mitoscds01.jpg" alt="" width="276" height="198" />(Letícia Lanz)</em> A palavra “crossdresser”, que literalmente se traduz para a nossa língua como “travesti”, foi emprestada às pressas, do vocabulário do inglês, no início dos anos noventa, com o objetivo de designar uma supostamente nova categoria de homens que, a exemplo das clássicas travestis de rua, também ancoravam sua expressão de identidade de gênero no uso de vestuário, adereços e maquiagem femininos. Apesar da estreita afinidade de gostos, o fosso socioeconômicocultural enorme entre as travestis de rua e a “nova classe” que surgia dos porões da ditadura moral da sociedade brasileira recomendava e justificava a introdução da nova e pomposa terminologia de “crossdresser” para designar a antiquíssima prática do travestismo masculino, agora em sua versão “classe média/alta”.</p>
<p style="text-align: justify;">Como acontece com tantos outros grupos, hoje ativos e representativos na sociedade, os crossdressers só ganharam existência e passaram a ter alguma visibilidade social com a expansão da rede mundial de computadores. No Brasil, os homens que assim se auto-denominaram, possuíam a característica comum de serem filhos das classes média e alta da população, que eram naquela época (e em grande medida continuam sendo&#8230;) os únicos extratos sociais com acesso e suficiente domínio das novas tecnologias da informação.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes da Internet, esses homens viviam completamente isolados e trancados em seus armários, esconderijos seculares para onde tinham sido remetidos à força, à época da inquisição, e de onde a maioria jamais tivera sequer a esperança de sair. De repente, a internet lhes abria uma pequena – mas também incômoda – “fresta de luz” para a expressão pública das suas identidades de gênero sócio-divergentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de tão desejada, havia sérios conflitos com a perda da invisibilidade social em que esses homens permaneceram mergulhados por tantos séculos. O principal desses conflitos era de ser imediatamente reconhecida a grande afinidade desses novos “cavaleiros do travestismo” com velhas conhecidas das esquinas de todo o país: as travestis de rua.</p>
<p style="text-align: justify;">Homem vestir-se de mulher, fora dos palcos ou do ambiente carnavalesco, constitui um dos mais graves atentados à instituição da masculinidade na cultura brasileira, levando os eventuais transgressores a serem sumariamente privados do atraente elenco de vantagens e privilégios do macho nesta nossa sociedade fundamentalista-positivista- patriarcal-cristã.</p>
<p style="text-align: justify;">Não era nada bom nem nada recomendável para homens de reputação ilibada, muitos ocupando nichos profissionais de destaque, serem confundidos com as representantes oficiais da decadência moral no país. Tal identificação era totalmente indesejável sob todos os pontos de vista, e devia ser afastada – ou pelo menos “muito bem camuflada” &#8211; através de habilidosas estratégias de desidentificação.</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="alignleft size-full wp-image-2707" title="img_mitoscds03" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2012/04/img_mitoscds03.jpg" alt="" width="280" height="193" />Apesar de não haver mais a presença física dos fiscais da inquisição, o que era um grande alívio pra todo mundo, havia, em contrapartida, a ostensiva vigilância moral da sociedade sobre os seus filhos mais ilustres e mais bem aquinhoados pela sorte. E nenhum deles estava disposto a chutar o pau da barraca, submetendo-se à inevitável perda de prestígio social e à execração pública resultante do seu reconhecimento público na condição de travesti.</p>
<p style="text-align: justify;">O uso da palavra “crossdresser” foi a primeira das estratégia adotadas pelo novo grupo para camuflar a sua inevitável identificação com o grupo marginal e estigmatizado das travestis de rua.</p>
<p style="text-align: justify;">Introduzida, assim, com o status de verdadeira antinomia da palavra “travesti” (assim como de todas as condutas e representações sociais que ela traduz) a palavra “crossdresser” permitiu a criação e sustentação de um discurso “bom-mocista” sobre um travestismo masculino bem-comportado, perfeitamente integrado às exigências de assepsia moral da classe média brasileira.</p>
<p style="text-align: justify;">Purificado das intenções subversivas e completamente divorciado da moral, da estética e da sexualidade absolutamente insurgentes de madame Satã e suas “orientandas” da Lapa Carioca, o “crossdresser” surgia como um rótulo de pureza, boa procedência e bom comportamento para uma atividade na sua própria origem transgressora de alguns dos mais sagrados códigos de conduta da sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">A função da palavra crossdresser, portanto, nunca foi como a de qualquer outro conceito que busca diferenciar práticas e representações socioculturais distintas, mas de criar e sustentar um discurso mais palatável para o machismo-cristão das classes média e alta do país, que jamais aceitariam ver algum dos seus “filhos machos impolutos” identificados com a imagem indecente, subversiva e decadente de uma travesti.</p>
<p style="text-align: justify;">A rigor, a única distinção radical que existe na prática de uma “travesti” e de um “crossdresser” é a condição socioeconômica típica dos indivíduos classificados em uma e outra categoria. As demais diferenças resultam muito mais de configurações distintas de um mesmo fenômeno (travestismo masculino) do que de características particulares de fenômenos distintos.</p>
<p style="text-align: justify;">A mídia foi a primeira a abonar a farsa da palavra “crossdresser”, aceitando-a como legítima representante dessa nova classe de sujeitos, sem qualquer resistência ou juízo crítico quanto à sua total afinidade e identidade com o travestismo tradicional. Pelo contrário, reportagens bombásticas e sensacionalistas continuam apresentando ao grande público esses “ilibados homens heterossexuais casados” ora como executivos e profissionais autônomos muito bem sucedidos, que se vestem de mulher “apenas como hobby de fim de semana”, ora como vítimas da incompreensão da sociedade, que ainda não reconheceu a sua “pureza de intenções”, o seu elevado padrão de decência e discernimento moral (inexistente nas travestis de rua&#8230;).</p>
<p style="text-align: justify;">A academia também acolheu o discurso crossdresser como sendo de uma categoria de travestismo masculino “sanitizado”, tipo “cadela-de-madame”, destituído de qualquer tipo de vínculo social ou institucional com o travestismo bandido, tipo “cadela-de-rua”. Assim é que, em vez de apontarem as profundas diferenças de classe econômica, social e até racial que politicamente separam as travestis de rua, invariavelmente pobres, das suas irmãs ricas e muito melhor situadas na comunidade e que são, a rigor, a grande diferença existente entre “crossdressers” e “travestis”, os estudos acadêmicos têm apenas legitimado ainda mais a separação inexistente, assim como o padrão de “moralidade superior” que caracteriza o discurso do travestismo masculino das classes média e alta do país.</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="alignleft size-full wp-image-2708" title="img_mitoscds04" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2012/04/img_mitoscds04.jpg" alt="" width="280" height="125" />Não há, até agora, nenhum estudo empírico que sustente a validade desse discurso, desde o uso diferencial do termo “crossdresser” à abundância de “mitos formadores” que, tal como o termo, foram criados apenas para fazer contraponto ao travestismo de rua, carecendo fundamentação real.</p>
<p style="text-align: justify;">Tal como o próprio termo “crossdresser”, cada um desses mitos tem tido o papel de “mistificar” o travestismo masculino, eliminando dele (ou pelo menos disfarçando o quanto for possível) todos os nefandos traços de “perversão” e desvios morais que podem ser a ele associados em função da sua “clara similitude” com o travestismo clássico.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos mitos mais persistentes sobre os crossdressers é que sua prática não tem nenhum propósito ou conotação sexual. Na ladainha moralista-redentora dos veteranos, “o crossdresser não possui nenhum interesse sexual, vestindo-se de mulher apenas pelo prazer de ser mulher”. Desse modo, esvaziado de qualquer carga libidinal, esse prazer, naturalmente, torna-se um inofensivo e moralmente correto “ato de contemplação da mulher”, fazendo com que o processo de “montagem” passe a ser aceito como um verdadeiro exercício “monástico”<sup>1</sup>&#8230; A introdução deste mito confronta diretamente a realidade da travesti, para quem o “ser mulher” é uma forma contundente e visceral de expressão da própria identidade/sexualidade. Diante da “bandidagem” das travestis, o crossdresser pode posar – e posa – como uma verdadeira santa no altar&#8230; (afff!)</p>
<p style="text-align: justify;">O mito da heterossexualidade dos crossdressers é outra falácia do discurso crossdresser. Não há nenhuma maneira de se aferir a orientação sexual de alguém, assim como essa orientação não faz a menor diferença na composição da identidade de alguém, exceto para o machismo patriarcal conservador, é claro. Será que os crossdressers ainda não perceberam que, ao reafirmarem-se categoricamente como “homens heterossexuais” (sem nenhuma base empírica de confirmação&#8230;) apenas reforçam o seu indisfarçável machismo (embora jamais admitido por eles&#8230;), “glorificando” ainda mais a lógica heteronormativa de “ normalidade”, a mesma que os marginalizam, mesmo tentando se passar como membros da sociedade heteronormal. Talvez de todos os mitos formadores do “crossdressing” este seja o que acarreta as piores consequências pois, além de tudo, cria e sustenta o padrão de conduta altamente homofóbica, predominante em muitos guetos de crossdressers.</p>
