Muitos dos termos, ideias, conceitos e expressões que apresento neste “Dicionário Transgênero” estão ainda em fase embrionária de utilização, sendo objeto de controvérsias entre os especialistas ou resultado de pesquisas, descobertas ou interpretações recentes. Contudo, o meu principal propósito aqui não é de fazer um rigoroso trabalho acadêmico de ordenação conceitual, mas de tornar acessível ao grande público um universo que tem existido à margem da sociedade, submerso num oceano de estigma, preconceito e desinformação.
Letícia Lanz, 30 de agosto de 2011.

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Androfilia.Termo criado por Magnus Hirschfeld, no início do século XX, para designar a atração sexual e/ou romântica que indivíduos – fêmeas ou machos – sentem por machos adultos. O termo ginofilia é usado para designar a atração sexual e/ou romântica que indivíduos – machos ou fêmeas – sentem por fêmeas adultas (veja orientação sexual).

Androginia Mística (ou Alquímica). O andrógino sempre foi uma presença constante no ocultismo e em textos místicos e alquímicos. A maior parte dos mitos e histórias relacionadas à androginia referem-se a uma raça de andróginos que teriam habitado o planeta em tempos imemoriais. Esse mito foi até mesmo citado por Platão em O Banquete. Na mitologia grega, os seres andróginos eram geralmente caracterizado por possuir elementos do Sol(masculino) e da Lua (feminina) em um corpo e alma entrelaçados. Os alquimistas acreditavam que os seres andróginos eram divinos e detinham a capacidade de afastar o mal. Eram freqüentemente mostrados derrotando serpentes, dragões e até mesmo o demônio. Certas tradições ocultas referem-se a Adão como sendo um ser andrógino, cuja “queda da graça” teria sido marcada exatamente pela sua divisão em sexos separados. A Redenção ocorre quando a dualidade de sexos é transcendida e macho e fêmea são novamente reunidos num todo pleno e harmonioso. No ocultismo, o orgasmo simboliza o andrógino místico, que momentaneamente reúne almas separadas e traz os participantes de volta para mais perto do “Absoluto”. A androginia tornou-se um tema muito popular em textos alquímicos após a publicação do poema Sol e Lua no Rosarium Philosophorum, em 1550, um dos primeiros livros contendo imagens alquímicas. Outro fator de popularidade da androginia como tema recorrente entre os alquimistas deve-se ao fato de que Hermes (o deus grego da viagem e do submundo) tinha um filho hermafrodita.

Andrógino ou bigênero (do grego andros=homem e gino=mulher). Indivíduo que apresenta, simultaneamente, características e comportamentos de homem e de mulher, obscurecendo ou eliminando, por assim dizer, a rígida divisão social existente entre o gênero masculino e o gênero feminino. A imprecisão do andrógino. Pode ser considerada uma condição psíquica em que o indivíduo não se identifica nem como homem nem como mulher, mas como os dois, como uma espécie de gênero híbrido entre os dois ou como nenhum dos dois. Para ressaltar sua “dualidade psíquica”, o andrógino pode adotar corte de cabelo, penteado e modos inteiramente dúbios, usando vestuário e adereços femininos, no caso de homens, ou masculinos, no caso de mulheres. Isso torna muito difícil definir a que gênero pertence uma pessoa andrógina apenas por sua aparência. Paralelamente a isso, muitos andróginos podem apresentar também traços e características físicas do sexo oposto ao seu, o que acentua ainda mais a sua androginia. Não devem, contudo, serem confundidos com indivíduos hermafroditas, que são aqueles que nascem com os dois órgãos genitais (pênis e vagina). Como acontece com todo o segmento transgênero, também os andróginos são considerados como homossexuais (ou bissexuais) pela maioria das pessoas, o que não é verdade. A androginia (como o travestismo ou o crossdressing) é uma expressão de gênero, nada tendo a ver com orientação sexual (ou identidade de sexo). Pessoas andróginas (assim como travestis, crossdressers ou drag-queens) podem ter orientação homossexual, heterossexual, bissexual ou assexual. O andrógino sempre foi considerado uma figura sagrada em diversas culturas ancestrais, como os berdaches, entre os nativos da américa do norte e central e os bissu, do Sulawesi. A representação andrógina de Shiva – o Shiva Ardanarishvara – é uma das entidades mais fortes e cultuadas dentro da mitologia hindu. 

Armário (Inglês: closet). Em analogia ao local físico onde se guarda roupas e calçados, o termo refere-se ao “estado de ocultação e resguardo”, extremamente penoso e desconfortável, em que pessoas transgêneras permanecem até assumirem sua condição para um número maior de pessoas. Em virtude da forte repulsa social a homens que se travestem, pode-se supor que a maioria absoluta dos transgêneros M2F passarão a vida inteira “trancados” em seus armários, vivendo num clima de grande sofrimento e ansiedade.

Armarizado (Inglês: closeted; neologismo armarizar, significando estar ou permanecer no armário). Diz-se da pessoa transgênera que permanece no armário.

Assexual. Diz-se da pessoa sexualmente inativa, que não sente atração sexual por ninguém, nem do sexo oposto nem do próprio sexo, sendo portanto completamente desinteressada de participar de qualquer tipo de atividade sexual. Pessoa totalmente indiferente a sexo, que não tem atração física ou romântica nem por machos nem por fêmeas.

Autoginefilia(ou autoginecofilia). O termo autoginecofilia, que significa literalmente “amor (atração) a si mesmo como fêmea”, foi criado pelo Dr. Ray Blanchard, na época psicólogo clínico do Clarke Institute of Psychiatry, em Toronto, Canadá, com o objetivo, segundo ele, de aprimorar os critérios de classificação das pessoas transgêneras. Partindo do fator “excitação sexual”, Blanchard dividiu a população transgênera em dois grupos aos quais denominou, respectivamente, de autoginecofílico (ou autoginefílico) e androfílico (veja androfilia e orientação sexual).
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Bicha. Designação genérica de caráter ofensivo que é dada depreciativamente a qualquer indivíduo que não se comporta estritamente de acordo com os rígidos padrões de conduta do gênero masculino. Um indivíduo pode ser chamado de “bicha” pelo simples fato de estar usando uma roupa diferente ou apaixonar-se por uma mulher de maneira romântica. Coisa de bicha: diz-se de qualquer atitude, indumentária ou procedimento que a sociedade machista (incluindo uma grande maioria de mulheres conservadoras) considera “fora” dos vetustos padrões de conduta que ainda vigoram para o gênero masculino.
Nota: no meio LGBT, o termo “bicha” é comumente usado de maneira carinhosa entre pessoas com as quais se tem maior intimidade.

Bigênero  O mesmo que andrógino.

Bissexual
(ou simplesmente “bi”).
Diz-se da pessoa que tem atração sexual tanto por indivíduos do mesmo sexo quanto pelos do sexo oposto. Pessoa que tem atração física e/ou romântica tanto por machos quanto por fêmeas, indistintamente.

Boiola
. Designação pejorativa, de natureza depreciativa e homofóbica, dada a homossexuais do sexo masculino e, por extensão, a qualquer indivíduo que se comporte de maneira a levantar “suspeita” sobre a sua conduta na população que se considera hetero/cisgênera.
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Chauvinismo Masculino. Veja Machismo.

Cisgênero (CG). Diz-se do indivíduo cuja identidade de gênero está de acordo com os dispositivos do gênero que lhe foi atribuído ao nascer. Indivíduos cisgêneros podem apresentar diferentes orientações sexuais, ao contrário da crença bastante generalizada de que todo indivíduo cisgênero é, necessariamente, heterossexual.

Cirurgia de Reaparelhamento (ou redesignação) Sexual (CRS). A única “cura” conhecida para os casos crônicos de GID. Trata-se da intervenção cirúrgica, vulgarmente conhecida como “operação para mudança de sexo”, mediante a qual se busca retificar o sexo de nascimento de uma pessoa transexual de modo a fazê-lo concordar com a sua identidade sexual. Existem duas categorias de cirurgias de redesignação sexual:
a) cirurgias de reconstrução genital – que se referem especificamente ao aparelho genital (por excelência são a vaginoplastia e a faloplastia); b) cirurgias feminilizantes ou masculinizantes – que se referem à adequação de características sexuais secundárias (como a mamoplastia ou a cirurgias faciais).

Complexo de feminilidade. A psicanalista Melanie Klein descobriu, em suas pesquisas com crianças que, na vida infantil do menino, existe uma fase equivalente à fase do “pênis” na menina. As meninas acreditam ter outrora possuído um falo, idêntico ao que os meninos têm, mas que, em conseqüência de alguma maldade cometida por elas, o falo Ihes foi retirado. A criança do sexo masculino desenvolve o mesmo medo de frustração (fantasia de castração), a que Klein chamou de complexo de feminilidade. Em essência, é o complexo de inferioridade, de Adler. O menino pensa que a mãe é a castradora. Para salvar seu falo do destino sofrido pelas meninas, ele se identifica com a mãe e deseja uma vagina e seios. Existe, pois, “inveja da vagina” nos meninos, tal como existe “inveja do pênis” nas meninas. Ao mesmo tempo, há por parte da menina o temor em face do papel feminino que a castração acarretaria. Esse temor pode manifestar-se como o seu oposto, a agressão. Uma tendência para a agressividade excessiva, que ocorre com muita freqüência, tem sua fonte no complexo de feminilidade. (Referência: Klein, M., The Psycho-Analysis of Children, 1932)

Crossdresser (CD)
(inglês: crossdresser). A rigor, a maioria dos sub-grupos que compõem o grupo transgênero poderia ser considerada como formas particulares de “crossdresser”. Contudo, o crossdresser típico é um caso muito especial de transgeneridade, caracterizado em primeiro lugar pela preocupação dos crossdressers em não se mostrarem publicamente e, em segundo, pelo caráter nitidamente sexual das suas atividades e pela vergonha e culpa que carregam nos seus atos. Se o crossdresser não surgiu com a internet, foi nela que ganhou o fôlego que possui hoje em dia, com centenas de milhares de homens exibindo corpos peludos, sem nunca mostrarem o rosto, em roupas íntimas “emblemáticas” da mulher (calcinha, soutien, meias de seda, babydoll) com o objetivo explícito de obter satisfação sexual. Ao lado desses crossdressers que inundam a internet com suas fotos em calcinhas e soutiens, existe um outro grupo de também denominados “crossdressers” cujo desejo declarado é apenas vestir e comportar-se segundo padrões o mais próximo possível de uma imagem altamente idealizada da mulher. Por se tratarem, em sua maioria, de pessoas oriundas da classe média/média alta (ao contrário das travestis, cuja origem, aqui no Brasil, se situa bem na base da pirâmide, tanto um quanto o outro tipo de crossdressers buscam manter sua atividade debaixo do mais estreito sigilo, tendo um medo mórbido de serem descobertos e com isso prejudicarem sua reputação. Isso explica, em parte, o elevado (e paradoxal) alto grau de homofobia existente no meio crossdresser. Aliás, a maioria dos CDs se declaram machos heterossexuais e, no máximo, bissexuais, fazendo questão se sublinhar que praticamente inexistem indivíduos homossexuais entre eles. Embora não haja estatísticas precisas, os crossdressers devem ser, de longe, o sub-grupo mais populoso do universo transgênero.

