Uma das consequências da Revolução Feminista, iniciada em meados do sec. XX, é o surgimento do conceito de gênero como categoria independente de análise da sociedade. Até então, o gênero estivera atrelado ao determinismo do sexo biológico e da orientação heterossexual compulsória. Isso significava que, se você nascesse macho deveria ser homem, ou seja, pertencer ao gênero masculino, e ter orientação heterossexual, ou seja, interessar-se somente por mulheres na hora de se apaixonar e/ou fazer sexo.
Em razão dessa nova abordagem, uma das primeiras coisas que passaram a ser seriamente questionadas foi a arbitrária divisão binária dos gêneros, que (ainda) obriga todas as pessoas a serem compulsoriamente enquadradas em um e em somente um dos gêneros existentes: masculino ou feminino.
Com o ganho de visibilidade da diversidade de gêneros, as representações populares das identidades transgêneras, até então completamente desconhecidas (e/ou ostensivamente omitidas) do grande público tornaram-se cada vez mais frequentes em novelas, programas de variedades e reality shows.
Mas, apesar dos inegáveis avanços em termos de aceitação da diversidade de gênero, o milenar estigma sobre gêneros fora do binômio masculino-feminino continua vivo e muito atuante na sociedade. A discriminação, a segregação e a intolerância ainda são presenças constantes no dia-a-dia das pessoas transgêneras, tanto nas sua relações interpessoais e grupais (hostilidade nas ruas, incompreensão doméstica, isolamento no trabalho, etc), quanto na legitimação e legalização de seus direitos (tratamento amplamente igual às perante as instituições, legalização do direito da escolha do gênero no ato de emissão de documentos oficiais, exercício pleno da liberdade de expressão assegurada pela constituição, etc).
O travestismo, que se caracteriza principalmente pelo uso de vestuário socialmente reservado para o gênero oposto, constitui o principal veículo de expressão da diversidade de gêneros. Sendo a representação social mais imediatamente visível e identificável das identidades transgêneras, é, por isso mesmo, a mais estigmatizada ou seja, rejeitada, reprimida e condenada pela sociedade.
Como a masculinidade não tem conseguido acompanhar o gigantesco salto qualitativo da mulher na sociedade contemporânea, vive hoje uma profunda crise de identidade, que ainda não foi sequer assimilada nem é admitida pela maioria dos homens. Enquanto a mulher já exerce, com toda naturalidade e desenvoltura, papéis de gênero que até recentemente eram exclusividade masculina, o homem insiste em manter-se trancado dentro de um suposto “território masculino”, cada vez mais restrito e indefinido diante da contínua expansão territorial feminina.
Um exemplo da irrestrita ocupação de antigos territórios masculinos pela mulher é a ampla liberdade de estilos e formas do guarda-roupa feminino contemporâneo, que se apropriou sem reserva ou constrangimento de praticamente todas as peças clássicas do vestuário masculino, inclusive calçados e acessórios. Como conseqüência da total flexibilidade alcançada pelo vestuário feminino, o travestismo está se tornando, cada vez mais, um fenômeno tipicamente masculino. Em outras palavras, ninguém se espanta hoje em dia de ver uma mulher de cabelo curto, cortado a máquina, usando calças, camisas e botas tipo coturno, peças hoje plenamente incorporadas ao seu guarda-roupa mas que já foram verdadeiros símbolos do vestuário masculino. Entretanto, muita gente ficaria perplexa diante de um homem usando saia, meias de seda e sapato de salto-alto!
O travestismo é a manifestação mais visível de expressão das identidades transgêneras, como também continua sendo a mais estigmatizada pela sociedade. Por muitos e diferentes motivos, alguns até conflitantes entre si, e em formatos de apresentação também muito distintos, travestis, crossdressers, transexuais, drag queens, homens afeminados, andróginos e transformistas, praticam o travestismo como forma de expressão das suas identidades transgêneras.
Alguém precisa ter muita coragem e ser muito verdadeiro consigo mesmo para reconhecer que possui uma identidade de gênero transgênera. Essa coragem precisa ser redobrada se a pessoa for homem e sentir o impulso de se travestir como forma de expressar publicamente a sua identidade transgênera.
Tal atitude implica em transgredir e confrontar diretamente o forte aparato sociopolíticocultural do gênero, sobre o qual, em última análise, se apóia toda a arquitetura das relações sociais. Ademais, esse confronto com as instituições – e a consequente ameaça que ele necessariamente representa para a estabilidade do poder vigente – confere ao travestismo masculino um caráter subversivo, que justifica, desencadeia e perpetua o processo de estigmatização do qual ele tem sido vítima milenar.
Em virtude do seu estigma social, o travestismo que, no máximo, poderia ser considerado como um dos muitos e diferentes aspectos da vida da pessoa que se traveste, passa a ser visto pela sociedade como o eixo central de toda a história de vida do indivíduo, como se fosse mesmo o único núcleo definidor da sua identidade social, em detrimento de todos os demais aspectos da sua personalidade. A sociedade rotula e trata a pessoa que se traveste exclusivamente como “travesti”, esquecendo-se que, em primeiríssimo lugar, ela é pessoa e cidadão como todo mundo.