<p style="text-align: justify;">O terceiro grande mito formador do “crossdressing” no país, que eu já vi, inclusive, ser confirmado em estudos acadêmicos, é o de que o crossdresser não realiza, e nem aspira realizar, qualquer tipo de transformação corporal de caráter duradouro, ao contrário das travestis que não pensam duas vezes para entupir-se com litros de silicone industrial a fim de “travestilizar” o próprio corpo além de qualquer ponto de retorno<sup>2</sup>. Deve-se compreender por transformação corporal definitiva todo e qualquer tipo de intervenção que produza alterações de caráter duradouro na pessoa, desde cirurgias estéticas superficiais até cirurgias de reaparelhamento genital. Da depilação a laser e eletrólise ao uso permanente de hormônios e anti-androgêneos. O folclore reza que crossdresser não faz nenhuma dessas coisas. A realidade “crossdresser”, entretanto, faz com eles se aproximem muito mais do ideal de transformação da travesti e da transexual do que deste mito de preservação intacta do corpo masculino. Ora, bastaria ao estudioso do assunto debruçar-se sobre as transformações corporais de crossdressers nos últimos dois anos e veria que esse a não-modificação corporal do crossdresser é apenas mais um mito sem fundamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Em cima desses e de outros mitos, tanto a mídia quanto a academia seguem abonando o crossdresser como uma realidade completamente apartada da realidade da travesti, fazendo com que discursos que são os mesmos continuem sendo transmitidos como mensagens autônomas, incapazes de se interconectar.</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="alignright size-full wp-image-2706" title="img_mitoscds02" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2012/04/img_mitoscds02.jpg" alt="" width="280" height="162" />Pior para o “crossdressismo bom-mocista”, talhado de encomenda para a fragilidade do machismo brasileiro. O que o crossdresser ganhou em “couraça protetora” contra a vigilância moral da sociedade perdeu (ou nunca conseguiu ter&#8230;) em termos de espaço institucional. Se, de um lado, este é o preço a pagar pela necessidade neurótica de se vender como representantes do “bom comportamento”, tão apreciado pela mentalidade pequeno-burguesa do nosso país, por outro é um custo permanente que jamais resultará em progressos, um “pedágio” continuamente pago para se permanecer parado no mesmo lugar da estrada.</p>
<p style="text-align: justify;">Como resultado, a maioria dos travestis de classe média e alta do país, ou &#8220;crossdressers&#8221;, como preferem,  continuam a não existir, continuam trancados em seus armários, apavorados pelo fantasma da “degradação moral, ao mesmo tempo em que “posam” de vestais heterossexuais e pura, na foto coletiva da sociedade brasileira contemporânea.</p>
<p style="text-align: justify;">Melhor ser bandida.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-</p>
<p style="text-align: justify;">1 &#8211; não deixa de ser “monástico”, considerando que as travecas gostam de se chamar de “monas”&#8230;rs</p>
<p style="text-align: justify;">2 &#8211; não se trata de uma processo de feminização, mas de travestilização; por isso não uso o verbo feminizar.</p>
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		<title>Riscos Que Nos Fazem Crescer</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Apr 2012 22:14:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Letícia Lanz</dc:creator>
				<category><![CDATA[SOS Crossdresser]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.leticialanz.org/riscos-que-nos-fazem-crescer/"><img align="left" hspace="5" width="65" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2012/04/img_guilty.jpg" class="alignleft wp-post-image tfe" alt="" title="img_guilty" /></a>Letícia Lanz, 26-04-2012. O maior problema de uma pessoa transgênera ainda no armário é culpa. A permanente sensação de estar em falta com a sociedade. O medo absurdo de que, qualquer movimento de redenção – ou de reivindicação dos seus <a class="more-link" href="http://www.leticialanz.org/riscos-que-nos-fazem-crescer/">Leia mais</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Letícia Lanz,<em> 26-04-2012.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><img class="alignleft size-full wp-image-2685" title="img_guilty" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2012/04/img_guilty.jpg" alt="" width="250" height="197" /></p>
<p style="text-align: justify;">O maior problema de uma pessoa transgênera ainda no armário é culpa. A permanente sensação de estar em falta com a sociedade. O medo absurdo de que, qualquer movimento de redenção – ou de reivindicação dos seus direitos – constitui pecado, crime e grave transgressão contra a “ordem instituída”. A culpa faz com a pessoa auto-imputar-se um estado de descomunal e insuportável mal-estar, proveniente da crença de que está fazendo (ou pode fazer&#8230;) a &#8220;coisa errada&#8221;. Ultrapassar esse estado de vergonha, medo e auto-punição é uma tarefa interminável, para a vida inteira. Por mais &#8220;resolvid@&#8221; que a pessoa transgêner@ se declare&#8230; Aliás, quanto mais resolvid@ ela se achar, menos é, com certeza. Quem se aceita de verdade não sai por aí, batendo no peito e dizendo que se aceita.</p>
<p>Todo homem que, apavorado, vê acender dentro de si esse fogo inexplicável de querer se expressar ao mundo &#8220;travestido de mulher&#8221; pensa que:</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>1) a fim de realizar seu desejo, terá que, primeiro, convencer todo mundo e controlar todas as variáveis que compõem o seu meio-ambiente. </strong></em></p>
<p>Algo absolutamente im-pos-sí-vel. A única variável que mal-mal podemos controlar neste mundo é a gente mesm@. E olhe lá! Tentar controlar os outros é mais louco do que sair jogando pedra na lua!!!</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>2)</strong> <strong>não pode ser vist@, como não pode &#8211; nem deve &#8211; ser vist@ com quem não é conveniente ser vist@&#8230; </strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Faz parte da terrível “cultura da submissão”, junto com a terrível estrutura de “dominação de classe”. Você deve andar apenas com pessoas do seu “nível”, do seu círculo social e profissional. Imagine ser apanhado com um bando de “travecas desvairadas”! Mesmo estando formalmente instalado em roupas de sapo, pode dar um trabalhão danado ter que explicar porque é que você estava ali, naquele grupo, naquele lugar, naquela hora&#8230; Cultura da submissão&#8230;<br /> Mas é impossível saber, de antemão, quem a gente vai encontrar ou não, neste ou naquele lugar, nesta ou naquela hora. As pessoas mais inusitadas aparecem no nosso caminho, do nada, nos momentos e locais mais incertos. Enfim, você jamais vai ter a certeza de que não foi vista, nem por quem você não gostaria que a visse, nem por quem você imagina que poderia ser conhecida de alguém que você não gostaria que a visse&#8230;</p>
<p><em><strong>3) nunca estará suficientemente &#8220;preparad@ para passar&#8221;&#8230; </strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Se nem as próprias mulheres genéticas se sentem &#8220;preparadas para passar como mulher&#8221;, imagine @s<img class="alignright size-full wp-image-2687" title="img_guilty1" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2012/04/img_guilty1.jpg" alt="" width="191" height="250" /> transgêner@s, cuja ideal introjetado de &#8220;mulher perfeita&#8221; é muito superior e muito mais complexo do que a própria imagem mais requintada que uma mulher pode fazer de si mesma! Ouvi o Dr. Jalma Jurado, um dos maiores especialistas do país em vaginoplastia e, naturalmente, em cirurgia de reaparelhamento genital, dizer em uma de suas palestras que suas clientes transgênera@s eram muito mais exigentes em termos de perfeição estética do que suas clientes que eram mulheres genéticas. Portanto, relaxa e goza, pois até a Roberta Close viveu e vive crises de &#8220;não passar&#8221;! <br /> Nessa área, o máximo que podemos fazer é o que toda mulher (e homem) sensata faz: procurar uma roupa bonita, confortável e adequada ao seu tipo físico. Que a faça sentir-se à vontade dentro dela.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>4) não tem como resolver questões básicas de &#8220;montagem&#8221; e &#8220;desmontagem&#8221;; </strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Se você estiver realmente necessitando de se expressar e tem dificuldades para fazê-lo, peça ajuda! É mais do que provável que muitas pessoas apareçam tentando de alguma forma ajudá-la. Mas ninguém vai sair por aí te oferecendo ajuda não-solicitada, correndo o risco, inclusive, de ser chamad@ de intrometid@ ou estar querendo “forçar a sua barra”&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>5) logo ali, no futuro, algumas coisas acontecerão como que magicamente, fazendo com que todo o universo, que hoje conspira francamente contra, passe a trabalhar ao seu favor;</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Você sabe que isso é uma grande ilusão. Tipo passar a vida esperando ganhar na loteria para pagar as dívidass que, enquanto isso, vão se acumulando cada vez mais. Se você não começar a agir &#8211; já! &#8211; as coisas deixadas a si mesmas permanecerão exatamente como estão ou, o que é pior, irão deteriorar-se cada vez mais.</p>