Crossdressing (travestismo masculino). Prática que consiste essencialmente em vestir ou usar roupas, calçados e demais peças e adereços próprios do vestuário socialmente reservado a pessoas do gênero feminino. Nota importante: devido à enorme liberdade contemporânea do vestuário feminino, deixou de ser usual o termo crossdressing feminino (para não dizer “tornou-se supérfluo). Como a mulher já “veste o que quer, como quer e quando quer”, fazendo uso regular hoje em dia de peças antigamente exclusivas do vestuário masculino, não faz o menor sentido sentido dizer que, em algum momento, ela esteja se travestindo, mesmo que a intenção da pessoa seja essa. >> veja travestismo

Cosplay. Forma abreviada de costume play ou ainda costume roleplay e que consiste na representação de um personagem, vestido a caráter. Por decorrência, os participantes (ou jogadores) são conhecidos como cosplayers. Originalmente conhecido como masquerade, o cosplay não foi criado no Japão e sim nos Estados Unidos, na década de 1930. Entretanto, foi no Japão, a partir de meados dos anos noventa, que o cosplay tornou-se uma atividade extremamente popular.

Crossplay. Tipo de cosplay (vide acima) em que os participantes se vestem e se caracterizam como personagens do sexo oposto. Os crossplayers, que são cada vez mais comuns em convenções, não se consideram como pessoas transgêneras.

Chuca(fazer a chuca). Nome popular do procedimento conhecido como “enema” e que consiste na lavagem do reto, simplesmente para limpeza e descongestionamento ou antes do sexo anal, para evitar suspresas desagradáveis. Existem kits apropriados que são vendidos em farmácia, mas maioria usa simplesmente o “chuveirinho”. Se optar por este último, cuidado para manter a água numa temperatura morna (nem quente, nem fria) e o jato d’água não muito forte.
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Desarmarizar(Inglês: coming out). Assumir publicamente a condição de pessoa transgênera; sair do armário.

Dimorfismo Sexual. Quando há diferenças muito acentuadas entre machos e fêmeas da mesma espécie dizemos que existe “dimorfismo sexual”. As diferenças podem ser tão notáveis que exemplares de sexo diferente dentro da mesma espécie já foram classificados como pertencendo a espécies diferentes. O dimorfismo sexual tanto se verifica em espécies animais como em espécies vegetais, estando relacionado com estratégias de reprodução ou sendo apenas funcionais, de caráter não-competitivo. Exemplos de dimorfismo sexual podem ser observados em leões (cujo macho possui uma juba, ausente nas fêmeas), mandris (cujo macho possui a face intensamente colorida e pelagem negra, enquanto a fêmea é completamente castanha), certas espécies de cervo (cujos machos adultos possuem galhadas mais ou menos desenvolvidas, ausentes nas fêmeas), aranhas (cujo macho é normalmente muitas vezes menor que a fêmea), e muitas espécies de aves. Não se costuma dizer que exista dimorfismo sexual na espécie humana, pois as diferenças morfológicas entre machos e fêmeas estão ligadas à presença de glândulas mamárias e quadris largos na mulher, próprios para a reprodução, além de outras marcas menores deixadas pela diferença hormonal entre homens e mulheres. Entretanto, sob efeito desses hormônios, caracteres masculinos podem manifestar-se numa mulher e vice-versa, evidenciando a expressão genética para estas características ditas “diferenciais” presente em ambos.

Disfunção Erétil (antiga Impotência Sexual). A Disfunção Erétil, antes conhecida por impotência, é a incapacidade de se obter ou manter uma ereção adequada para a prática da relação sexual. Não deve ser confundida com a falta ou diminuição no “apetite sexual”, nem como dificuldade em ejacular ou em atingir o orgasmo. A Impotência Sexual não pode ser encontrada nas classificações internacionais de doenças com este nome genérico. Na realidade o DSM.IV aborda o problema subdividindo o tema em vários tópicos. Fala-se em Transtornos do Desejo Sexual, Transtorno da Excitação Sexual, Transtornos do Orgasmo e Transtornos de Dor Sexual.

Distúrbio de Identidade de Gênero (GID – Gender Identity Disorder). Veja transtorno de identidade de gênero.

Drag Queen (DQ). No universo transgênero, as drag queens destacam-se pela maneira “over” (exagerada) com que representam” o gênero feminino, mostrando em público uma figura de mulher muito mais “caricatural” do que propriamente “feminina”. É nesse aspecto da produção visual que as drag queens mais se distinguem do grupo de crossdressers que, ao contrário delas, buscam encarnar um modelo de “feminilidade altamente idealizada”, ou do grupo das travestis, que representam uma feminilidade altamente “erotizada”. As drag queens têm sido figuras emblemáticas do movimento gay desde os seus primórdios. Sua participação foi crucial para o desencadeamento da rebelião LGBT em Stonewall (NYork, junho de 1969), o primeiro movimento de afirmação da diversidade sexual ocorrido no mundo.  Com orientação sexual predominantemente homossexual (ao contrário das crossdressers e das travestis), as drag queens caracteristicamente se travestem somente para a realização de shows e apresentações em boates e bares GLSTB, onde também atuam geralmente como recepcionistas. De uns tempos para cá, passaram a ser muito requisitadas para animar e abrilhantar eventos públicos como encontros empresariais, formaturas e festas em geral. Algumas drag queens realizam cirurgias de feminização facial ou colocam implantes de seios, mas o seu objetivo principal, nesse caso, é o de melhorar as suas performances nos shows de que participam e não de se tornarem mais femininas.

DSM-IV. Sigla pela qual é conhecida o Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) publicado pela APA-American Psychiatric Association, e que é a referência mundial para o diagnóstico de disordens psiquiátricas e psíquicas.
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Eonismo. O mesmo que travestismo ou crossdressing. O nome surgiu em razão do nobre francês Charles de Beaumont, Cavaleiro de Éon (1728-1810), famoso embaixador e espião francês durante o reinado de Luís XV, cujas práticas de travestismo o consagraram em sua época. Dizem que o Chevalier d’Eon apostou certa vez com seus amigos que poderia enganar o próprio rei, passando-se por mulher, no que obteve pleno sucesso. O próprio Louis XV deixou-se enganar por sua montagem perfeita. A The Beaumont Society, entidade internacionacionalmente conhecida que congrega pessoas transgêneras do Reino Unido, e uma das mais antigas existentes no mundo, tem seu nome em homenagem a Charles de Beaumont.

Efeminar (afeminar)Adquirir, particularmente estando na condição de macho biológico, formas (inclusive físicas), modos, gostos, atitudes e/ou comportamentos próprios ou semelhantes ao que é socialmente considerado como feminino.

Efeminado (afeminado). Diz-se do macho biológico que apresenta atitudes e comportamentos próprios ou assemelhados aos padrões de feminilidade estabelecidos pela sociedade.

Efeminofobia (veja transfobia). Pavor de contato e repulsa a indivíduos afeminados e a processos sociais que traduzem algum tipo de feminização, de indivíduos e/ou da sociedade. O sujeito efeminofóbico pode facilmente converter seu repúdio em violência física e/ou moral contra esses indivíduos, processos e/ou instituições que na percepção dele estejam agindo, apresentando traços de feminilidade crescente e/ou funcionando de maneira “feminizante”.

En femme. Diz-se de um crossdresser quando este se encontra montado, isto é, produzido com trajes femininos.  Exemplo: todas irão en femme ao encontro.

Eviracionista
. Assim era designado, no século XIX, o homem que por suas atitudes e comportamentos estaria, aos olhos da sociedade, “abrindo mão” da sua masculinidade.
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Fêmea (fêmea genética; inglês: female). O membro dotado de vagina e capacidade de gestação, dentro das espécies sexuadas. Na espécie humana, constatada a existência de uma vagina, e independentemente de qualquer outro fator, o bebê é automaticamente enquadrado no gênero (sexo social) feminino. Entretanto ser fêmea, isto é, ter uma vagina, não assegura de maneira nenhuma que a pessoa está automaticamente habilitada a desempenhar papéis sociais dito femininos. Um longo treinamento psicossocial é requerido para que isso aconteça (ninguém nasce mulher: aprende a ser – Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo). Um macho pode se sentir mais confortável e sair melhor do que uma fêmea no desempenho de papéis sociais considerados femininos. O problema é que a sociedade não dá legitimidade a esse “deslocamento de papéis”, surgindo daí a maioria dos conflitos de aceitação sóciocultural da transgeneridade.

Feminilidade. Conjunto dos normas, papéis e estereótipos sócio-político-culturais relacionados com a figura idealizada da mulher e seu desempenho na sociedade. A definição da feminilidade baseia-se tanto em características genitais primárias e secundárias próprias da fêmea (como seios e vagina) quanto em papéis, atributos, atitudes e comportamentos fixados pela sociedade como próprios da mulher. Embora varie substancialmente de sociedade para sociedade e de época para época, a feminilidade guarda alguns elementos básicos comuns a todas as culturas, como a doçura, meiguice, ternura, sensibilidade e capacidade de atenção e cuidado ao próximo, milenarmente considerados como características próprias da mulher. Na realidade, porém, essas características são muito mais idealizadas (como é, afinal, todo o conjunto da feminilidade) do que inerentes à condição da fêmea da nossa espécie.

Feminismo. O feminismo é basicamente um movimento social, político e filosófico que tem como meta libertar a mulher de padrões opressores baseados em normas de gênero que ao longo da história determinaram e fixaram a supremacia do homem. A partir do seu surgimento, no final do século XIX, o feminismo alterou profundamente as perspectivas predominantes em diversas áreas da sociedade ocidental, que vão da cultura ao direito. As ativistas femininas fizeram campanhas pelos direitos legais das mulheres (direitos de contrato, direitos de propriedade, direitos ao voto), pelo direito da mulher à sua autonomia e à integridade de seu corpo, pelos direitos ao aborto e pelos direitos reprodutivos (incluindo o acesso à contracepção e a cuidados pré-natais de qualidade), pela proteção de mulheres e garotas contra a violência doméstica, o assédio sexual e o estupro, pelos direitos trabalhistas, incluindo a licença-maternidade e salários iguais, e todas as outras formas de discriminação.
Desde a década de 1980, as feministas argumentaram que o feminismo deveria examinar como a experiência da mulher com a desigualdade e a opressão se relaciona ao racismo, à homofobia, ao sexismo e à colonização. No fim da década e início da década seguinte as feministas ditas pós-modernas argumentaram que os papéis sociais de gênero seriam construídos socialmente, constituindo essa proposição a matriz da chamada Queer Theory.

Feminização (inglês: feminization, sissification). Transformação voluntária (ou induzida) de um macho em uma fêmea através da apropriação e/ou desenvolvimento, pelo macho, de atributos físicos da fêmea, mediante hormonização ou cirurgias, junto com o desenvolvimento de atitudes e comportamentos socialmente estabelecidos como sendo próprios da mulher. A mudança poderá ser física, comportamental ou ambas. Pode acontecer de forma parcial ou integral, ter caráter temporário ou acontecer em definitivo, empregar recursos superficiais (como vestuário e maquiagem) ou recursos estruturais, como hormônios e cirurgias. Hoje em dia, com toda a tecnologia existente, é incrível o que alguém pode fazer para parecer e sentir-se como uma mulher.

Feminizar (inglês: sissify). Diz-se da apropriação e/ou desenvolvimento, pelo homem, de características, atributos, atitudes e comportamentos estabelecidos pela sociedade como próprios da mulher. A feminização pode acontecer de forma parcial ou integral, ter caráter temporário ou ser em definitivo, mediante o emprego de recursos superficiais (como vestuário e maquiagem) ou com de hormônios e cirurgias.