Cada grupo ou segmento de pessoas transgêneras, individual e/ou coletivamente, desenvolve sua própria estratégia para lidar com o estigma do travestismo. As travestis de tempo integral, por exemplo, são capazes de ir até as últimas conseqüências no enfrentamento das convenções sociais. Mesmo com todas as imensas dificuldades em terem seus direitos reconhecidos e respeitados, as travestis insistem na expressão pública da sua identidade de gênero, pouco lhes importando o bullying e seu repertório de violências físicas e morais, a perda do apoio da família, da vaga na escola, da oportunidade de trabalho no mercado formal, enfim do “lugar social” reservado às pessoas “generadas”, “normais” e “decentes”, que se submetem à ordem social-institucional ditada pela heteronormatividade.
Contrariando a visão equivocada e tendenciosa que o estigma social tenta imprimir no pensamento coletivo, o travestismo não se restringe ao mundo das travestis de rua, maciçamente oriundas de camadas de renda mais baixa da população. Está, portanto, longe de ser apenas mais uma das “anomalias sociais” atreladas à pobreza, uma vez que há pessoas que se travestem em todas as camadas de renda da população, de todas as faixas etárias, de todos os ofícios e profissões e em todas as religiões e partidos políticos, mesmo nos que se apressam em negar a existência de pessoas transgêneras nos seus quadros…
A questão é que, enquanto as travestis, muito em virtude da sua origem socioeconômica e/ou por força das suas necessidades de sobrevivência no dia-a-dia, não têm nada a perder e sentem que podem ter tudo a ganhar enfrentando diretamente o estigma para afirmar e manter sua identidade de gênero, os crossdressers, que se originam basicamente de extratos socioeconômicos médios e elevados, pensam que terão muito a perder e nada a ganhar, se adotarem posições de confronto com as normas de conduta da sociedade.
Assim é que, na contramão das travestis de tempo integral, as travestis de tempo parcial e as travestis ocasionais, categorias que hoje se abrigam sob o rótulo mais confortável e menos pejorativo ou comprometedor de “crossdressers”, recusam-se terminantemente a assumir qualquer posição de enfrentamento, aceitando passivamente o que lhes é determinado pelo código de conduta de gênero, sem questionar nenhum aspecto da ordem social heteronormativa. Muito ao contrário, parecem estar permanentemente preocupados em reconhecer e aceitar essa ordem como LEGÍTIMA e DESEJÁVEL, a ela se submetendo sem nenhuma resistência ou oposição.
Reduto de práticas conservadoristas e com enorme resistência às mudanças, a classe média submete seus membros homens a pesadas cargas de repressão, exigindo que eles se enquadrem e se mantenham fiéis às normas de conduta do.gênero masculino. Isso faz com que as pessoas transgêneras de classe média/média alta, mais particularmente os crossdressers, se sintam na terrível obrigação de manter uma fachada de respeitáveis cidadãos de classe média, sem jamais deixar transparecer nenhum vestígio da sua travestilidade. A maioria acredita ser radicalmente necessário reprimir e esconder de todas as formas e de todas as pessoas, qualquer expressão da sua identidade transgênera. Imaginam que a descoberta ou a revelação do seu travestismo além de privá-los dos seus próprios ganhos de subsistência, comprometeria de modo irreparável e irreversível a sua própria reputação pessoal de macho ilibado. …Sem falar no quiproquó que estaria criado entre familiares, colegas de trabalho, amigos e inimigos caso viesse à tona esse aspecto da sua personalidade.
Estamos, assim, diante de duas atitudes exatamente opostas: – enquanto as travestis, por força das necessidades que precisam atender para garantir a sua própria sobrevivência enfrentam diretamente o estigma social, os crossdressers, pelo pavor antecipado de se tornarem vítimas desse mesmo estigma, desenvolvem e se tornam vítimas de um processo de “auto-estigmatização”, que os leva impiedosamente a reprimir e recalcar a expressão da sua identidade de gênero no dia-a-dia. Ou seja, o mesmo estigma que se transforma em desafio de superação, provendo estímulos e empoderando as travestis, paralisa e corrói a auto-estima dos crossdressers, levando-os a se reprimirem e recalcarem o seu desejo em nome da manutenção dos privilégios de gênero e de classe socioeconômica.
A diferença entre estigma e auto-estigma é que enquanto a força repressora do primeiro atua de fora para dentro, através da ação direta de agentes sociais externos, o segundo atua de dentro para fora, através do medo, da fraqueza de caráter e da sensação de impotência criada e mantida pelo permanente processo de auto-julgamento, auto-condenação e auto-flagelação que a maioria dos crossdressers se impõe. O auto-estigma confirma o seu demérito e antecipa o seu fracasso pessoal, reafirmando o tempo inteiro, a partir de dentro deles mesmos, o quão dolorosa poderá ser sua experiência direta com o estigma social.
O auto-estigma é como uma voz repetindo o tempo todo, dentro da cabeça do crossdresser, a vergonha e a culpa que ele deve sentir – não exatamente por ter “quebrado” algumas “regras sagradas” da conduta de gênero, já que a maioria nunca foi capaz sequer de dar a mínima vazão ao seu desejo de se travestir – mas pelo simples fato de estar tendo o claro desejo e a intenção de “ vir a quebrar” essas mesmas regras.





Armário: refúgio ou armadilha?