<p>Não podemos tudo que gostaríamos, mas podemos muitas coisas, que desprezamos, por não serem exatamente as coisas que gostaríamos&#8230; Mas não há maior loucura do que abrirmos mão das coisas possíveis e viáveis em nome das coisas impossíveis e inviáveis.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>6) é uma pobre vítima indefesa, vivendo em uma sociedade transfóbica, necessitando de sobreviver e, portanto, tendo que sujeitar-se a todo tipo de restrição, imposição e bloqueio, por mais injusto e mesquinho que seja.</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Coisas como dignidade, liberdade e auto-determinação não são coisas que nos possam ser delegadas por terceiros: &#8211; é preciso que nós as conquistemos. Não se trata, como eu digo sempre, de chutar o pau da barraca e botar fogo no acampamento. Atitudes intempestivas não produzem resultados duradouros. Mas também não podemos permanecer mergulhados no clima, altamente neurótico e necrófilo, da auto-piedade neurótica.</p>
<p>Se vc for esperar a boa vontade de mulher, filho(a), vizinho(a), sogra(o), amiga(o) ou a Dilmaquinista para se montar vai morrer barbada, de terno e gravata, pode ter certeza disso! Ponha na sua cabeça, de uma vez por todas, que na estrutura social brasileira, machista e patriarcal como é, ninguém aprova homem vestido de mulher, nem mesmo quem diz que aprova. No máximo, toleram, e assim mesmo somente de uns tempos pra cá, porque não querem parecer tão cafonas e ultrapassadas quanto realmente são. É preciso que você entenda de uma vez por todas que o que quer fazer é algo que não tem a aprovação da sociedade. Ou você assume os aspectos subversivos da coisa ou desiste dela. Pergunte a qualquer uma de nós: não é possível conciliar o desejo de se travestir &#8211; e de se mostrar assim ao mundo &#8211; com a necessidade, totalmente desnecessária e neurótica, de manter um controle absoluto sobre as pessoas que nos cercam <em>(se vão nos ver ou deixar de nos ver em algum lugar e com quem; se vão nos crucificar; se vão nos abandonar; se vão nos amparar ou nos atirar na sarjeta&#8230; etc, etc). </em></p>
<p style="text-align: justify;"><img class="alignleft size-full wp-image-2688" title="img_guilty2" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2012/04/img_guilty2.jpg" alt="" width="256" height="181" />Certamente você admira algumas pessoas transgêneras que vê por aí, livres, leves e soltas em sua “movimentação” pelos mais diversos nichos sociais. Provavelmente você as admira pela segurança e dignidade pessoal que essas pessoas lhe transmitem. Contudo, é possível que você não veja o itinerário que todas percorreram, e que nunca é feito de “pedras amarelas” e sapatinhos de cristal, como no antológico “Mágico de Oz”&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Tod@s estiveram expostas a todos esses &#8220;perigosos riscos mortais&#8221;, que hoje você está vendo praticamente em todos os lugares para onde olha. Mas, ao mesmo tempo, estão tod@s viv@s, cada vez melhores e mais felizes, vivendo suas vidas transgêner@s.</p>
<p style="text-align: justify;">Em outras palavras, os riscos, se nos trazem ameaças concretas, também nos fazem crescer &#8211; e muito. Talvez de uma forma que ninguém poderia crescer, se tivesse ficado apenas imaginando em como é que as coisas poderiam ter sido, em vez de ter sido um pouquinho mais ousad@ e menos temeros@ numas quantas decisões existenciais.</p>
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		<title>Fetichista ou Crossdresser?</title>
		<link>http://www.leticialanz.org/fetichista-ou-crossdresser/</link>
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		<pubDate>Thu, 26 Apr 2012 21:21:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Letícia Lanz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divã da LeLanz]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.leticialanz.org/fetichista-ou-crossdresser/"><img align="left" hspace="5" width="65" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2011/09/img_divanlelanz.gif" class="alignleft wp-post-image tfe" alt="" title="img_divanlelanz" /></a>Bom Dia. Assistindo a um programa da Rede TV sobre o assunto crossdresser nesta semana fiquei preocupada quanto ao que está acontecendo com o meu marido. Meses atrás eu o surpreendi usando uma calcinha minha e dizendo entusiasmado que o <a class="more-link" href="http://www.leticialanz.org/fetichista-ou-crossdresser/">Leia mais</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img title="img_divanlelanz" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2011/09/img_divanlelanz.gif" alt="" width="720" height="112" /><em></em></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small; color: #8b0000;"><em>Bom Dia. Assistindo a um programa da Rede TV sobre o assunto crossdresser nesta semana fiquei preocupada quanto ao que está acontecendo com o meu marido. Meses atrás eu o surpreendi usando uma calcinha minha e dizendo entusiasmado que o seu membro masculino ficava duro pra mim quando ele a usava. De início, levei a situação na brincadeira, mas quero dizer que aquela calcinha não me pertence mais. Por várias vezes na semana ele puxa minha mão para mostrar como ficou o instrumento dele com ela. Hoje estranhei quando sem querer fui guardar roupas nas gavetas e não encontrei essa calcinha que ele escolheu. Procurei em todas as gavetas, na roupa suja e nada. Temo que ele tenha ido trabalhar com ela, e por isso resolvi escrever. Não sei o que fazer. No momento, estou observando pra ver o que descubro. Sei que ele também está me analisando, tentando identificar o modo como eu me comporto e falo. Mas sei que não estou a vontade porque desconheço como lidar com esse desejo. Essa situação me preocupa. É tudo novo pra mim. Tenho muitas dúvidas e o estou observando de perto, tentando saber até que ponto é um fetiche ou ele é crossdresser. Tenho quase 17 anos de casada e não tenho ninguém pra dividir esse assunto além dele mesmo. Por isso, busquei e encontrei seu site. Pode ajudar-nos a conhecer melhor isso que está acontecendo e ter a certeza quanto se é um fetiche dele ou se ele é crossdresser? Grata, Paola. <br /></em></span></p>
<p style="text-align: justify;">Paola,</p>
<p style="text-align: justify;">Perdoe-me a franqueza, mas acredito que sua maior dúvida não é se o seu marido está usando calcinha por fetiche ou por ser travesti<sup>1</sup>, como você disse em seu email, mas em saber em quê e como qualquer uma dessas coisas poderão afetar sua vida pessoal e conjugal.</p>
<p style="text-align: justify;">Sendo novamente sincer@, o medo maior, mesmo, de quase toda mulher, é ver o marido ou companheiro “afeminar-se”. Trata-se de um medo absurdo, primitivo, ancestral, de verem seus homens perder a “masculinidade”. Em priscas eras, ter um macho para protegê-la e à sua prole talvez fosse o ideal de vida de toda mulher. Mas acredito ser muito pouco provável que existam ainda muitas pessoas acreditando em algo assim, em pleno sec XXI.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, hoje em dia, mesmo havendo resquícios históricos que jamais se apagam da nossa memória coletiva, eu prefiro atribuir o medo das mulheres de seus homens se afeminarem como sendo, antes de tudo, resultado de uma concepção completamente distorcida e empobrecida do que elas consideram o “ser mulher”. Ao mesmo tempo que esse medo reforça uma suposta “superioridade masculina”, na medida em que deixa implícita a ideia de que ser homem é um grande privilégio, do qual nenhum macho jamais deveria abrir mão, em hipótese alguma.</p>
<p>Mas esse medo é também proveniente da superposição, em nossa cultura, de coisas completamente distintas uma da outra, como é o caso de gênero, sexo e orientação sexual. Sexo é biológico: machos e fêmeas. Gênero é social: papéis socialmente atribuídos aos indivíduos exclusivamente em função do seu sexo biológico. Orientação sexual: se a pessoa com quem a gente faz sexo é do nosso próprio sexo (homossexualidade) ou do sexo oposto ao nosso (heterossexualidade). Nossa sociedade judaico-cristã estabelece que se alguém tem sexo macho (fêmea) TEM QUE ASSUMIR COMPULSORIAMENTE papéis masculinos (femininos) na sociedade, como TEM QUE TER orientação heterossexual.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, todas as evidências empíricas até hoje reunidas mostram que NÃO HÁ NENHUMA relação direta e absoluta entre essas três variáveis. Ou seja, uma pessoa pode ser um macho biológico mas não identificar-se com papéis masculinos e, ainda assim, ter orientação heterossexual. Da mesma forma, alguém pode ser um macho biológico, identificar-se plenamente com papéis masculinos e ter orientação homossexual.</p>
<p> Entretanto, a nossa sociedade heteronormativa criou e mantém, à custa de muita repressão, uma &#8220;identidade forçada&#8221;, totalmente arbitrária e compulsória, entre essas três variáveis. Se alguém nasce macho, TEM QUE assumir papéis masculinos E TEM QUE ter orientação heterossexual, isto é, gostar exclusivamente de mulher para fazer sexo.</p>
<p style="text-align: justify;">Devido ao intenso bombardeio socioeducativo recebido desde a infância, a grande maioria das pessoas jamais questiona os fundamentos dessa “identidade compulsória” entre sexo, gênero e orientação sexual, aceitando-a passivamente como verdadeiro pilar da ordem social e política da humanidade, e transformando-a em farol para todas as suas escolhas e vivências neste mundo. E é aí que entra a sua preocupação com o seu matrimônio de 17 anos &#8211; e com você mesma &#8211; na condição de cônjuge de um homem que apresenta “fortes sinais” de estar violando os sacrossantos dispositivos de gênero da nossa sociedade, ao aparecer para você vestindo uma calcinha.</p>