Fetichismo. Fetichismo é o culto erótico a objetos inanimados (calçados, calcinhas, meias de nylon, etc) ou apenas para determinadas partes do corpo de outra pessoa (mãos, pés, nádegas, mamas, etc) com o objetivo de obter satisfação sexual. O fetiche é o elemento necessário e suficiente para a excitação sexual do Fetichista. No DSM-IV (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders publicado pela APA-American Psychiatric Association), o fetichismo é classificado no grupo dos distúrbios sexuais conhecidos como parafilias.

Fetichismo transvéstico. O Travestismo Fetichista (CID 10 – F65.1) ou Fetichismo Transvéstico (DSM-IV) é considerado um transtorno de orientação sexual e está classificado no grupo das chamadas “parafilias” – ou formas de expressão sexual desviadas (ou perversas). Numa parafilia, o protagonista não dirige o seu impulso sexual para pessoas, mas para objetos, podendo inclusive para isso “converter” partes isoladas do próprio corpo e/ou do corpo do(s) parceiro(s) em fetiches sexuais. O fetichista transvéstico se veste com roupas do sexo oposto unicamente satisfazer seus desejos eróticos e impulsos sexuais. Via de regra, aceita e se identifica sem maiores problemas com seu sexo de nascimento. Muitos “crossdressers” que povoam hoje a internet devem ser considerados fetichistas transvésticos, uma vez que se mostram na rede em fotos com calcinhas e soutiens tendo em vista tão somente a realização de impulsos sexuais.

FtM (ou F2M). No processo de transexualização, diz-se da fêmea (F) em transição para a condição de macho (M). (inglês: female to male).
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Genderbender. Termo usado para designar a pessoa que ostensivamente transgride os papéis de gênero esperados. Algumas vezes o “gender bending” tem sido praticado como uma forma de ativismo social para denunciar a ditadura do gênero que obriga as pessoas a se manterem numa espécie de camisa de força sócio-política-cultural. Os “gender-benders” geralmente se identificam como pessoas transgêneras.

Genderfuck. Geralmente associado a um ativismo político radical em defesa da livre manifestação da transgeneridade, o genderfuck pode ser considerado como uma anti-forma de expressão de identidade de gênero. O genderfuck é uma tentativa intencional de um indivíduo expressar gênero de uma maneira completamente adulterada, subversiva e confusa em relação aos padrões e modelos tradicionais de expressão de gênero aceitos pela sociedade. Em vez do genderfucker identificar claramente a que gênero pertence (masculino ou feminino) através da roupa ou de características sexuais secundárias, ele estimula uma desconstrução radical da percepção do jogo binário de gêneros, procurando mostrar uma aparência física e/ou um modo de vestir que ostensivamente coloque em xeque os códigos de gênero vigentes. Valendo-se do deboche, da confusão proposital de peças de vestuário e até mesmo do exagero ao se vestir como, por exemplo, peitos e barba ou sandálias de salto com unhas pintadas e terno, os genderfuckers tentam propositalmente transgredir papéis e códigos tradicionais de gênero, denunciando dessa maneira a opressão que esses códigos exercem sobre as pessoas em geral.

Genderfucker. (veja genderfuck)

Gender queer. Refere-se às pessoas que rejeitam ou que não se enquadram no sistema binário de gêneros. Alguns indivíduos gender queer adotam identidades e visual andrógino. Outros assumem o rótulo gender queer como uma referência política. O termo gender queer é mais frequentemente usado por pessoas jovens já que, para os mais velhos, a palavra queer tem uma conotação francamente negativa e depreciativa da condição do indivíduo na sociedade. 

Gênero (sexo social). O conjunto dos papéis, oportunidades e atributos políticos, econômicos e psicossociais que dividem os indivíduos em homens e mulheres ou masculino e feminino, em função exclusiva de serem machos ou fêmeas do ponto de vista biológico. Na maioria das sociedades, os indivíduos são classificados no gênero masculino ou no gênero feminino na hora do seu nascimento ou até antes disso, ainda no útero da mãe, em função do órgão genital que trazem entre as pernas. Gênero não é resultado de determinantes biológicos que levariam machos e fêmeas a agir socialmente de maneira altamente específica e diferenciada, como advoga a chamada corrente determinista. Ao contrário, Gênero é uma construção cultural, social e politicamente formulada em “códigos de conduta” altamente diferenciados para machos e fêmeas, onde são especificados todos os papéis, comportamentos, valores e atitudes esperados dos homens e das mulheres de uma dada sociedade, em uma determinada época e local. Essa visão de gênero é advogada pela chamada corrente pós-estruturalista, através da Queer Theory, onde se denuncia o caráter totalmente artificial e “performático” do gênero. Na teia simbólica da sociedade, matriz de todas as significações e valores, o gênero é o traço mais visível do individuo, muitíssimo mais visível do que o seu sexo biológico, no qual supostamente se baseia. O gênero torna-se a marca do indivíduo, a fronteira, o limite que, de todas as formas o identifica e o distingue de outros indivíduos no plano social. Como primeiro e mais fundamental agente ordenador das relações sociais, políticas e econômicas entre os indivíduos, o gênero nasceu para suprir a falta de marcos e referências providas de modo espontâneo pela natureza, capazes de atender à dinâmica existencial da nossa espécie. Surgiu para suprir as lacunas deixadas pela subjugação do instinto à vontade soberana da vida em sociedade que fez com que esse mesmo instinto, que garante a sobrevivência das demais espécies deixasse de oferecer respostas satisfatórias à sobrevivência da espécie humana. O gênero é moldado pelo contexto social e cultural em que o indivíduo se insere. Gênero não pertence ao campo do biológico, mas ao campo do simbólico. Quando se trata do animal humano, é difícil destacar algum componente da vida social que não pertença ao campo do simbólico: – o homem é basicamente os seus símbolos. O gênero existe, na totalidade dos elementos que o compõem e com a força coercitiva que possui, graças à inscrição do sexo biológico no campo do simbólico, O gênero é uma adaptação social do sexo biológico, resultante da inscrição deste no campo do simbólico, mediante o estabelecimento de convenções, códigos de conduta e comportamentos arbitrários respectivamente para indivíduos machos e indivíduos fêmeas. 

 

GG (genetic girl ou mulher genética).Termo utilizado para distinguir e referenciar mulheres não-genéticas, a quelas mulheres que nas se tornaram mulheres a partir de processos de feminização, das mulheres genéticas, ou seja, mulheres que nasceram com vagina.

Ginofilia. O termo ginofilia é usado para designar a atração sexual e/ou romântica que indivíduos – machos ou fêmeas – sentem por fêmeas adultas. (veja androfilia, orientação sexual).
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Heteronormatividade. Conjunto de normas e processos legais e institucionais que conferem à heterossexualidade o status e o monopólio da normalidade, gerando e estimulando o estigma, o menosprezo, a exclusão e a violência contra todos os indivíduos que se comportem de maneira divergente ou diferenciada desses princípios. A heteronormatividade constitui a base conceitual e ideológica de todos os processos de relacionamento humano numa sociedade como a nossa, onde o comportamento heterossexual é compulsoriamente cobrado de todos os indivíduos por ser considerado “biologicamente natural”.

Heterossexual. Diz-se do indivíduo que sente atração física e/ou romântica por pessoas do sexo oposto ao seu. Machos heterossexuais têm atração por fêmeas heterossexuais e vice-versa.

Homofobia. Ódio, aversão, repúdio ou medo de contato com pessoas de orientação homossexual (gays e lésbicas). Por extensão, a homofobia é a intolerância, preconceito e perseguição de pessoas que não se enquadram nos códigos de conduta de gênero, politicamente estabelecidos, pelo poder masculino, para serem rigidamente seguidos por homens e mulheres, respectivamente. O indivíduo homofóbico frequentemente pratica atos de violência física e/ou moral contra gays, lésbicas e quem mais que, ao seu critério, transgrida, ou mesmo “lhe pareça” transgredir, os dispositivos de gênero em vigor.

Homossexual. Diz-se do indivíduo que sente atração física e/ou romântica por pessoas do seu mesmo sexo. Machos homossexuais têm atração por outros machos assim como fêmeas homossexuais têm atração por outras fêmeas. Machos homossexuais são conhecidos como “gays” e fêmeas homossexuais como “lésbicas”.

Hormônios sexuais. São substâncias responsáveis pelas características sexuais secundárias, que aparecem nos indivíduos humanos a partir da puberdade. O hormônio chamado testosterona confere aos indivíduos traços como barba no rosto, massa muscular e alopecia (calvície) ou seja, características essencialmente masculinas. O hormônio chamado estrógeno confere aos indivíduos traços como peitos, pele macia, cabeleira abundante ou seja, características essencialmente femininas. A fêmea apresenta ainda o hormônio progesterona responsável, dentre outras coisas, pela lactação na mulher.

HQEH (iniciais de Homem Que É Homem). Machão “de carteirinha”. Sigla criada pelo escritor Luiz Fernando Veríssimo para designar a figura do “homem machista militante” que cospe no chão, coça o saco e se orgulha de só usar sabão em barra para tomar banho, pois o resto é coisa de boiola“…
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Identidade de gênero (inglês: gender identity). Feminilidade e masculinidade ou identidade de gênero refere-se ao quão “femininas” ou “masculinas”  as pessoas se veem a si próprias, tendo em vista o que significa ser um homem ou uma mulher numa dada sociedade e época. Essa identificação costuma vir muito cedo na vida do indivíduo, como também pode aparecer muitas vezes em idade avançada. Contudo, tem-se por certo que uma identidade de gênero (básica) de um indivíduo se forma entre os 3 e 5 anos de idade e tende a permanecer a mesma pela vida afora. Indivíduos transgêneros, no entanto, são obrigados a reprimir a sua identidade de gênero, por ela não corresponder ao seu sexo biológico. Embora a autopercepção da identidade de gênero dependa do equipamento biológico de cada pessoa, feminilidade e masculinidade não podem ser consideradas como determinações biológicas por serem atributos estabelecidos no código de conduta de gênero de cada sociedade e época. Ou seja, é a sociedade quem decide o que significa ser homem e ser mulher (por exemplo: homem veste calça, é forte, bravo, ativo e racional;  mulher veste saia – ôops… – é meiga, dócil, passiva e emocional) agindo de maneira decisiva, através da educação (sugestão-condicionamento e repressão) para que os machos biológicos se identifiquem como homens, desenvolvendo os padrões de masculinidade desejados pela sociedade, assim como as fêmeas biológicas se identifiquem como mulheres, desenvolvendo os padrões de feminilidade. Entretanto, por se tratarem de definições socialmente estabelecidas (e não de inexoráveis determinismos genéticos), pode acontecer (e acontece) de uma fêmea reconhecer-se a si própria como masculina ou um macho reconhecer-se a si próprio como feminino.

É importante distinguir identidade de gênero de outras conceituações também relacionadas ao gênero, como papéis de gênero, que são expectativas socialmente compartilhadas a respeito do desempenho ou comportamento que devem ter homens e mulheres numa dada sociedade, em função da sua condição de machos e fêmeas. Por exemplo, papeis de gênero estão relacionados com a (antiga) destinação social da mulher para o trabalho doméstico e do homem para o trabalho na produção industrial. O conceito de identidade de gênero é também distinto dos estereótipos de gênero, que são a visão social compartilhada de certos atributos e atitudes associados a cada um dos gêneros, como a força e racionalidade nos homens e a ternura e sensibilidade nas mulheres.