<p> Ora, dentro das regras do jogo que descrevi acima, o homem – como chamamos o tal “macho” biológico &#8211; deve assumir apenas papéis masculinos e, convenhamos, vestir roupas de mulher ESTÁ COMPLETAMENTE FORA DA ÓRBITA dos papeis masculinos, configurando uma transgressão aberta aos códigos de conduta vigentes na nossa sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa “não-conformidade”, do seu macho vestindo calcinha, desperta em você, mulher dele, o medo de que ele também esteja desobedecendo a tal “orientação heterossexual”, que necessariamente deve ter, em função de ser um macho biológico.</p>
<p>Voltemos, agora, à sua indagação principal: <em>pelo fato dele usar calcinha, trata-se de um fetiche ou meu marido é crossdresser?</em> Se você reler o que escrevi até aqui, vai perceber que essa sua colocação deixou de fazer sentido, diante de tantas outras que, de modo até impiedoso, a atropelaram no meio do caminho.</p>
<p style="text-align: justify;">Que diferença faz o “rótulo” que a “ação transgressora” do seu marido possa receber? Seja por “simples” fetiche ou por um desejo remoto de tornar-se mulher, o fato é que ele está vestindo calcinha. O significa que, ao fazer isso, ele está se afeminando. E isso significa problemas a vista para a vida conjugal “cor-de-rosa” que toda esposa sonhou.</p>
<p>Claro que o seu medo será tanto menor quanto “menos grave” for o delito praticado pelo seu marido contra o malfadado sistema binário de gênero existente neste mundo. Vale dizer, vestir uma calcinha de vez em quando, apenas para “aumentar o tesão”, é muito menos grave do que passar a usar calcinha regularmente, no lugar da cueca, estágio no qual, segundo você, o seu marido já se encontra, conforme comprovou o seu esforço de detetive&#8230; Porém, muito mais grave &#8211; aliás, gravíssimo! &#8211; é se ele resolver vestir-se de mulher dos pés à cabeça, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, incorporando, inclusive, gestual e voz femininos. Aí, sim, você estará mergulhada em um verdadeiro “inferno astral”!</p>
<p style="text-align: justify;">Infelizmente, não há como saber se é fetiche dele ou é manifestação de algum grau de transgeneridade. Às vezes, um macho tem apenas curiosidade de saber como é estar de calcinha. Nesse caso, estará apenas atendendo uma curiosidade passageira, tentando explorar e conhecer melhor um objeto que contrasta radicalmente com o seu equivalente masculino &#8211; a cueca – conhecida e desajeitada peça do guarda-roupa masculino, feita de tecidos grosseiros, em modelagens infames e cores desbotadas. Passada a curiosidade – e instalada a culpa – a maioria dos caras voltam correndo pra suas cuecas samba-canção e “zorba”&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, tem um grupo que vai mais longe, querendo repetir mais e mais vezes o estado de incrível excitação que conseguiu atingir usando a calcinha, excitação essa muitas vezes descoberta por acaso mesmo, na hora em que colocou a calcinha pela primeira vez.</p>
<p style="text-align: justify;">Homem tem muita tesão, o tempo todo, ao contrário da mulher, que só tem tesão de vez em quando. Mas a tesão masculina é bruta, grosseira como suas cuecas. Para o homem típico, conta muito mais a quantidade do que a qualidade das suas excitações. Tesão feminina, ao contrário, é algo muitíssimo refinado, de natureza muito mais rica e intensa. Na mulher, há o predomínio absoluto do fator qualidade, em detrimento dos fatores quantidade e frequência, tão importantes para o homem.</p>
<p>Essa disputa entre e “quantidade e frequência” e “intensidade da excitação” é uma das questões até hoje irreconciliáveis na vida do casal homem/mulher. Não cabe aqui discutir as razões socioculturais e biológicas que estariam determinando essas variações. Mas trata-se de um fato que pode ser constatado por você mesma, através de uma simples conversa com suas parentes e amigas mais próximas que são casadas ou vivem em companhia de um homem.</p>
<p style="text-align: justify;">Pelo que você disse, seu marido já se encontra neste segundo estágio que, a rigor, deve ser considerado como o estágio do fetiche propriamente dito. As calcinhas, as meias de seda e os sapatos de salto encabeçam a lista dos itens femininos mais requisitados pelos fetichistas. Eles experimentam um altíssimo grau de excitação sexual através do uso ou da mesmo da simples “contemplação” desses objetos, podendo até mesmo atingir o orgasmo sem necessitarem nem ao menos de se masturbar.</p>
<p style="text-align: justify;">Se isso a “tranquiliza”, há uma diferença radical entre fetichistas e transgêneros. Ou seja, não há nenhuma relação direta entre a “força de tesão” proporcionada por objetos do vestuário feminino – o chamado fetichismo masculino – e a manifestação de uma personalidade transgênera. Os fetichistas têm fixação no objeto, sem se identificarem com a imagem feminina propriamente dita, enquanto os transgêneros MtF (masculino para feminino) têm fixação na imagem feminina, sem se identificarem com o objeto propriamente dito. Os fetichistas satisfazem o seu desejo na sua relação direta com o objeto feminino, enquanto os transgêneros, no máximo, se valem de objetos femininos para expressarem a sua personalidade transgênera. Um fetichista usa calcinha para gozar. Um transgênero usa calcinha para expressar a sua feminilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Para tranquilizá-la ainda mais, a grande maioria dos homens fetichistas &#8211; e também dos homens transgêneros &#8211; JAMAIS ASSUMEM PUBLICAMENTE A SUA CONDIÇÃO!!! No caso específico dos transgêneros<sup>2</sup>, diversos estudos mostram que eles são capazes de passar a vida inteira “trancados no armário”, sem jamais expressar abertamente suas &#8220;personalidades em desacordo&#8221; com o modelo binário oficial de gêneros. Naturalmente não o fazem por temer, dentre outras desgraças, as terríveis represálias que podem vir das suas famílias (cônjuges, em especial, se são casados), caso elas descubram essa faceta tão especial do seu comportamento.</p>
<p>Mas essa “deserção”, que transforma a vida de uma pessoa transgênera num imenso deserto (pra não falar num &#8220;tedioso inferno&#8221;), é também, sem dúvida alguma, o grande alívio dessa incrível maioria de “mulheres machistas” que existe por aí, que tanto temem, quanto repudiam e combatem, a “feminização” dos seus “machos”&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Letícia Lanz</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="text-decoration: underline;">NOTAS:</span></p>
<p> 1 &#8211; ou “crossdresser”, como a nossa classe-média chama seus membros homens que gostam de se “vestir de mulher”(afff!), só para diferencia-los das travestis de rua, de classe social “inferior”&#8230; Pensamento pequeno-burguês de classe média brasileira&#8230;<br /> 2 – os “crossdressers” de armário constituem a imensa parcela do público transgênero, n seu todo estimado entre 1 e 5% da população masculina considerada adulta (acima dos 17 anos).</p>
<hr />
<p><span style="font-size: small;"><em>(Os nomes verdadeiros são omitidos a fim de preservar o sigilo das consultas.)</em></span></p>
<hr />
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		<title>Sujeitar-se ou Tornar-se Sujeito (18-04-2012)</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Apr 2012 03:40:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Letícia Lanz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divã da LeLanz]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.leticialanz.org/sujeitar-se-ou-tornar-se-sujeito-18-04-2012/"><img align="left" hspace="5" width="65" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2011/09/img_divanlelanz.gif" class="alignleft wp-post-image tfe" alt="" title="img_divanlelanz" /></a>Fiz o teste de gênero que existe no site. Foi legal saber que tenho um caráter &#8220;obediente&#8221;. Isso expõe de fato minha guerra interior. Casado, dois filhos, cheio de responsas, além das questões sócioculturais envolvidas, sofri muito por causa da <a class="more-link" href="http://www.leticialanz.org/sujeitar-se-ou-tornar-se-sujeito-18-04-2012/">Leia mais</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img title="img_divanlelanz" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2011/09/img_divanlelanz.gif" alt="" width="720" height="112" /><em></em></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small; color: #8b0000;"><em>Fiz o teste de gênero que existe no site. Foi legal saber que tenho um caráter &#8220;obediente&#8221;. Isso expõe de fato minha guerra interior. Casado, dois filhos, cheio de responsas, além das questões sócioculturais envolvidas, sofri muito por causa da religião (evangélica). Por esta última, não sofro mais, pois ao transcender na fé, em busca de uma resolução para o meu &#8220;problema secreto&#8221;, descobri um Deus amoroso, carinhoso e receptivo, sem distinções de gênero, classe, ou quaisquer outras condições meramente humanas e restritas a tempos e culturas. Descobri que Deus é espírito e o próprio Jesus afirmou que os seres espirituais não se tratam com distinção de gênero (acho isso espetacular). To no armário, sofrendo muito mesmo, mas acho que ali ficarei. Tenho já 37 aos e um monte de responsabilidades que julgo intransferíveis, como a de criar meus filhos ao lado de uma pessoa que amo demais, minha esposa. Entendi tudo ao ler seu artigo sobre crossdressers, concordei. É uma designação fugitiva, escapista e eu vou tentar aboli-la de minha vida. Gostaria de um contato, estou em guerra e sozinho!!</em></span></p>
<p style="text-align: justify;">Luciana,</p>
<p style="text-align: justify;">Embora o nosso destino seja até mesmo &#8220;sutilmente cruel&#8221;, não devemos nem podemos ser assim tão trágicas. Faz muitíssimo mal pro coração, tanto o real quanto o romântico. Temos direito ao nosso desejo e temos obrigação de tentar satisfazê-lo. O auto-abandono é a pior forma de rendição a essa ordem institucional caduca e opressora que obriga a maioria de nós a refugiar-se em armários escuros e bolorentos, por toda a vida, sem a menor esperança de luz!</p>
<p style="text-align: justify;">É preciso colocar o desejo de emancipação e liberdade adiante do medo de rejeição, pois é o desejo que nos move para novos e inexplorados territórios da nossa própria individualidade. O medo de rejeição, ao contrário, só nos imobiliza, nos &#8220;empedrece&#8221; e nos &#8220;apodrece&#8221;, condenando-nos a um processo de estagnação, de empobrecimento, de desempoderamento e decadência existencial.</p>
<p style="text-align: justify;">É preciso que você pare de olhar o seu momento atual como uma condenação à sujeição: &#8211; é isso, aliás, que a ordem patriarcal-machista quer que você acredite, que não tem outro jeito, que sua vida é assim e sempre será assim.</p>
<p style="text-align: justify;">Que sentido tem essa sua rendição incondicional a uma masculinidade tacanha, burra e completamente ultrapassada? Isso é bom pra quem? Quem é que ganha com isso? Você, com certeza, é que não é. Pra que manter-se refém desses estúpidos modelos &#8220;masculinos&#8221; de conduta, onde proibições como &#8220;usar vestuário feminino&#8221; chegam a ser ridículas diante da gigantesca e permanente vigilância exercida pelos homens (e uma maioria de mulheres insensíveis ao seu próprio desenvolvimento) sobre os próprios homens. Pra que obrigar-se a ser um modelo de homem que não corresponde ao seu modelo de alma? Pra que lutar contra a sua natureza, em vez de valer-se dela? Porque fazer de si mesmo um inimigo onipresente, em vez de tornar-se o seu grande e inseparável aliad@?</p>
<p style="text-align: justify;">Não é nada bom identificar suas responsabilidades familiares e profissionais <em>(acredito eu, livremente assumidas&#8230;)</em> com esses terríveis e assustadores algozes que bloqueiam, limitam e impedem, de forma irredutível, o caminho da sua realização pessoal. Você ainda não está suficientemente cansad@ de se atormentar, de se violentar, de se negar autorização para ser quem você acha que você é e viver a sua própria vida como você acha que ela deve ser vivida?</p>
<p style="text-align: justify;">Você se deu conta que, aos 37 anos, está decretando o fim da sua jornada de crescimento? Já se deu conta que, agindo assim, você vai se tornando cada vez mais uma pessoa amarga, atormentada pelos seus próprios fantasmas e com uma grande chance de tornar-se tormento para outras pessoas? Inclusive e sobretudo para as pessoas que você ama&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Até onde você vai suportar abrir mão de explorar o seu próprio eu, em busca do seu crescimento? Até quando você vai abandonar o seu desejo para ser meramente o &#8220;desejo do outro&#8221;, ou &#8220;dos outros&#8221;?</p>
<p style="text-align: justify;">Esta guerra de que você fala &#8211; e lamenta &#8211; é uma guerra sua contra você mesm@. Em que pese a eventual falta de entendimento do outro pelas suas necessidades e escolhas, a repressão maior é que você está exercendo sobre você mesm@. Mesmo porque nenhuma forma de repressão externa é capaz de se impor sem a participação ativa da seu próprio mecanismo de repressão interna.</p>
<p style="text-align: justify;">Muito mais do que as múltiplas demandas externas que você criou e cultiva como forma de fugir das suas próprias demandas, é esta guerra travada contra você mesm@ que está travando você, completamente! Uma guerra, por sinal, em que você sabe não ter a menor chance de ganhar, nem mesmo de empatar.</p>
<p style="text-align: justify;">Ninguém pode ganhar o mundo perdendo a alma, ela que é, você sabe muito bem, a sua verdadeira essência. Negar a sua essência é negar a sua própria existência. É condenar-se a ser um não-ser! Se é isso que você quer, vá em frente, e seja feliz em ser um não-ser. Mas se não é, está na hora de mudar, de encontrar alternativas para o cansaço, para a miséria pessoal, para o suplício do desejo insatisfeito, para o interminável desconforto, para esse deplorável estado de auto-comiseração.</p>
<p style="text-align: justify;">Você disse que está em guerra &#8211; e sozinh@. Mas está sozinh@, principalmente, de você mesm@! Pois o que mais lhe falta neste momento é a sua própria companhia. Pode acreditar: ninguém sente mais a sua ausência em sua vida do que você mesm@!</p>
<p style="text-align: justify;">Não é necessário, nem recomendável, que você &#8220;chute o pau da barraca&#8221; e &#8220;bote fogo no acampamento&#8221;. A verdadeira revolução não surge da violência, mas da compreensão profunda disso tudo. A matriz da evolução é a compreensão &#8211; não a violência. Mas também é preciso que você veja, o quanto antes, que a sua forma de não-violência com o mundo à sua volta tem exigido de você um permanente estado de violência contra você mesm@. Você está se auto-violentando, cada vez mais, a fim de não violentar o outro, o que é, em si, uma enorme violência, além de uma aguda contradição.</p>
<p style="text-align: justify;">A condição transgênera não exclui família, mulher, filhos ou profissão. Transgeneridade e cidadania não são grandezas incompatíveis e muito menos &#8220;mutuamente exclusivas&#8221;. Um homem, ao travestir-se, não precisa e não deve renunciar, como não pode ser confiscado desses direitos elementares de todo e qualquer cidadão.</p>
<p style="text-align: justify;">Seu primeiro exercício é convencer-se disso. Vencer o medo, a vergonha e a culpa que estão transformando sua vida nesse mar de lágrimas. Você tem que aprender a se respeitar e se orgulhar de ser como é, dentro da sua &#8220;masculinidade alternativa&#8221;, ainda que ela possa ser vista como simplesmente &#8220;subversiva&#8221; pelo olhar hipócrita de uma sociedade desumana e decadente.</p>
<p style="text-align: justify;">Você tem que se orgulhar do seu desejo; aprender a celebra-lo como um presente da vida, em vez de maldize-lo. Você não está cometendo nenhum crime, nenhuma infração, nenhum pecado. Pelo contrário, a prática do travestismo, nesse momento, talvez seja a única manifestação concreta de pode haver um outro tipo de masculinidade. </p>
<p style="text-align: justify;">O resto é com você. Sua escolha, como a escolha de qualquer ser humano, vai consistir sempre em &#8220;sujeitar-se&#8221; à história ou em &#8220;tornar-se sujeito&#8221; da sua própria história. Desejo que você consiga fazer a sua melhor escolha.</p>
<p style="text-align: justify;">Beijos.</p>
<p style="text-align: justify;">Letícia Lanz</p>
<p><span style="font-size: small;"><em>(Os nomes verdadeiros são omitidos a fim de preservar o sigilo das consultas.)</em></span></p>
<hr />
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		<title>Pra que tanta pressa? (03-04-2012)</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Apr 2012 15:30:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Letícia Lanz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divã da LeLanz]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.leticialanz.org/va-com-calma-nao-se-apresse/"><img align="left" hspace="5" width="65" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2011/09/img_divanlelanz.gif" class="alignleft wp-post-image tfe" alt="" title="img_divanlelanz" /></a>Olá, Letícia, tudo bem? Estou aqui por que estou quase completando 18 anos e não quero esperar mais um mês para começar a tomar hormônios, mas a minha dúvida é: onde ir primeiro. Já tenho uma consulta marcada na psicóloga <a class="more-link" href="http://www.leticialanz.org/va-com-calma-nao-se-apresse/">Leia mais</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img title="img_divanlelanz" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2011/09/img_divanlelanz.gif" alt="" width="720" height="112" /><em></em></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small; color: #8b0000;"><em>Olá, Letícia, tudo bem? Estou aqui por que estou quase completando 18 anos e não quero esperar mais um mês para começar a tomar hormônios, mas a minha dúvida é: onde ir primeiro. Já tenho uma consulta marcada na psicóloga (a mesma que já frequentava ano passado e já sabe da situação) e gostaria de saber se após essa consulta eu simplesmente vou à um Endocrinologista, faço os exames e parto para os hormônios ou se precisa de alguma autorização vindo de algum superior que permita esse início da transição. Espero que tenha entendido a minha pergunta! <br />Att, Mateus.</em></span></p>
<p style="text-align: justify;">Mateus,</p>