Identidade de Sexo. Consciência, própria de cada pessoa, de pertencimento a um dos dois sexos (macho ou fêmea). Nota importante: Uma pessoa com distúrbio de identidade de sexo apresenta, necessariamente, um distúrbio de identidade de gênero. Contudo, uma pessoa portadora de distúrbio de identidade de gênero não apresenta, necessariamente, um distúrbio de identidade de sexo.

Indie. Forma abreviada da palavra “independente”. Refere-se a produtos e serviços produzidos por pessoas físicas e/ou pequenas empresas, fora dos grandes circuitos comerciais e sem a participação de grandes corporações. Exemplo: o CD que você produz com sua própria banda e distribui por seus próprios meios é tipicamente um CD “indie”. Um CD produzido e distribuído pelas grandes gravadoras não é.

Intersexuado (hermafrodita). Diz-se do indivíduo que apresenta simultaneamente os órgãos reprodutores de ambos os sexos (pênis e vagina) ao nascer, em geral um deles mais desenvolvido do que o outro. Um hermadrodita não é necessariamente um andrógino. Desenvolve-se hoje uma intensa campanha para que indivíduos intersexuais não sejam “reaparelhados” ao nascer, como ainda é prática em todo o mundo. Nesse caso, os médicos, juntamente com as famílias, “decidem” que órgão irão preservar e que órgão irão eliminar do indivíduo intersexuado a fim de poder classifica-lo em um dos dois gêneros existentes.

Intersexualidade. Nome dado a diversos tipos de condições anatômicas em que a genitália e/ou as características sexuais secundárias dos indivíduos não correspondem aos padrões socialmente fixados para os sexos masculino e feminino. Basicamente os indivíduos intersexuados apresentam características sexuais primárias e/ou secundárias de ambos os gêneros. O termo intersexualidade passou a ser adotado pela medicina a partir de meados do século XX para designar indivíduos cuja genitália apresentada por eles ao nascer não permite classifica-los nem como machos nem como fêmeas. Diante da absoluta rigidez da sociedade em classificar as pessoas ao nascer em um dos gêneros existentes – masculino ou feminino – a maioria das pessoas intersexuadas sempre foram arbitrariamente colocadas pelos médicos obstetras em um ou outro gênero, sem qualquer outro tipo de consideração. Nem é preciso dizer que erros enormes foram cometidos em nome da intolerância da sociedade em conviver com situações ambíguas no que respeita a gênero. É bastante grande o número de crianças intersexuadas, classificadas como fêmeas – ou machos – ao nascer e que acabaram se revelando como machos – ou fêmeas – durante a sua criação.
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Kathoey (ladyboy). Na sociedade tailandesa Designação genérica, na sociedade tailandesa, para transexuais, pré e pós-operadas, que atuam em diversos setores da sociedade, de acompanhantes a apresentadoras de TV.
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Ladyboy (Veja: kathoey).

Lésbica. Fêmea que sente atração sexual e/ou romântica por outras fêmeas. O termo também tem sido aplicado a pessoas transgêneras MtF (macho para fêmea) ou “mulheres não genéticas” que sentem atração por mulheres, inclusive mulheres não-genéticas.
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Macho(macho genético). O indivíduo humano que nasce com um pênis. Constatada a existência de um pênis, e independentemente de qualquer outro fator, o macho é automaticamente enquadrado no gênero (sexo social) masculino. Ser macho, ou seja, ter um pênis, não assegura de maneira nenhuma que a pessoa será capaz de desempenhar papéis sociais dito masculinos. Assim, um macho pode se sentir muito mais confortável e se sair muito melhor do que uma fêmea no desempenho de papéis sociais considerados femininos. O problema é que a sociedade não reconhece legitimidade a isso, surgindo daí todos os conflitos de transgeneridade. (inglês: male)

Machismo. Doutrina ou código de comportamento que advoga a superioridade do macho sobre a fêmea que, por isso mesmo, deve ser submissa e aceitar passivamente a sua dominação. Apresenta-se na prática como um exagerado orgulho pela masculinidade, uma masculinidade exagerada, por assim dizer, defendendo abertamente a virilidade, a força física e até mesmo a violência e a agressividade na dominação das mulheres. O machismo acompanha-se habitualmente de uma elevada dose de homofobia, uma vez que nele há uma suprema valoração das características culturalmente associadas à masculinidade, paralela ao desprezo e desqualificação de todas as características associadas à feminilidade. Em muitas culturas, como a latino americana, o machismo não é apenas socialmente aceitável como até desejável como conduta adequada para o gênero masculino. Em países católicos como a Espanha, Itália, Portugal e em toda a América Latina, Machismo ou chauvinismo masculino ainda é a crença de que os homens são superiores às mulheres. A palavra “chauvinista” foi originalmente usada para descrever alguém fanaticamente leal ao seu país, mas a partir do movimento de libertação da mulher, nos anos 60, passou a ser usada para descrever os homens que mantém a crença na inferioridade da mulher, especialmente nos países de língua inglesa. Nos países de língua portuguesa, a expressão “macho chauvinista” (ou, simplesmente, “chauvinista”) também é utilizada, mas “machista” é muito mais comum. O machismo tende a ser apresentado como um corpo de crenças, valores e comportamentos em oposição ao feminismo. Contudo, o feminismo é uma corrente de pensamento muito mais recente do que o machismo histórico e que em sua essência não expressa nem defende qualquer superioridade feminina em relação ao homem, buscando apenas uma justa equivalência dos gêneros em termos de igualdade de direitos. Entretanto, alguns machistas chegam a ofender-se com qualquer proposta de igualdade de direitos em relação às mulheres.

Montar (montagem). No meio trans, o ato de vestir-se e maquiar-se com o objetivo de transformar-se e “passar” como mulher ou, pelo menos, como “um homem lindamente vestido de mulher“, como diz a Paula Malfitanni. No universo do crossdressing (travestismo), “montar” implica em conhecer a fundo a arte e os “artifícios” extremamente requintados de “parecer mulher”, cuja técnica evolui a cada nova montagem, sendo necessário às vezes muitos anos para o pleno domínio de todo o processo. A despeito do cuidado e atenção que deve ser dado à escolha do figurino, da maquiagem, dos complementos e do gestual, a parte mais importante de qualquer montagem é a atitude do crossdresser, sem o que sua produção, por mais bela que seja, corre o risco de resultar apenas numa tola caricatura de mulher. As CDs mais inexperientes em geral contam com a ajuda de CDs mais experientes, as chamadas “madrinhas”, que as ajudam a progredir na arte da montagem. Nos EUA e na Europa existem empresas e profissionais especializados em fazer montagens. No Brasil, esses serviços são ainda muito incipientes.

MtF(M2F). No processo de transexualização, diz-se do macho (M) em transição para a condição de fêmea (F). (inglês: male to female). Às vezes é também usado como uma sigla para indicar a direção em que a pessoa está se travestindo (de macho para fêmea).

Mulher não-genética. Estado da alma de um homem genético que só pode ser plenamente compreendido se o sujeito for uma…
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“Não-passar”. O contrário de “passar” e uma das coisas mais temidas pelos crossdressers (sobretudo os chamados “cds de armário”). “Não-passar” significa que as outras pessoas conseguem identificar facilmente que o sexo da pessoa não corresponde ao gênero das roupas, complementos, atitudes e comportamentos em que ela se apresenta num dado momento e lugar. “Não-passar” é a situação mais comum vivida pelos crossdressers, a despeito da “crença” de muitos de que são capazes de realizar montagens tão perfeitas que passam completamente desapercebidos pelos demais.

Newhalf. Apesar de estar aparentemente grafada em inglês, newhalf (ニューハーフ) é uma palavra de origem japonesa, usada para designar um homem que realizou uma transição mental e/ou física para tornar-se mulher. A rigor, poderia ser usada como sinônimo de transexual (operada ou não-operada).
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Orientação sexual. Desejo e/ou atração muito forte que leva o indivíduo a escolher sempre o mesmo tipo específico de pessoa – ou os mesmos tipos especifícos de pessoas – na hora de manter relações sexuais. Oficialmente, a sociedade reconhece a existência de apenas dois tipos de orientação: 1) heterossexual – em que um macho se sente atraído por uma fêmea ou vice-versa e 2) homossexual – em que um macho se sente atraído por outro macho ou uma fêmea se sente atraída por outra fêmea. Entretanto, somente a orientação heterossexual é plenamento legitimada por todas as sociedades contemporânea (veja heteronormatividade), apesar dos grandes avanços nos direitos das populações homo e bissexuais. No final dos anos quarenta do século passado, o cientista e pesquisador americano Alfred P. Kinsey, mostrou que as escolhas individuais por parceiros sexuais vai muito além do binômio hetero/homo. No famoso relatório que leva o seu nome, ele mostrou que a condição hetero e a condição homo são apenas as duas extremidades de uma distribuição contínua onde são possíveis muitos outros tipos de escolhas sexuais. Na escala criada por Kinsey existem oito pontos correspondentes aos oito tipos de orientação sexual que ele teria observado nas suas pesquisas de campo:
1. Heterossexual – faz sexo exclusivamente com parceiros do sexo oposto.
2. Predominantemente Heterossexual – faz sexo com parceiros do sexo oposto a maior parte do tempo mas, incidentalmente, pode fazer amor com parceiros do mesmo sexo.
3. Basicamente Heterossexual – faz sexo com parceiros do sexo oposto a maior parte do tempo e eventualmente com parceiros do mesmo sexo.
4. Bissexual – faz sexo indistintamente com parceiros do sexo oposto e do mesmo sexo.
5. Predominantemente Homossexual – faz sexo com parceiros do mesmo sexo a maior parte do tempo e eventualmente com parceiros do sexo oposto.
6. Basicamente Homossexual – faz sexo com parceiros do mesmo sexo a maior parte do tempo mas, incidentalmente, pode fazer amor com parceiros do sexo oposto.
7. Homossexual – faz sexo exclusivamente com parceiros do mesmo sexo.
8. Assexual – não se interessa por nenhum tipo de parceiro ou de atividade sexual.
Já está em uso uma terminologia alternativa para orientação sexual que foge aos estereótipos de hetero e homossexual, termos que carregam uma carga muito grande de intolerância e preconceito. Note-se que nessa nova classificação uma pessoa não é enquadrada em função do seu próprio sexo de nascimento, mas realmente em função da sua orientação sexual predominante:
Ginefílico (ginecófilo, ginecofílico) – indivíduo que faz sexo exclusivamente com fêmeas. Naturalmente existem tanto machos quanto fêmeas que são ginefílicos.
Androfílico – indivíduo que faz sexo exclusivamente com machos. Naturalmente existem tanto fêmeas quanto machos androfílicos.
Androginefílico – indivíduo que faz sexo tanto com machos quanto com fêmeas. Naturalmente existem tanto fêmeas quanto machos androginefílicos.
Parafílico – indivíduo cuja orientação sexual predominante não é dirigida a pessoas mas a objetos ou atividades específicas, como roupas, calçados ou o ato de urinar, por exemplo (>> Veja Parafilias).
A orientação sexual pode variar enormemente, não só de indivíduo para indivíduo como até mesmo em um mesmo indivíduo, considerando momentos e situações distintas de sua vida. Tais variações podem ter características estruturais, sendo, portanto, duradouras como podem ter um caráter meramente passageiro e oportunista. O problema é que a sociedade NÃO RECONHECE legitimidade a tais variações, uma vez que a moral vigente ainda reconhece como plenamente legal apenas a orientação heterossexual. Pessoas transgêneras não só podem apresentar todos esses tipos de orientação sexual, como o fazem NA MESMA PROPORÇÃO ESTATÍSTICA em que elas se manifestam dentro da população cisgênera. Ou seja, muito ao contrário da crença comum de que todo transgênero é, necessariamente, homossexual, existem crossdressers que são heterossexuais, bissexuais, homossexuais e até assexuais. Entre crossdressers predominam as orientações hetero e bi, sendo menos comum a ocorrência de orientação exclusivamente homossexual, enquanto o grupo travesti é tipicamente bissexual e o grupo drag-queen tipicamente homossexual.
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Pansexual. Indivíduo que tem atração sexual por pessoas de todos os sexos (sim! existem mais do que dois!) e de todos os gêneros (sim! existem mais do que dois!).