<p style="text-align: justify;">Penso que entendi tua questão: você tem pressa. E a pressa defintivamente não é boa companheira de ninguém, muito menos de um guri no final da adolescência, com toda a vida pela frente. O caminho é este mesmo que você descreveu, com muita consciência: conversar com um(a) psicoterapeuta que possa lhe ajudar a reconhecer e aceitar sua verdadeira identidade. Nem é tanto a questão de mais um mês ou menos um mês, mas a questão de estar firme nas suas decisões pessoais. Assumir a vida como uma pessoa transgênera não é uma tarefa fácil para ninguém. A sociedade em que vivemos só tem lugares reservados para pessoas devidamente enquadradas no binômio oficial de gêneros, a famosa dupla masculino/feminino. Pessoas que estão enquadradas em um gênero, mas sentem que têm muito mais a ver com o gênero oposto, acabam tendo que &#8220;pastar&#8221; bem mais do que a média dos mortais&#8230; Por mais que, fisicamente, você já se pareça com uma pessoa do gênero oposto, por mais que consiga &#8220;passar&#8221; socialmente como membro do gênero oposto, sempre ficará no ar algum senão, alguma dúvida. Isso é inevitável e continua sendo um tormento mesmo para pessoas que há muito tempo completaram sua transição para viver inteiramente como membros do gênero oposto. Assim, não tenha pressa. Procure fortalecer-se nas suas decisões, de modo que amanhã não tenha nada do que se lamentar, nem tenha que carregar a carga &#8211; totalmente indesejável &#8211; de escolhas mal-feitas, feitas às pressas, de afogadilho. Ser uma pessoa transgênera é normal e é legal, mas é preciso você saber que a sociedade como um todo ainda está muito distante de entender isso e de incluir as pessoas transgêneras como algo simples e natural. Portanto, vá com calma. Tome as suas decisões apoiado no máximo de &#8220;certezas mais prováveis&#8221;, já que certezas absolutas absolutamente não existem! Mais do que &#8220;autorização&#8221; por parte dos seus responsáveis (e muito provavelmente isso lhe será solicitado&#8230;), é preciso que você esteja em paz, com com você mesmo e com suas escolhas, pois só dessa forma poderá estar em paz com a sua família. Ou seja, se você estiver se sentindo confortável com as suas decisões, pouca coisa neste mundo será capaz de abalar você, até mesmo uma eventual falta de apoio dos seus familiares. Portanto, mãos à obra! Aproveite a oportunidade que você está tendo de obter acompanhamento psicológico (poucas de nós dispõem desta facilidade&#8230;) e tente esclarecer para você mesmo qual é o seu desejo e o quanto você está disposto a lutar por ele. No mais, vá com calma e não se apresse. Beijos e boa sorte. Letícia Lanz, 03 de abril de 2012.</p>
<hr />
<p style="text-align: right;">→ Envie sua consulta <a href="http://www.leticialanz.org/wrdp/consulta-ao-diva-da-lelanz-2/" target="_blank">clicando aqui</a></p>
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		<title>O Verdadeiro Sentido de Ser Princesa</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Mar 2012 23:15:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Letícia Lanz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos Nada Exemplares]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.leticialanz.org/o-verdadeiro-sentido-de-ser-princesa/"><img align="left" hspace="5" width="65" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2012/03/img_frog.jpg" class="alignleft wp-post-image tfe" alt="" title="img_frog" /></a>Era uma vez, num país não muito distante, uma princesa que se apaixonou perdidamente por ela mesma. Um dia, enquanto se admirava, tomada de imensa paixão por si mesma, deu um longo beijo de amor na própria imagem refletida no <a class="more-link" href="http://www.leticialanz.org/o-verdadeiro-sentido-de-ser-princesa/">Leia mais</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="size-full wp-image-2641 alignleft" title="img_frog" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2012/03/img_frog.jpg" alt="" width="204" height="265" />Era uma vez, num país não muito distante, uma princesa que se apaixonou perdidamente por ela mesma. Um dia, enquanto se admirava, tomada de imensa paixão por si mesma, deu um longo beijo de amor na própria imagem refletida no espelho. Instantaneamente, como acontece em contos de fada sacanas como este, a princesa virou um tremendo de um sapo. O bicho, ao ver-se no espelho, feio, enorme e desengonçado, deu um grito de espanto (ou melhor, emitiu um ruído qualquer porque, como se sabe, sapos não chiam e, se forem de fora, nem roncam, quanto mais gritam&#8230;) e fugiu horrorizado. Também instantaneamente, como acontece em estados de paixão mal-resolvidas, a princesa, digo o sapo, passou a desprezar e a odiar a si mesma, por não ser mais a figura maravilhosa que há poucos instantes venerava diante do espelho. Andava o sapo mergulhado em terríveis conflitos de auto-aceitação (que nunca acabam nem têm saída, nem com anos de análise, coisa que a gente só descobre com anos de análise&#8230;) quando uma fada, compadecida diante do destino cruel que a princesa dera ao seu próprio destino, apareceu para ele e disse: &#8211; a maldição do destino só será desfeita quando você aprender a amar a si mesmo tal como é agora. Cruuuzes! Dentro da estética burguesa &#8220;barbie&#8221;, uma mulher só pode amar a si mesma (e ser amada pelos outros&#8230;) se for uma princesa lindíssima, charmosíssima e maravilhosa. É impossível alguém amar (é quase impossível alguém ao menos aturar) a feiúra, o desengonçamento, a falta de graça, de charme, de beleza &#8220;vamp&#8221;. Desde então, o sapo tem passado por poucas e boas (ou seja, por muitas e ruins) para aceitar-se e amar a si mesmo tal como é. Tantas, que dariam para fazer várias temporadas de uma série de TV que se chamaria &#8220;um sapo em busca de auto-aceitação&#8221;. Desfecho de conto de fadas como este ninguém sabe mesmo, por ser o tipo de história que não termina nunca. A única coisa que se sabe é que o sapo vai continuar lutando desesperadamente (ele diz que é esperançosamente, mas eu duvido) por muitas e muitas &#8220;encadernações&#8221; até se aceitar e se amar como sapo,  ganhando assim o direito de voltar a ser a belíssima princesa que foi um dia. Aventura que, em si, é uma tremenda de uma contradição, pois é impossível aceitar-se como sapo achando que se devia ser princesa ou, pior ainda, tendo em vista a recompensa de voltar a ser princesa&#8230; Contudo, para não frustrar demais as meninas que pacientemente me leram até aqui, posso assegurar, pelas pífias leituras que possuo, que as escolas psicanalíticas mais respeitáveis afirmam que, quando um sapo se aceita como sapo não tem mais a mínima necessidade de ser princesa. E talvez esteja aí o verdadeiro sentido de alguém querer ser princesa&#8230; </p>
<p style="text-align: justify;">Letícia Lanz,<br />em momento inspiradíssimo <em>(tinha acabado de atender um sapo em crise&#8230;)</em></p>
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		<title>Você tem o direito de se vestir como quiser! (13-03-2012)</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Mar 2012 14:36:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Letícia Lanz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divã da LeLanz]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.leticialanz.org/voce-tem-o-direito-de-se-vestir-como-quiser/"><img align="left" hspace="5" width="65" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2011/09/img_divanlelanz.gif" class="alignleft wp-post-image tfe" alt="" title="img_divanlelanz" /></a>Olá Letícia! Bem, minha querida, trabalho muito e quase não tenho tempo, mas acompanho o seu site sempre que eu posso. Sou um crossdresser de armário, casado e com um filho de 6 anos. Minha esposa sabe do meu fetiche <a class="more-link" href="http://www.leticialanz.org/voce-tem-o-direito-de-se-vestir-como-quiser/">Leia mais</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img title="img_divanlelanz" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2011/09/img_divanlelanz.gif" alt="" width="720" height="112" /><em></em></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small; color: #8b0000;"><em>Olá Letícia! Bem, minha querida, trabalho muito e quase não tenho tempo, mas acompanho o seu site sempre que eu posso. Sou um crossdresser de armário, casado e com um filho de 6 anos. Minha esposa sabe do meu fetiche por roupas de mulher. Já conversei com ela, acho que ela entendeu por um tempo, mas de repente resolveu que não quer mais aceitar. nem quer me ver travestido, dizendo que isso a faz brochar na hora do sexo. E não quer nem que eu toque nesse assunto com ela, Então, Letícia, até aí estou tentando entendê-la. Não uso mais na hora do sexo e nunca usei para me exibir pra ela, porque a respeito muito. Sei do amor que ela tem por mim e eu também tenho um amor muito grande por ela. Já transei com ela várias vezes travestido, às vezes só de calcinha e soutien, outras de camisola ou vestido. Até agora ela nunca tinha reclamado, porque sabe que quando estou travestido consigo lhe proporcionar noites inesquecíveis de prazer. Mas de repente ela parou de me aceitar travestido, como eu já falei. Na nossa conversa, ela disse até que não se importava de eu me travestir, desde que não fosse na cama, pra ela não encostar em mim e sentir o tecido da roupa feminina, nem pela casa, para ela não ter que me ver vestido de mulher. Sou hétero e gosto muito de mulher. Não sinto atração nenhuma por homens. Uso roupas femininas escondido desde os meus 7 pra 8 anos de idade. Como muitos, já tentei deixar este vício, sempre em vão, pois ele volta, ou melhor, nem vai embora direito. Já consegui passar longos pertíodos sem me travestir, mas de repente vem aquele desejo impossível de controlar e começa tudo de novo. Hoje mais esclarecido sobre o assunto não sinto mais a menor vontade de deixar de me travestir porque simplesmente adoro estar vestido de mulher. Só que até hoje vivi esse meu lado somente entre quatro paredes, sem o conhecimento de mais ninguém além da minha esposa. Vivo com ela há 8 anos e há mais ou menos 5 ela sabe que eu gosto de me travestir. Sempre fui muito discreto. Mesmo depois de ter contado pra ela, continuei a me travestir escondido dela, menos as vezes que fizemos sexo e que como eu disse ela não quer mais fazer comigo travestido. Mas de um ano para cá a vontade de estar travestido tem me dominado por completo. Eu não consigo pensar em mais nada além de vestidos, saias, calcinhas, sandálias de salto&#8230; Quando passo por uma loja feminina eu só falto pular pra dentro da vitrine tamanha é a minha vontade de estar usando aquelas roupas e calçados.  Nas minhas divagações, a todo momento eu me vejo chegando em casa mais cedo e correndo para o armário da minha esposa, pra me montar&#8230; E imagino ela me aceitando e participando do meu crossdressing. Penso que só conseguirei ser feliz de verdade se isso realmente acontecer. Quero poder me travestir e quero que minha mulher me aceite e participe de tudo. Mas gostaria muito de entender porque ela começou a me rejeitar de uma hora para outra já que só faço coisas boas pra ela quando estou travestido, tipo transa de primeira, limpeza e arrumação da casa, lavagem da louça, etc&#8230; Então, Letícia, se houver alguma coisa que você possa me esclarecer sobre como resolver esta minha situação com minha esposa irei te agradecer muito. Abraços pra você!!!<br />Rodrigo C., Salvador-BA.</em></span></p>