Papéis de Gênero. O conjunto de papéis sociais, comportamentos e atitudes sócio, política, econômica e culturamente atribuídos a cada um dos dois gêneros; a divisão básica entre os atributos de gênero destinados a machos e fêmeas, existente em praticamente todas as sociedades humanas. Os papéis de gênero determinam todos os tipos de escolhas e comportamentos que uma pessoa deve ter em razão do seu sexo biológico, tais como vestuário, profissão e relações interpessoais, constituindo um elenco de normas de conduta e expectativas sociais de desempenho, que a sociedade estabelece diferentemente para machos e fêmeas. Os papéis de gênero determinam uma nítida divisão do trabalho social a partir dos sexos biológicos, onde são consignadas tarefas e comportamentos específicos a cada gênero, considerados socialmente desejáveis para uma determinada sociedade (ou grupo) numa determinada época. A maioria dos estudiosos é unânime em afirmar que, a despeito das predisposições genéticas de cada sexo para o exercício de determinadas tarefas no grupo social (por exemplo, “parir”), são as exigências sociais para os indivíduos se adequarem aos papéis de gênero que realmente determinam o seu desempenho. As pressões socioculturais para adequação dos indivíduos aos papéis de gênero são forças muito mais poderosas do que as próprias predisposições biológicas de cada um (veja gênero, identidade de gênero, socialização).

Parafilias. Tipo de orientação sexual na qual a principal fonte de prazer não está nas relações sexuais com outras pessoas adultas e aptas a decidirem livremente se querem ou não se engajar no intercurso, mas em alguma outra atividade, objeto e/ou comportamento. Dado a natureza altamente diversificada que pode assumir essa forma de orientação sexual desviante, é quase impossível fazer uma lista definitiva de todas as parafilias existentes. Há quem considere, por exemplo, que até o excesso na masturbação após a adolescência ou o fato de alguém preferir sempre esta prática em vez do contato físico com outra pessoa configure um tipo de parafilia. Dentre as modalidades mais conhecidas de parafilias estão o fetichismo (>> veja Fetichismo Transvéstico), o sadomasoquismo, o voyeurismo, o exibicionismo e a pedofilia. As parafilias são consideradas um tipo de orientação sexual desviante e estão classificadas como Transtornos de Orientação Sexual no CID-10 (item F65). Algumas modalidades, entretanto, podem ser consideradas até inofensivas e, de acordo com algumas teorias psicológicas, parte integrante da própria psiquê saudável. Entretanto, devem ser fortemente rechaçadas quando estão dirigidas a menores (como a pedofilia), que ainda não têm discernimento para fazer escolhas sexuais, ou a objetos, situações e/ou comportamentos potencialmente perigosos e/ou danosos para o próprio parafílico e/ou para terceiros.

“Passar”. (inglês: passing) O sapo (acha que…) se monta de maneira tão convincente, simulando tão bem as características secundárias da fêmea (ausência de pelos, quadris largos e seios, voz fina, p. ex.) que a “princesa” surgida da transformação será reconhecida e tratada como sendo realmente uma representante do gênero feminino.

Performatividade. (inglês: performativity) O conceito de gênero como fato social essencialmente performático desempenha papel central na teoria Queer. O conceito de performatividade sugere a total impossibilidade da existência de um sujeito que fosse anterior às normas sociais de identidade de gênero. Segundo Judith Butler, não existe nenhuma materialidade do sujeito fora das normas de enquadramento a que o indivíduo é submetido. Homem e mulher não são seres materiais, mas seres que incorporam o discurso social que permanentemente reifica homem e mulher: o discurso da masculinidade e o discurso da feminilidade. Isto leva a teoria Queer a um das suas colocações mais fundamentais: – identidade de gênero não é algo fixo e muito menos “natural” em cada pessoa, mas algo fluido e móvel. Os gêneros somente existem e sobrevivem graças ao cont~inuo e reiterado esforço das pessoas para se enquadrarem ao respectivo “discurso de gênero” associado ao seu sexo biológico. Simone de Beauvoir já tinha afirmado isso no segundo volume da sua obra “O Segundo Sexo”, quando diz que “ninguém nasce mulher: aprende a ser”. Mais recentemente, RuPaul, a famosa dragqueen norte-americana, fez a mesma afirmação de uma maneira jocosa “todo mundo nasce nu; o resto é ‘drag’ “. Ou seja, gênero nada mais é do que “performance de gênero”. 

Pomossexual. Reunião dos termos pomo – abreviatura de pós-modernismo – e sexual. É um neologismo que está sendo usado para descrever a pessoa que não consegue rotular-se dentro dos parâmetros clássicos de orientação sexual, como hetero e homossexual.

Posgenerismo (Postgenderism). Movimento social, político e cultural divergente cujos adeptos defendem a eliminação do gênero como categoria de enquadramento dos seres humanos através do uso sistemático de recursos cibernéticos. Dado o altíssimo potencial de expansão das técnicas e equipamentos para a Re produção Humana Assistida, os posgeneristas acreditam que tanto o sexo com propósitos reprodutivos vai se tornar obsoleto quanto qualquer casal, seja ele do tipo tradicional macho-fêmea ou de qualquer outra combinação que se imagine (macho-macho, fêmea-fêmea, macho-travesti, etc, etc), vai poder decidir ter filhos quando quiser sem o concurso de um útero humano (sem o concurso de um pênis já é possível há muito tempo). Tais possibilidades eliminarão a necessidade de gêneros definidos na sociedade, acreditam os posgeneristas.  

“Purge”. (purgatório, expiatório: do verbo purgar = purificar, remir culpa, expiar pecados, através do inglês purge, que significa a mesma coisa, uma vez que têm a mesma origem latina). Aquele(s) período(s) na vida de uma pessoa transgênera em que ela passa a evitar sistematicamente tudo que esteja relacionado ao travestismo. Um purge pode durar semanas, meses ou até anos. Em purge, grande número de CDs se desfazem inteiramente de todas as peças de vestuário e complementos femininos existentes no seu guarda-roupa, queimando, doando ou simplesmente jogando fora itens que podem ter lhes custado muito dinheiro, como roupas, calçados, perucas, bijuterias, maquiagem, etc. Termo diretamente oposto ao “urge” (necessidade premente e inadiável de se travestir), o purge pode ser considerado como um tipo do que em psicanálise é chamado de “formação reativa”, em que o ego, pressionado pelas exigências do ambiente, tenta fazer exatamente o oposto do seu desejo. Nesse caso, em vez de se travestir, transformando-se numa princesa, o indivíduo busca assumir estereótipos de “homem macho”, quase sempre de aspecto bastante desleixado. O purge pode ou não ter uma causa externa. Quando tem, em geral é decorrente da pessoa ter sido descoberta ou apanhada travestida ou ter passado por maus momentos numa blitz em um bar GLS. Quando não há causa externa imediata, pode resultar de um medo absurdo e descomunal de vir a ser descoberto (e punido) e/ou da vergonha e da culpa que sente ao se travestir.
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Queer (veja transviado). Queer é um termo guarda-chuva para todos os grupos que, de alguma forma, infringem as regras da heteronormatividade e isso inclui gays, lésbicas, bissexuais e todos os grupos transgêneros (travestis, transexuais, crossdressers, etc). Originalmente a palavra quer dizer anormal, devasso, tarado, depravado. Considerado até recentemente como um termo difamatório, a palavra está se afirmando a cada dia que passa, tornando-se até mesmo mais aceitável e representativa do que a palavra gay, na identificação e designação de pessoas e grupos fora dos padrões da heteronormatividade e da heteroafetividade. Na verdade, o termo propõe uma concepção mais ampla pois, a rigor, uma pessoa pode ser queer, em virtude dos seus conflitos de gênero e ainda ter uma orientação heterossexual. Queer também tem sido usado como um rótulo para identificar discursos, ideologias e estilos de vida que tipificam o universo LGBT dominante (lésbica, gay, bissexual e transgênero).

Queer Theory (Teoria Queer) é um conjunto de ideias e conceitos construídos a partir do núcleo de pensamento que as identidades (de gênero) não são instituições fixas e nem determinam quem nós somos. A teoria queer sugere que não faz sentido falar generalizadamente sobre “mulheres” ou qualquer outro grupo, uma vez que as identidades de gênero são compostas por tantos elementos que se torna inútil, além de completamente errado, fazer afirmações de natureza coletiva com base em uma simples característica compartilhada pelo grupo. Em lugar disso, a teoria queer propõe que, deliberadamente, sejam desafiadas todas as noções de identidade de gênero como algo fixo e imutável. A teoria queer está baseada, em parte, no trabalho de Judith Butler, especialmente na obra “Gender Trouble” (Problema de Gênero), de 1990, já publicado em português. Não é certo considerar a teoria queer como sendo apenas um outro nome para os estudos relacionados a gays, lésbicas e transgêneros. Ao questionar a própria estrutura das identidades de gênero, a teoria queer propõe um novo enfoque e um novo alcance, não apenas para esses estudos, mas para diversas outras áreas da sociologia e da antropologia cultural. Levando às últimas consequências o pensamento de Simone de Beauvoir (ninguém nasce mulher: – aprende a ser e, por extensão, ninguém nasce homem: – aprende a ser) os defensores da Teoria Queer sustentam que gênero, assim como o que a sociedade rotula como sexo, têm um caráter essencialmente performático, derivado muito mais de parâmetros político-econômico-culturais do que de determinações biológicas. Por outro lado, tendo as ideias de Foucault (Michel) como ponto de partida e o desconstrutivismo de Deleuze (Jules) como método de análise, os “queeristas” sustentam que a existência de papéis sexuais e papéis de gênero servem apenas para manter uma estratificação social totalmente arbitrária entre os indivíduos, como forma de assegurar o poder dos extratos dominantes, já que os seres humanos, por todo o condicionamento educacional que recebem, estão profundamente determinados e ficam circunscritos à classificação de gênero que recebem ao nascer. O binário sexual molda a condição humana, fazendo-nos ver o mundo por categorias binárias. A classificação de gênero impõe limites à nossa capacidade da comunicação e compreensão intersubjetiva e empatia. O dimorfismo sexual biológico é o poder mais básico dinâmico na sociedade, permitindo aos homens coagirem as mulheres com os seus corpos mais fortes e dirigi-las pela dominância do seu comportamento. A igualdade jurídica, as armas e a polícia reduziram o poder determinativo e coercitivo baseado na força física masculina enquanto a contracepção, o aborto e as técnicas de reprodução humana assistida eliminaram a maior parte da base lógica de papéis sociais baseados em gênero, trabalho e família, reduzindo a milenar carga de opressão patriarcal sobre as mulheres. A Teoria Queer emerge como marco histórico do conflito entre parâmetros históricos de organização da sociedade, baseados  no binário rígido dos gêneros e os pressupostos de igualdade da revolução feminista e dos movimentos de afirmação LGBT.
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Real. Diz-se da condição do crossdresser que deixa de ser virtual, isto é que passa a se apresentar no mundo real, em carne e osso, em sapo e/ou en femme, deixando, portanto, de ter a existência apenas ilusória ou artificial que caracteriza a maioria dos crossdressers (vida “virtual”, apenas na Internet).

Recalque. Mecanismo de defesa da psiquê cuja função é impedir que desejos reprimidos passem do campo do inconsciente para o campo da consciência, evitando assim que o sujeito entre em choque com exigências e limitações contrárias à sua realização no mundo real e, consequementemente, venha a sofrer com isso, tendo que enfrentá-las ou acomodar-se a elas.

Rejeição. Processo psicológico caracterizado por dor emocional e sofrimento intenso, resultante do sentimento de abandono e desamparo que alguém experimenta ao sentir-se não querido, não amado, não aceito, preterido, discriminado e/ou humilhado por outra pessoa, grupo ou comunidade. A rejeição pode ser real ou imaginária, mas em ambos os casos a dor é real.

Repressão. Um dos mecanismos de defesa do ego que consiste em inibir ou suprimir um afeto, ideia, ato, etc, potencialmente produtor de mal-estar e desprazer no indivíduo, afastando-o do campo da consciência para o do inconsciente. 

Reposição Hormonal, Tratamento de. Procedimento clínico que consiste na administração de hormônios femininos e de substâncias supressoras de hormônios masculinos, a fim de promover a feminização ou efeminar um indivíduo macho, de modo que ele possa assumir mais confortavelmente (e convincentemente) o papel de mulher na sociedade (e vice-versa, no caso da fêmea). Apenas como registro informativo:
– estrógeno e progesterona (hormônios sexuais femininos) para todas as transexuais M2F, que deverão utilizá-los durante toda a vida, mesmo após a cirurgia de reaparelhamento genital, e também muitos transgêneros M2F, que os utilizam para desenvolver características genitais femininas secundárias, como seios);
– testosterona (hormônio sexual masculino) para transexuais F2M.
Alguns pontos devem ser sempre enfáticamente ressaltados no tratamento de reposição hormonal:
1) Hormônios são substâncias muito poderosas, e não devem ser usadas sem supervisão médica.
2) Como cada organismo humano em particular tem as suas próprias características e necessidades específicas, tanto o tipo de hormônio (no caso do estrógeno, por exemplo, existem diversos tipos) quanto a sua dosagem deverão ser cuidadosamente avaliados de pessoa para pessoa. Caso contrário, os efeitos desejados jamais aparecerão e em lugar deles, todas as complicações possíveis e imagináveis.
3) Pelas duas razões anteriores, a maneira como os hormônios atuam e repercutem em cada organismo humano varia impressionantemente de pessoa para pessoa. Assim, o tipo e dosagem que propiciou excelentes resultados em uma, pode ser um enorme desastre para outra.
4) Muitos efeitos dos hormônios não são reversíveis (como seios, em M2F, ou barba, em F2M) e os efeitos colaterais de longo prazo incluem esterilidade e impotência, no caso de homens genéticos.

Resolvido(a). Diz-se da pessoa transgênera que assumiu plenamente a sua transgeneridade, enfrentando todos os seus medos e inibições e superando seus conflitos pessoais e interpessoais que funcionavam como obstáculo à livre expressão da sua identidade de gênero.

Revolução Sexual. Nome dado genericamente aos diversos movimentos populares e correntes de pensamento que, entre os anos 60 e 70 do século XX, desafiaram os códigos tradicionais de comportamento sexual do mundo ocidental, produzindo avanços significativos na liberalização dos costumes, dentre os quais uma maior aceitação do sexo fora das relações heterossexuais e monogâmicas tradicionais (principalmente do casamento), a difusão do uso da pílula anticoncepcional, a nudez em público, a normalização da homossexualidade e outras formas alternativas de sexualidade e a legalização do aborto. O historiador David Allyn argumenta que a revolução sexual foi o momento da sociedade “sair do armário” em relação a coisas como o sexo antes do casamento, masturbação, fantasias eróticas, etc. Mas o médico e psicoterapeuta JoséÂngelo Gaiarsa acreditava que a revolução sexual em grande parte foi um engodo discursivo, já que as pessoas, na sua maioria, continuaram “sexualmente amarradas” como sempre, cheia de preconceitos e tabus em relação à expressão da sua própria sexualidade. Ele dizia, em tom jocoso, que gostaria de saber onde ocorreu a tal “revolução sexual” a fim de passar lá pelo menos uma semana antes de morrer… Nem é preciso dizer que morreu sem ter notícia de um lugar onde o sexo tivesse deixado de ser tabu para a maioria das pessoas.

Roupa. Sendo concebida diferentemente para o macho e para a fêmea, a roupa foi e é desde sempre o mais notável e o mais aparente distintivo social dos gêneros. Por isso mesmo, a roupa constitui o principal veículo de expressão da identidade de gênero, levando todo indivíduo transgênero a praticar o travestismo em alguma extensão. Diz o ditado que “o hábito não faz o monge”. Porém, uma coisa é certa: “faz com que o monge apareça de longe”…
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Sapo. No meio crossdresser, designa um indivíduo CD quando não está montado ou seja, na sua figura masculina: o sapo de fulana vai se encontrar com o sapo de beltrana. Ao contrário do conto de fadas, aqui o sapo não se transforma em príncipe no final da história, permanecendo triste e amargurado no armário-lagoa, na condição de patrocinador anônimo de todas as compras e aventuras da princesa…

Sexo (sexo biológico). Conjunto das características corporais que diferenciam, numa espécie, os machos e as fêmeas e que lhes permitem reproduzir-se. O sexo é herdado biologicamente através do par de cromossomas X e Y, que conduzem as informações genéticas do indivíduo. Na espécie humana, foram “cientificamente reconhecidos” até o momento apenas 4 tipos de sexo, resultantes da combinação de X e Y, e que são: o macho, a fêmea, o hermafrodita e o assexuado ou nulo, sendo essas duas últimas categorias de ocorrência muito pequena, a última praticamente inexpressiva. Entretanto, com o avanço das pesquisas na área da genética humana, muitas outras “modalidades” de sexo passaram a ser cogitadas, falando-se atualmente em combinações cromossômicas como XXY ou XYX. Mas, de qualquer forma, até o momento em que escrevo essas linhas, trata-se de meros estudos em andamento, sem comprovação cabal e definitiva. Uma das crenças mais arraigadas a respeito de sexo biológico é que ele, por si mesmo, determina de forma categórica o comportamento social das pessoas, o que constituem uma tremenda farsa. Ao contrário de todas as outras espécies animais desse planeta, o comportamento humano não é herdado geneticamente, mas aprendido, através de um lento e complexo processo de socialização. Portanto, não é o sexo macho que determina o comportamento masculino de uma pessoa, mas o aprendizado social do que é ser macho, numa determinada sociedade, época e lugar do planeta.

Sexo Social. O mesmo que gênero.

Sexualidade. O conceito de sexualidade abarca muito mais coisas do que a simples atração física entre indivíduos ou o aparelho genital de cada um e o seu engajamento no intercurso sexual com outra pessoa. No ser humano, a sexualidade possui componentes físicos, afetivos, intelectuais e socio-culturais que a distanciam imensamente de qualquer outro tipo de manifestação sexual dentro do reino animal. E, uma vez que cada pessoa é uma criatura humana é absolutamente única, não é possível afirmar categoricamente que exista uma sexualidade, ou mesmo uma atividade sexual, que possa ser considerada “normal”, em detrimento de todas as outras formas existentes. Inúmeros fatores biológicos, sociais, políticos e psicológicos influem diretamente na formação e no direcionamento da nossa sexualidade, com destaque para o gênero, orientação sexual, níveis de hormônio no organismo, idade e perspectiva de vida, bem como as visões que os indivíduos possuem de sexo, baseadas em suas crenças religiosas e valores culturais. Sexualidade é, dessa maneira, um termo composto por elementos de diversas esferas, do biológico ao sociopolítico, do genético ao psicológico, onde a educação recebida desde o berço e ao longo de toda vida cumprirá sempre um papel preponderante. Lidando simultaneamente com tantas variáveis, a sexualidade humana é o resultado e, ao mesmo tempo, a conseqüência direta da personalidade e das relações interpessoais de cada indivíduo, incluindo sua auto-percepção, sua auto-estima, sua história pessoal, a imagem de corpo além, o amor, a intimidade, pensamentos, fantasias e desejos eróticos, etc. mesmo que gênero.

Shemale. Forma de designação de pessoas transgêneras MtF cujas atividades estão vinculadas à indústria do sexo. O termo é considerado pejorativo pelas transexuais. A rigor, em português, corresponderia à ideia de “travesti”, classicamente, designa mulheres trans vinculadas à indústria do sexo.

Síndrome. É um conjunto de sintomas que costumam aparecer juntos em razão da existência de determinados processos patológicos. O diagnóstico da síndrome do pânico se baseia na ocorrência simultânea de diversos sintomas, sendo os mais comuns aqueles descritos no item F41.0 do CID 10 (Classificação Internacional de Doenças, da Organização Mundial de Saúde, 10ª edição):
1) ocorrência brutal de palpitação e dores torácicas
2) sensações de asfixia (falta de ar, angústia)
3) tonturas
4) sentimentos de irrealidade (despersonalização ou desrrealização).
5) medo de morrer, de perder o autocontrole ou de ficar louco.
6) Insônia (e outros distúrbios do sono)
Assim como um sintoma isolado não pode ser confundido com uma síndrome, também a síndrome não deve ser confundida com a doença que a está causando. Mas é exatamente esse ponto importantíssimo que está sendo negligenciado no “tratamento” oferecido à maioria dos indivíduos diagnosticados como portadores de “síndrome de pânico” e de outras síndromes. A Síndrome do Pânico não é a doença: – é só a conseqüência dela. Há algo muito mais fundamental causando a síndrome.

Sintoma. O sintoma é a unidade-padrão na elaboração do diagnóstico. É a marca registrada do desconforto produzido por alguma alteração de funcionamento/comportamento orgânico/psíquico conforme relatado pelo paciente ou pelas pessoas que vivem no seu entorno. Ansiedade é um desconforto bastante evidente para o sujeito que a sente. Assim como falta (ou excesso) de sono, boca amarga (ou seca), tristeza, palpitações, etc. Todos esses itens indicam que alguma coisa pode estar com o seu funcionamento alterado no organismo. Um mesmo sintoma pode estar presente – e geralmente está – em inúmeros quadros patológicos. Assim, nenhum sintoma deve ser visto de maneira isolada. “Ataques de ansiedade”, sozinhos, não são suficientes para caracterizar uma síndrome de pânico, uma vez que a ansiedade pode ser sintoma de inúmeras outras coisas.