<p style="text-align: justify;">Caro Rodrigo,</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez você não saiba, mas não há nenhuma lei que impeça qualquer pessoa de se vestir, em casa ou publicamente, com o tipo de roupa que desejar. A menos que as condições de segurança do local exijam roupas especiais, como é o caso de plantas industriais, cada um pode se vestir como bem entender, sem precisar de pedir opinião ou autorização a quem quer que seja.</p>
<p style="text-align: justify;">Em síntese, qualquer pessoa pode se vestir com a roupa que quiser sem o perigo de se tornar um fora-da-lei. Se os homens usam (horríveis) pijamas de algodão de listras, em vez de lindas e macias camisolas de seda é por tolice e convenção sem sentido.</p>
<p style="text-align: justify;">As mulheres, inclusive a sua, que deixaram de ser bobas desde meados do século passado, vestem as roupas que bem entendem e não dão satisfação a ninguém. Fica ao critério delas decidirem o que vão ou não vestir e não estão nem aí pra galera.</p>
<p style="text-align: justify;">Por outro lado, saiba que nenhuma lei matrimonial dá a qualquer um dos cônjuges o direito de marginalizar, desprezar, condenar ou excluir o outro cônjuge em razão das roupas que ele ou ela gosta de vestir. Sua esposa, portanto, ao querer decidir a roupa que você deve ou não usar está invadindo o seu espaço, pois isso não é da conta dela, assim como não é da sua conta decidir quanto à roupa que ela deve ou não usar.</p>
<p style="text-align: justify;">Se ela, entretanto, considera que vocês, enquanto casal, devam continuar vivendo no século XVIII, exigindo que você só use “roupa de homem”, você deve passar igualmente a exigir dela que use exclusivamente vestidos e saias arrastando até o pé, como fazem as seitas fundamentalistas, pois calças compridas e camisetas, por exemplo, são roupas originalmente masculinas, que as mulheres resolveram confiscar para uso próprio.</p>
<p style="text-align: justify;">Engraçado você falar que a ama, que a respeita muito e que, por isso mesmo, jamais apareceria para ela travestido como se, ao fazer uma coisa dessas, você deixasse de ama-la. Desculpe-me, mas “o c* não tem nada a ver com as calças”, como diz o ditado popular. Amor e auto-censura definitivamente não combinam. Mais cedo ou mais tarde um devora o outro. Quando é o amor que devora a censura é porque existe amor mesmo, pois o amor é incondicional. Quando é a censura que devora o amor, como está acontecendo no seu caso, o mais provável é que você desenvolva uma revolta muito grande contra a sua mulher, como, aliás, parece que já está começando a acontecer quando você diz que não entende como é que ela pode recusar o seu travestismo se você só faz coisas boas pra ela. Para mostrar que a gente ama alguém, não precisamos – nem devemos – nos podar e nos reprimir como você está fazendo com você mesmo, impedindo a manifestação de uma parte que diz ser tão essencial para a integridade do seu ser e sua felicidade. Nem sua mulher tem o direito de exigir que você vista somente este ou aquele tipo de roupa, nem você tem o direito de exigir isso dela. Cada um que vista o que quiser, quando quiser, como quiser. Roupa não é um assunto para gerar tanta confusão e escândalo.</p>
<p style="text-align: justify;">Aliás, se está gerando essa confusão e esse escândalo é porque você, em primeiro lugar, não aceita que uma coisa dessas esteja acontecendo com você: você ainda não se aceita como travesti. E como você não se aceita, tudo à sua volta se transforme em impedimento e justificativa para você não ter que se assumir perante você mesmo! De certa forma é até uma sorte para você sua esposa ter deixado de aceita-lo pois, agora, você não precisa mais ceder ao que você mesmo chamou de “vício incurável”. É você mesmo que está se apresentando diante dela como um “viciado pervertido”! Se você tivesse orgulho de ser assim, em vez de vergonha, é pouco provável que ela tivesse coragem de censura-lo!</p>
<p style="text-align: justify;">A fim de exigir os nossos direitos é necessário é que tenhamos consciência deles e os vejamos como “troféus” em vez de vê-los como incômodos pesos em nossas vidas.</p>
<p style="text-align: justify;">A mulher conseguiu avançar muito no seu processo de libertação do homem. Agora é a vez do homem libertar-se do próprio homem. Aproveite a chance de ser um dos primeiros a fazer isso.</p>
<p><span style="font-size: small;"><em>(Os nomes verdadeiros são omitidos a fim de preservar o sigilo das consultas.)</em></span></p>
<hr />
<p style="text-align: right;">→ Envie sua consulta <a href="http://www.leticialanz.org/wrdp/consulta-ao-diva-da-lelanz-2/" target="_blank">clicando aqui</a></p>
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		<title>Meu marido se veste de mulher</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Mar 2012 15:45:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Letícia Lanz</dc:creator>
				<category><![CDATA[SOS Esposas]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.leticialanz.org/meu-marido-se-veste-de-mulher/"><img align="left" hspace="5" width="65" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2012/03/img_mini_skirt_couple.jpg" class="alignleft wp-post-image tfe" alt="" title="img_mini_skirt_couple" /></a>Meu marido se veste de mulher   Depoimento à jornalista Andrea Dip, revista &#8220;Marie Claire&#8221;, janeiro de 2012. A vida da artista plástica Eliana mudou depois que seu parceiro virou crossdresser. Aqui, ela conta como esse hábito afeta o casamento de <a class="more-link" href="http://www.leticialanz.org/meu-marido-se-veste-de-mulher/">Leia mais</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="size-full wp-image-2603 alignleft" title="img_mini_skirt_couple" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2012/03/img_mini_skirt_couple.jpg" alt="" width="169" height="279" /> <span style="font-size: x-large;"><strong><span style="color: #800080;">Meu marido se veste de mulher<br /></span><span style="color: #000000; font-size: x-small;">   Depoimento à jornalista Andrea Dip, revista &#8220;Marie Claire&#8221;, janeiro de 2012.</span><span style="color: #800080;"><br /></span></strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><em>A vida da artista plástica Eliana mudou depois que seu parceiro virou crossdresser. Aqui, ela conta como esse hábito afeta o casamento de 25 anos — e a cabeça dela. &#8220;No começo, meu marido me dava roupas espalhafatosas, que nunca usei. Hoje, brincamos que ele virou boneca porque não virei Barbie&#8221;. &#8220;Já fizemos sexo com ele vestindo uma minissaia.Começamos a nos acariciar. Foi normal. É incrível, mas não tem fetiche aí&#8221;.</em></span></p>
<p style="text-align: justify;">Conheci meu marido em um curso de alemão nos anos 80. Sou arquiteta e queria estudar urbanismo na Alemanha. Ele pleiteava uma bolsa de estudos por lá, mas a vida nos levou por outros caminhos. Era uma sala pequena, com poucos alunos, e ele sempre chegava atrasado, derrubando tudo. Era atrapalhado e de cara me chamou a atenção por isso. Impossível não notar sua presença. Ainda hoje é bonito, 1,80 metro, grisalho, bem cuidado. Começamos a conversar casualmente e passei a dar carona até o estacionamento onde ele deixava o carro. Eu fazia o estilo hippie, andava de calça jeans, regata e rasteirinha. Ele estava sempre de terno porque era chefe de RH em uma empresa.</p>
<p style="text-align: justify;">Em uma das primeiras caronas, ele me perguntou se eu tinha namorado. Respondi que não, ‘porque não queria nada sério naquele momento’, mas a verdade era que já estava atraída por ele. Foi paixão à primeira vista. Tinha tudo que eu queria em um homem: era sensível, fazia poesia, tocava violão. Era gentil, superculto e cavalheiro. E me paquerava com classe. Um dia, saindo do curso, o convidei para ir até a minha casa. Ele disse que não podia, mas me visitaria qualquer dia. Então, certa noite, estava saindo para uma festa e ele apareceu com um violão na porta da minha casa, sem avisar. Fomos para a festa de uns amigos meus e lá nada aconteceu. Quando foi me deixar em casa, decidi arriscar. Dei um beijo nele. Foi um beijo curto, mas bom. Na hora, pensei: ‘Ah, esse cara vai achar que eu sou muito avançada!’. Ficamos nos vendo durante uns três meses. Íamos ao cinema, ao teatro, mas sem sexo. Ele vinha de uma família moralista. Tínhamos um contato mais íntimo, mas não chegávamos aos finalmentes. Para mim, as coisas estavam seguindo um curso natural e queria investir nele. Então ele conseguiu a bolsa de estudos e ficou seis meses fora. Nós nos correspondemos por carta. Quando ele chegou, parecia que nunca estivemos separados. Nós nos casamos em um ano. A primeira transa aconteceu quando estávamos prestes a nos casar. Já tínhamos intimidade (brincávamos bastante de preliminares), foi bem natural. A transa foi tranquila, cheia de carinho.</p>
<p style="text-align: justify;">Tivemos três filhos, que hoje são adultos. Durante os primeiros 25 anos de casamento, o relacionamento seguiu como qualquer outro: com altos e baixos. Nossa vida sexual sempre foi boa, frequente e criativa, mas sem nenhum fetiche nem fantasia. Depois desse tempo todo juntos, minha vontade de procurá-lo para transar foi diminuindo. Estava fazendo outra faculdade, com o foco na vida profissional e nos filhos. Deixei de prestar atenção no casamento. No dia em que completamos nossas bodas de prata, tivemos uma discussão por causa da minha falta de tesão. Meu marido disse que a vida dele estava péssima, um saco, que estava entediado. Falou que precisava repensar tudo e não queria mais morar na nossa casa. Fez as malas e foi para um hotel. Ele estava irritado. Não tive como impedi-lo. Fiquei desesperada. Meus filhos ainda moravam em casa e tentaram me consolar. Não queria mostrar o quanto estava abalada. Sozinha, me tranquei no quarto e chorei por horas. Eu me perguntava o que tinha feito para deixá-lo tão furioso. Não era possível que só a rotina o tivesse perturbado a ponto de sair de casa daquela forma. Desconfiei que ele tinha arrumado outra.</p>
<p style="text-align: justify;">Fiquei ligando no celular dele durante toda a noite. Quando resolveu falar comigo, pediu que o deixasse em paz. Com muito ­custo, consegui marcar uma conversa para o dia seguinte. Nós nos encontramos no hotel e ele disse: ‘Vou te contar por que não aguento mais: gosto de me vestir de mulher e sei que é inaceitável. Não quero te fazer sofrer. É melhor me afastar. Não sou homossexual, gosto de mulher, de você’. Senti um enorme alívio. Queria ficar com ele e o importante era tê-lo ao meu lado. Ele me amava, tudo podia se resolver. Virei para ele e disse: ‘É isso? Vamos embora para casa’. Para mim, seria estranho desistir de uma vida inteira de cumplicidade por causa desse desejo.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois que ele voltou para casa, a sensação de alívio foi passando e as dúvidas começaram a brotar. Por mais cabeça aberta que eu fosse, não conhecia o universo dos <em>crossdressers</em> e não sabia bem o limite entre a vontade de se travestir e a homossexualidade. Quando comentei minhas dúvidas com ele, me contou que tinha feito muitas pesquisas a respeito e foi esclarecendo meus pensamentos. Disse que a primeira coisa que passou pela mente dele quando surgiu essa vontade foi: ‘Sou homossexual’. Mas depois entendeu que aquela era apenas uma forma de se expressar, que tinha a ver apenas com as roupas, os sapatos, a maquiagem, os adereços e acessórios — enfim, com caracterização feminina. Também disse que nunca quis ficar com um homem. Ele me contou que não tinha sentido vontade de se montar na vida. E que esse desejo apareceu no nada. Não conseguia encontrar nenhum fato que pudesse ter desencadeado esse sentimento tão forte. Era como se, ao se montar, ele acalmasse uma angústia ou um tormento interno.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante essas conversas, fui percebendo que ele tinha mais dúvidas do que eu. ‘Por que bloqueei isso a vida toda?’, ‘Por que surgiu assim, do nada?’ Esses questionamentos o deprimiam. Ao ver que ele estava mergulhado em pensamentos e que estava sendo sincero comigo, minha insegurança com relação ao rumo da nossa relação foi passando. Comecei a observar mais o comportamento dele e cheguei à conclusão (só minha) de que ele tem uma compulsão. Ele passa dias usando roupas de homem, até que vai ficando inquieto, irritado, e tem de colocar ao menos uma peça feminina, nem que seja um sapato de salto alto. No começo, ele se montava mais. Foi uma explosão: tudo era intenso e proibido. Hoje, ele raramente usa o figurino de mulher completo. Veste algumas peças, uma vez por semana, e quase não usa maquiagem.<img class="alignright size-full wp-image-2607" title="img_hug" src="http://www.leticialanz.org/wrdp/wp-content/uploads/2012/03/img_hug.jpg" alt="" width="264" height="300" /></p>
<p style="text-align: justify;">A primeira vez em que ele se vestiu de mulher para mim, achei engraçado. Ele me avisou que ia se montar para eu ver e foi se trocar. Quando voltou, caí na risada. Ele fez uma produção tosca: colocou uma peruca, uma roupa super-Barbie, cheia de brilhos… Eu digo que, como mulheres, temos gostos absolutamente diferentes. Eu, super-hippie, e ‘ela’, perua, gosta de brilho, salto, maquiagem. Não fiquei chocada porque ele tinha me avisado e, afinal de contas, era meu marido por baixo daquilo tudo. É pela pessoa dele que sou apaixonada: com roupa de homem, de mulher, pelado.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois dessa revelação, nossa vida sexual melhorou. Antes, era uma coisa meio afobada, parecia que ele tinha pressa. Hoje, o sexo é mais tranquilo e carinhoso. Acho que ele não sente mais aquela pressão de ‘ser machão’, de ter a melhor performance do mundo. Mas não posso dizer que convivo superbem com isso. Ele se veste muito melhor quando está de ‘sapo’, como eles chamam quando estão desmontados, e é claro que eu prefiro vê-lo assim. Por mais que eu leia a respeito, me informe, tem horas que não entendo essa vontade. Penso que aquilo não faz o menor sentido. Não sei muito como classificar o <em>crossdressing</em>. Não é algo sexual. Já fizemos sexo com ele ‘montado’ — não foi planejado, ele estava usando uma minissaia e de repente começamos a nos acariciar e, por incrível que pareça, a transa não foi diferente. Aconteceu tudo da mesma forma, não tem um fetiche aí. Já tentei achar explicações na infância, nos traumas. Posso supor qualquer coisa, mas não encontrei nenhum argumento que me satisfaça. Tento mostrar para ele que encaro a situação com leveza, não quero deixá-lo ainda mais confuso ou culpado.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando a gente se conheceu, ele me dava roupas espalhafatosas, sapatos de salto. Eu olhava aquilo e falava: ‘Nunca vou usar’. Hoje, brincamos dizendo que, como não cumpri a fantasia dele de ser ‘Barbie’, ele virou boneca. Já comprei roupas femininas para ele como um agrado e também costumamos fazer compras juntos, mas, como temos gostos realmente diferentes, nunca usamos as roupas um do outro. Ele nunca usou minha lingerie, por exemplo.</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns meses depois, ele me contou que estava trocando e-mails com outros <em>crossdressers</em> e que existiam clubes de encontros entre eles. Tudo era feito sob sigilo. A maioria das mulheres nem imaginava que os maridos se vestiam de mulher. Eles não tinham coragem de contar. Começamos a frequentar alguns encontros pelo país. Ele sempre fez questão de me levar junto. Pouquíssimas mulheres participavam. Íamos para um hotel-fazenda. Lá, os homens andavam montados o dia todo. Cheguei a propor que acontecessem conversas mais profundas, que se abrissem para falar sobre angústias. Ninguém parecia interessado. As poucas mulheres que participavam também não se mostravam abertas para discussões. Fiquei surpresa ao constatar que festas de <em>crossdressers</em> são supercomportadas! Eles ficam quietinhos, conversando, talvez porque não sabem se movimentar muito com aquelas roupas e saltos altos!</p>
<p style="text-align: justify;">Um ano depois da revelação, ele quis contar para nossos filhos adultos, que não moravam mais conosco. Fui contra. Ele disse que eles poderiam ficar sabendo por outras pessoas ou na internet — ele fazia um diário virtual e postava fotos vestido de mulher sob outra identidade. Também disse que não poderia esconder isso, já que sempre teve uma relação com os filhos baseada na verdade. Chamou um por um. Não participei das conversas. A reação foi ótima. Disseram que, se o pai precisava daquilo para ser feliz, eles aceitariam. Não sei se já viram o site do pai, e ele nunca apareceu de mulher para eles. Também contamos aos amigos mais íntimos e ninguém se afastou. Antes de se descobrir, ele trabalhava sozinho, como consultor, então não teve de lidar com colegas.</p>
<p style="text-align: justify;">Minha maior angústia é a vontade de protegê-lo. Não quero que as pessoas riam, apontem nem xinguem. Ninguém sabe como ele é culto, inteligente e divertido. Já saí­mos com ele montado para bares e restaurantes e nada aconteceu, mas fico sempre preocupada. Quando peço para ele não se montar para sair, ele diz que estou sendo tão preconceituosa quanto a sociedade, que ele esperava que eu fosse diferente. Respondo que sou diferente em partes; afinal, também carrego valores da sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando ele está em crise, fazendo aqueles questionamentos todos, me afasto ou fico por perto sem falar nada, só ouvindo e apoiando, mostrando que o amo e estou ao seu lado para o que der e vier. Nós dois fazemos análise com profissionais diferentes, mas é difícil achar alguém que entenda sobre <em>crossdressing </em>de verdade. Os psicólogos levavam sempre para o lado da homossexualidade, que não é o caso. Na minha terapia, esse não é o foco principal, por incrível que pareça. Mas é claro que também falamos disso; afinal, faz parte da minha vida. Ele é superengajado, discute vários assuntos do universo crossdresser no site, tem um público de leitores fiéis, porque pesquisa muito a respeito. A verdade é que estamos aprendendo juntos. Nenhum de nós entende o assunto muito bem, mas nos apoiamos. Hoje, nosso relacionamento é mais profundo do que nunca.”</p>
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