S/O (do inglês “Significant Other”). Abreviatura de significant other (literalmente, “outro/a significativo”), expressão muito usada em sociologia para designar pessoas que de diversas maneiras apóiam outras pessoas em situação que necessitem de suporte, atendimento, carinho e compreensão, particularmente em virtude de sua condição física (temporária ou definitiva), sociopolítica e/ou psicossocial. Uma pessoa S/O tem grande importância na vida psicossocial de um indivíduo qualquer, sendo capazes de exercer forte influência na sua auto-avaliação/auto-estima. Em psicologia, o termo é usado para designar pessoas que tomam conta e cuidam de um indivíduo, particularmente na sua primeira infância, proporcionando-lhe carinho, suprimento de necessidades, recompensa e punição. Embora, em inglês, o termo S/O apresente diversas acepções, no crossdressing ele tem sido usado para designar mulheres GG – em especial esposas ou companheiras – com as quais o crossdresser/travesti eventualmente mantém relacionamento amoroso-sexual – as quais aceitam e eventualmente até ajudam, apóiam e participam da vida social dos seus companheiros transgêneros.
Embora o uso mais comum da expressão S/O seja entre crossdressers, designando esposas que compreendem, aceitam e apóiam seus maridos na expressão das suas identidades femininas, ela também pode ser empregada para designar outras categorias de pessoas, GGs ou não, que proporcionam algum tipo de apoio/suporte material e/ou afetivo a pessoas transgêneras, como namoradas, mães, irmãs, amantes e até amigos, amigas e profissionais. As esposas que não aceitam, apóiam ou participam da condição transgênera de seus maridos têm recebido a designação de noSO, mas esse registro só existe no Brasil, onde, também, é encontrado o registro “Supportive Other” para S/O, completamente inexistente em língua inglesa.

Socialização (aprendizagem social). Processo através do qual as pessoas aprendem, introjetam, aceitam e se treinam para o exercício das normas de conduta estabelecidas pela sociedade em que vivem. Dentre os principais aprendizados proporcionados pela socialização está o desempenho dos papéis de gênero. A socialização opera, de um lado, através do contínuo reforço para que as pessoas apresentem os comportamentos desejados pela sociedade e, de outro, através de robustos (e ao mesmo tempo sutis) mecanismos de repressão, que levam as pessoas a renunciar à prática de comportamentos socialmente indesejados e/ou interditados. Esse mecanismo de recompensas e punições (sanções), que constitui o núcleo do processo de socialização, é administrado por agentes de socialização como a família, a escola e a mídia, deixando claro para crianças (e adultos, já que a socialização não temrina nunca!) o que é que a sociedade espera dela a partir do gênero que lhe foi atribuído ao nascer.
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Tranny. O mesmo que shemale e igualmente usado para designar mulheres trans vinculadas à indústria do sexo. Tal como shemale, muitas pessoas na comunidade transgênera consideram esse termo ofensivo, especialmente se usado por pessoas fora da comunidade.

Trans. Correntemente, o prefixo “trans” é usado com 3 diferentes acepções aqui no Brasil:
1. Como abreviatura de “transexual”;
2. Como designativo de qualquer pessoa “transgênera”, seja ela andrógina, travesti, crossdresser, drag-queen, etc.
3. Como designativo de garotas MtF (travestis, transexuais pre e pos-op e crossdressers) atuando na indústria do sexo.

Transfobia. Medo, repulsa e/ou aversão a quaisquer expressões de gênero fora do binômio masculino-feminino. O indivíduo transfóbico desenvolve o desejo mórbido e compulsivo de isolar, prejudicar, ameaçar, espancar ou até mesmo de matar pessoas trans (transgêneras e transexuais) incluindo crossdressers, travestis, transexuais, andróginos. (veja efeminofobia, homofobia)

Transformistas. Os membros dessa tribo costumam considerar-se como uma classe totalmente à parte dentro do mundo do travestismo, sendo constituída basicamente por pessoas que se consideram atores profissionais e que, insistem eles, não apresentam nenhum tipo de desconforto de gênero. Apenas se travestem para ganhar a vida no palco, representando papéis de mulher em peças teatrais, dublagens, sketches e shows de stand-up comedy.

Transgeneridade. O conceito de transgeneridade deve se aplicar, em princípio, a qualquer indivíduo que, em tempo integral, parcial ou em momentos e/ou situações específicas da sua vida, demonstre algum grau de desconforto ou se comporte de maneira discordante do gênero em que foi enquadrado ao nascer. Evidentemente, um conceito tão amplo como esse não é partilhado por todos os grupos potencialmente enquadrados nessa definição. Assim, devido às inumeráveis disputas entre os numerosos subgrupos de indivíduos portadores de alguma forma de disforia de gênero, o termo transgênero está longe de ser aceito por todos como designação geral dos indivíduos portadores de quaisquer tipos de desvios de gênero. Transgeneridade não constitui nenhuma espécie de patologia. Se o comportamento transgênero é visto eventualmente como patologia, isto se deve ao fato de que a sociedade não consegue abdicar do seu ultrapassado princípio básico de organização, baseado no binômio de gêneros, masculino e feminino. Nota importante: deve-se evitar sistematicamente a forma transgenerismo, uma vez que a terminação “ismo” conota presença de patologia.

Transgênero (T* ou TG;  Inglês = transgender). Refere-se a todo tipo de pessoa envolvida em atividades que cruzam as fronteiras socialmente aceitas no que diz respeito à conduta de gênero. O termo transgênero busca cobrir um amplo espectro de comportamentos considerados transgressivos à disciplina dos gêneros, que vão desde a simples curiosidade de experimentar roupas/calçados/adereços próprios do outro gênero até a firme determinação de realizar mudanças físicas através do uso de hormônios e cirurgias. O termo transgênero vem sendo utilizado para classificar as pessoas que, de alguma forma, não podem ser socialmente reconhecidas nem como “homem”, nem como “mulher”, pois o seu “sexo social” não se enquadra em nenhuma das duas categorias disponíveis, que são masculino e feminino. Assim, o transgênero masculino é alguém cujo comportamento, revelado em suas ações, desejos, palavras, pensamentos e atitudes, transgride regras de conduta que a sociedade fixou para o gênero masculino. Essas regras estabelecem claramente que homens não devem vestir-se, maquiar-se ou comportar-se socialmente como mulheres ou (ainda que isso não seja mais um dispositivo legal em muitos lugares), transar sexualmente com outros homens. Independentemente dos motivos que o levam a isso ou da freqüência com que o faz – um homem que se veste como mulher, que busca expressar-se como mulher de alguma forma ou que (pelo menos até pouco tempo atrás…) faz sexo com outro homem, está claramente transgredindo as regras de conduta que a sociedade fixou para o gênero masculino.
A rigor, não são os transgêneros que deveriam constituir uma “letra a mais” dentro do grupo GLS, mas os gays, lésbicas e transexuais que constituem subgrupos dentro do universo transgênero. Todos, voluntária ou involuntariamente, transgridem regras de conduta de gênero, todos pagam o preço social por isso e todos, de alguma forma sonham em ver revogados os dispositivos de gênero que os colocam à margem do convívio social considerado “normal”. Em linguagem tecnica, o transgênero pode ser descrito como alguém cuja identidade de gênero apresenta algum tipo de discordância ou conflito com os dispositivos de conduta do gênero que lhe foi atribuído ao nascer. O fenômeno é conhecido como transgeneridade e, a exemplo da transexualidade, também é capaz de causar sérios transtornos à saúde física e mental dos seus portadores, cuja superação inclui a adoção de canais de expressão que permitam à pessoa elaborar e manifestar pelo menos os aspectos mais conflituosos da sua transgeneridade. Ao contrário da transexualidade, que é um fenômeno extremamente pontual, com uma única via de eliminação do sofrimento psíquico dos portadores (a cirurgia de redesignação sexual), a transgeneridade é um fenômeno extremamente amplo, podendo apresentar uma imensa variedade de manifestações, dentre as quais a própria transexualidade poderia ser incluída, não fosse o seu padrão de ocorrência tão altamente específico (entretanto, o DSM-IV considera a transexualidade como um fenômeno relacionado a gênero, designando-o pelo nome de Transtorno de Identidade de Gênero ou Disforia de Gênero). Entre os representantes típicos da população de machos transgêneros (T*) , que apresentam, portanto, alguma forma de discordância de gênero (sem apresentar discordância de sexo), estão a travesti (TV), a crossdresser (CD), a drag-queen (DQ), o andrógino e os transformistas.

Transgênero Masculino. Qualquer homem que, ou não consegue se decidir em que banheiro entrar, entra indiferentemente em qualquer um dois banheiros, que já se decidiu por entrar no banheiro feminino ou que mandou banheiro definitivamente para o espaço. 

Transfobia. Medo, repulsa e/ou aversão a quaisquer expressões de gênero fora do binômio masculino-feminino. O indivíduo transfóbico desenvolve o desejo mórbido e compulsivo de isolar, prejudicar, ameaçar, espancar ou até mesmo de matar pessoas trans (transgêneras e transexuais) incluindo crossdressers, travestis, transexuais, andróginos. (veja homofobia)

Transformistas. Os membros dessa tribo costumam considerar-se como uma classe totalmente à parte dentro do mundo do travestismo, sendo constituída basicamente por pessoas que se consideram atores profissionais e que, insistem eles, não apresentam nenhum tipo de desconforto de gênero. Apenas se travestem para ganhar a vida no palco, representando papéis de mulher em peças teatrais, dublagens, sketches e shows de stand-up comedy.

Transexual (TS). A teoria mais amplamente aceita é de que a transexualidade é um distúrbio de gênero que ocorre quando a identidade sexual e de gênero de um indivíduo não corresponde ao seu sexo biológico de nascimento. Essa dissonância é fonte de enorme angústia e ansiedade, podendo levar os indivíduos transexuais a um grau insuportável de sofrimento físico e psíquico. A superação do distúrbio exige terapia hormonal e realização de cirurgia de reaparelhamento sexual.

Transexual MtF (macho para fêmea). Vinte homens em um milhão, portadores de GID que, para continuar vivendo com um mínimo de satisfação e dignidade precisam enfrentar os procedimentos cirúrgicos e cosméticos necessários à completa modificação da sua genitália de nascimento, tornando-se assim uma mulher (embora não-genética, quase) completa, refeita a partir de um corpo de homem. Uma outra teoria que busca explicar o fenômeno da transexualidade entre homens é a autoginefilia (veja o verbete), muita polêmica na comunidade trans, mas que possui defensores de peso, como a médica americana Anne Lawrence, ela própria uma transexual MtF.

Transexual Pre-op. A pessoa transexual cuja transição (MtF ouy FtM) ainda se encontra numa fase pre-operatória, envolvendo procedimentos como terapia de reposição hormonal, suporte psicoterapêutico e vida integral 24h por dia na condição de indivíduo do gênero-alvo da transição.

Transexual Pos-op. A pessoa transexual que realizou cirurgia de reaparelhamento sexual, tornando-se um indivíduo pleno do gênero-alvo da transição (pelo menos na maioria dos aspectos fenotípicos).

Transexual x Transgênero.
Transexual –> apresenta discordância de sexo, ou seja, sua identidade de sexo é diferente do sexo biológico que possuía ao nascer. Nota importante: no caso da transexualidade o distúrbio de gênero é apenas uma conseqüência do distúrbio de sexo, uma vez que o gênero (ou sexo social) é atribuído ao indivíduo no momento do seu nascimento e exclusivamente em função do órgão genital que ele possuir entre as pernas.
Transgênero –> apresenta discordância de gênero, ou seja, sua identidade de gênero é diferente do gênero (ou sexo social) que lhe foi atribuído ao nascer em função do órgão genital que ele possuía entre as pernas (e com qual ele não apresenta maiores conflitos).

Transição. O processo de mudança de gênero (no caso de travestis ou crossdressers) ou de sexo (no caso de transexuais). Durante sua “transição” (de M2F ou de F2M), a pessoa paulatinamente vai passando a viver full time inteiramente de acordo com as disposições sociais relativas ao gênero oposto ao de seu nascimento.

Transidentidade. (do francês transidentité). Termo muito próximo de transgeneridade, a rigor designando os mesmos fenômenos. O termo é mais usado na europa, particularmente na França, onde surgiu e onde há bastantes registros de uso (a exemplo da obra La transidentité, De l’espace médiatique à l’espace public, de Karine Espineira, Paris, l’Harmattan, coll. Champs Visuels, 2008). A transidentidade abrange uma série de situações em que uma pessoa sente o desejo de adotar,  temporariamente ou permanentemente, o comportamento e os atributos sociais de gênero (masculino ou feminino), em contradição com o sexo genital. Em alguns casos, este será o travestismo ocasional. Em outros, as pessoas podem viver alternadamente com duas identidades sociais, masculino e feminino. Ou tomar uma posição intermediária, o gênero não marcado. Ou viver plenamente no tipo de sexo oposto. Finalmente, algumas pessoas anseiam por uma modificação do corpo até a cirurgia de mudança de sexo, aqui estamos falamos especificamente de transexualidade. São consideradas transidentidades a transexualidade, a travestilidade, a Drag Queen, o Drag King, o  Crossdresser, o transformista.

Transtorno de Identidade de Gênero (GID = Gender Identity Disorder). Designação comum de uma série de estados patológicos relacionados à expressão/realização do desejo de pertencer ao gênero oposto àquele em que o indivíduo foi classificado ao nascer. O GID é descrito no itens F64.0 – Transexualismo e F64.1 – Travestismo Bivalente, do CID-10 – Classificação Internacional de Doenças da OMS – Organização Mundial de Saúde e no item 302.85 do DSM-IV – Diagnostic and Statical Manual of Mental Disorders, publicado pela APA – American Psychiatric Association, quarta edição. O Transtorno de Identidade de Gênero atormenta, angustia, alimenta fantasias e produz quadros agudos de ansiedade e depressão em seus portadores quando tais fantasias não encontram canais adequados de expressão. A necessidade compulsiva de identificar-se com o outro gênero acarreta situações existenciais extremamente dolorosas e angustiantes na vida de uma pessoa transgênera. Qualquer transgênero, privado de expressar o seu próprio grau de transgeneridade, é candidato a sérias patologias. Pressão alta, acidentes coronários, quadros agudos de stress e até suicídios, dentre outros, têm sido relatados como muito freqüentes.
Faça um exame íntimo, converse com você mesmo e conclua para si mesmo se o seu comportamento diário tem apresentado algum(uns) dos seguinte desejos abaixo:
GRUPO 1
1 – Desejo persistente de se vestir e se produzir com roupas e adereços próprios do gênero oposto
2 – Persistente identificação com papéis e atividades próprias do gênero oposto
3 – Desejo freqüente e episódico de se passar por alguém do sexo posto
4 – Desejo de viver ou ser tratado como alguém do sexo oposto
5 – Desejo de desenvolver atitudes e comportamentos, ou a convicção de já possuir sentimentos e reações típicos do sexo oposto.
6 – Desejo intenso, permanente ou episódico de se apresentar socialmente como pessoa do gênero oposto.
A condição de transgeneridade necessitará de cuidados imediatos da sua parte se algum(uns) dos desejos acima no grupo 1 estiverem sendo acompanhados de algum(as) das características apresentadas abaixo no grupo 2.
GRUPO 2
1 – Sentimento de profundo desgosto (luto) por não poder se vestir e/ou se comportar como pessoa do gênero oposto
2 – Intenso sentimento de culpa provocado pela percepção de inadequação ao gênero atribuído ao nascer
3 – Pavor extremo de ser descoberto em atividades tais como vestir-se, enfeitar-se ou portar-se como pessoa do gênero oposto.
4 – Emprego exagerado de energia (alta catexia) para reprimir e recalcar o desejo de se travestir.
5 – Medo intenso de se abrir com qualquer pessoa a respeito do desejo de se travestir
6 – Tendência a negar e/ou reprimir o desejo de se travestir
7 – Esforço descomunal para comportar-se de modo a não levantar nenhuma suspeita nas pessoas próximas, por medo de abandono, exclusão e outras represálias.
Em estados crônicos, a cirurgia para mudança de sexo é a única saída possível, já que ninguém conseguiu mudar o gênero impresso na cabeça da pessoa desde a mais tenra idade. >> clique para ler artigo completo Travesti propriamente dito (TV) Inglês = shemale, tranny
A roupa faz a mulher e continua fazendo 24h/dia, 7d/semana, 365 d/ano. Uma travesti se identifica como mulher, ou seja, como pertencente ao gênero feminino, e nessa condição vive praticamente toda a sua vida, 24 horas por dia. O conflito aqui é com o gênero, não com o sexo, como acontece com uma transexual. Em busca de “passar” mais facilmente, o uso regular de hormônios femininos, como a realização de cirurgias estéticas de feminização vira uma necessidade quase obrigatória. Contudo, não há desconforto com a genitália ou seja, travestis normalmente não se encontram em conflito com os seus genitais masculinos. Pelo contrário, normalmente eles são parte efetiva do seu “show”. Na absoluta maioria dos casos, uma TV nunca abre mão dos seus genitais masculinos, incorporando-os ao seu estilo único e muito original de ser mulher. Embora a maioria das travestis use hormônios, faça implantes e realize cirurgias plásticas feminilizantes, dificilmente alguma delas buscará o reaparelhamento sexual como única saída para recuperar seu conforto biopsíquico (como é o caso das transexuais). Embora, na mais-do-que-machista cultura brasileira, o termo travesti esteja associado a baixa renda, baixa escolaridade, baixaria, vestuário erótico e exibicionismo, existem travestis de altíssimo nível socioeconômico, vivendo integralmente como mulher, sem perder a ambigüidade característica desse comportamento transgênero.
Independentemente de sexo ou gênero, e definido de maneira ampla, travesti é qualquer pessoa que se apresenta socialmente usando roupas e adereços culturalmente definidos como de uso próprio do sexo oposto. O termo travesti (transvestite) foi criado por volta de 1910 pelo médico alemão Magnus Hirschfeld, pioneiro dos estudos sobre identidade de gênero. Hirschfeld, entretanto, assinalou em seus estudos posteriores que o fato de usar roupas socialmente destinadas ao sexo oposto era apenas o aspecto mais obviamente visível do comportamento dos travestis.

Transtorno de Personalidade Dissociativa (Transtorno de Dupla Personalidade). O transtorno de dupla personalidade, atualmente denominado Transtorno de Personalidade Dissociativa-TPD, é um distúrbio mental grave e crônico, de difícil diagnóstico, sintomatologia muito diversificada e elevado risco de suicídio. Sua principal característica é a manifestação alternada, no mesmo indivíduo, de duas ou mais personalidades distintas, cada uma delas dominante num determinado momento específico. O portador de TPD apresenta diferentes tipos de “organizações mentais”, mais ou menos independentes entre si, que tanto podem manifestar-se sem que uma “nada saiba” sobre a outra, quanto manterem complexas relações entre si, como se se conhecessem e interagissem dentro do universo psíquico da pessoa afetada. É como se existissem duas ou mais “pessoas” distintas – ou melhor, “dissociadas” – dentro do mesmo indivíduo, cada uma das quais tendo o seu próprio padrão de pensamento, percepção, ação e reação sobre o meio ambiente e sobre seu autoconceito. Em geral se admite que a ocorrência de eventos traumáticos na vida de um indivíduo seja o principal fator desencadeador da “dissociação” da personalidade. Chamamos de “dissociação” o processo mental que produz uma progressiva falta de conexão da pessoa com seus pensamentos, lembranças, sentimentos, ações, ou percepção da própria identidade.

Transviado.(Inglês = queer). De acordo com o Houaiss: 1) que ou o que se transviou; extraviado, perdido e 2) que ou aquele que não obedece aos padrões comportamentais vigentes. Depois de muita pesquisa e análise, considero o termo mais adequado para traduzir-se “queer” em língua portuguesa.

 Travestismo.(Inglês = transvestism, crossdressing). Nome dado à prática, sistemática ou eventual, permanente ou transitória, da pessoa se trajar dentro do figurino socialmente reservado ao gênero oposto ao dela. O Travestismo é a manifestação mais característica e mais visível da conduta de pessoas transgêneras (andróginos, travestis, crossdressers, drag queens e transexuais). No extremo da busca pela perfeição em mimetizar pessoas do gênero oposto – uma obsessão que acaba assolando mais cedo ou mais tarde todo crossdresser/ travesti, a montagem (veja verbete específico) exige aquela longa série de procedimentos e rituais, complexos e demorados, que vão desde o encobrimento total da barba(inclusive da “sombra) até a colocação final da peruca, passando por diversos estágios de fabricação da imagem da mulher idealizada pelo homem transgênero.É importante afirmar que travestismo é algo que se faz, motivado pelas mais diversas razões, e não algo que se é, conforme observou Virginia Prince, considerada a “mãe” do travestismo/crossdressing norte-americano. >> clique para ler artigo exclusivo

Tucking (ou encolhimento). Técnica de ocultação da genitália do macho, fundamental na vida de crossdressers, travestis, drag queens e transformistas. “Fazer o tucking” significa colocar as bolas pra cima e para dentro e o pênis para trás, encaixando a calcinha sobre todo o conjunto, para segurá-lo firme no lugar (duas calcinhas, uma por cima da outra, sempre funcionam melhor e me dão mais confiança). Com o “tucking”, os nossos testículos ficam dentro do corpo e assim estão numa temperatura maior do que resistem. Quando feito com muita freqüência, pode influir negativamente na sua fecundidade. Não foi a toa que a natureza botou nossos “ovinhos” pra fora. Para sobreviverem sem a necessidade de refrigeração criogênica os espermatozóides produzidos e conservados nos testículos, dentro do saco escrotal, necessitam de estar numa temperatura ambiente inferior à do corpo humano. Entretanto, não conheço nenhuma informação médica segura quanto a se praticar o tucking realmente causa problemas de fecundidade sérios ou até esterilidade. Naturalmente, para a comunidade CD, esta é uma questão muito importante, desde que a maioria dos cds pretendem conservar-se reprodutivos.
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Urge (do verbo urgir, realizar-se ou resolver-se sem demora, através do inglês “urge”, que significa a mesma coisa, uma vez que têm a mesma origem latina). Necessidade premente de se travestir de que são acometidas as pessoas transgêneras, particularmente crossdressers, levando-os a estados de extrema angústia e penúria existencial, sobretudo quando não dispõem de nenhum espaço, apoio ou condição para se “montar”. Em estado de “urge”, muitos CDs cometem grandes loucuras, como comprar peças e mais peças de vestuário feminino, que jamais poderão usar, ou arriscar-se em aventuras altamente perigosas e inconseqüentes, apenas para saciarem o desejo de se verem como mulheres. (Ver também “purge”)
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Viado(e não “veado”, o animal). Termo com o qual no Brasil são largamente designados machos homossexuais e, por extensão, transgêneros em geral, como CDs, Travestis, Transformistas, DragQueens e Transexuais. O termo originou-se da redução da palavra “transviado” (que ou aquele que se transviou), de uso comum no Brasil, na década de 1950, para designar o jovem transgressor de costumes.
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Dicionário Transgênero
Publicado em 10 de junho de 2008.
1a revisão em 25 de novembro de 2010.
2a revisão em 27 de agosto de 2011.
3a revisão em 20 de abril de 2012.

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Última Atualização: 26-04-2012

Data da Instalação: 29-06-2008