Desejos, Limitações e Possibilidades

ACEITAR-SE significa respeitar os seus desejos, os seus limites e as suas possibilidades de realização pessoal

Tem coisa mais perversa e sacana do que conselho de livro de auto-ajuda? Esses do tipo “aceite-se” ou “seja a pessoa que você é”?

Eu tenho passado séculos da minha vida tentando fazer exatamente isso: – aceitar-me como eu sou, reunindo toda forma de coragem disponível em mim, praticando toda espécie de sacrifício, consumindo todas as minhas reservas de energia, do nascer ao por do sol, de segunda a sexta-feira, de janeiro a dezembro, do berço à cova.

E sabem o que eu consegui até agora? APENAS UMA MISERÁVEL CONSCIÊNCIA DE COMO EU SOU FRÁGIL, DE COMO EU SOU CAPAZ DE CAIR, COM A MAIOR FACILIDADE, NAS MINHAS PRÓPRIAS CONTRADIÇÕES, DE COMO A MINHA NATUREZA HUMANA PODE SER TÃO INCONSISTENTE E VOLÁTIL…. Enfim, a DURA CONSCIÊNCIA DA “INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER”, como Kundera tão propriamente apelidou a existência humana…

Nessa caminhada de altos e baixos (pelejando para me equilibrar em cima do salto alto…), volta e meia a gente tem o (des)prazer de conhecer, ao vivo e em cores, o autor (ou autora) de algum desses incríveis “manuais de iluminação”, com suas notáveis pérolas de sabedoria humana. Em geral, o que a gente vê diante de nós (como eu tive o desprazer de ver ontem, ao dar de cara, numa recepção, com um conhecidíssimo GURU paulista), são pessoas ARROGANTES (portanto ALTAMENTE inseguras!), ARTIFICIAIS (portanto falsas e hipócritas!), além de COMPLETAMENTE INTOLERANTES, PRECONCEITUOSAS E CONSERVADORAS!

Pessoas que estão muuuuuuuito distantes de mostrarem, EM SI PRÓPRIAS, o mínimo sinal das virtudes apregoadas em seus manuais de “felicidade instantânea”, largamente consumidos pelos incautos (ou seriam pelos que se acham mais espertos do que todos os demais?) que acreditam ser possível entrar no céu sem nenhum esforço, quem sabe pela porta dos fundos.

“Traços divinos” de aceitação, compreensão, tolerância e “descolação” que, quando comparados às suas “ações mostradas em público” transformam suas obras em “piadas de mal gosto”, escritas na contra-mão do espelho das suas próprias existências vazias, inclusive de toda e qualquer forma de ÉTICA.

A vida de uma crossdresser está permanentemente repleta de enormes desafios de auto-aceitação. Mas, superá-los e vencê-los, é uma questão que vai muito além de simples receitas prontas de auto-ajuda. Aliás, como tudo o mais na vida, depende de uma enorme coragem para testar, na prática, o que vem a ser isso de auto-aceitar-se.

Evidentemente, pra começar, é algo muito mais intenso e profundo do que conversa de guru mal-resolvido em sua própria existência pessoal. Aceitar-se significa respeitar os seus desejos, os seus limites e as suas possibilidades de realização pessoal.

Comecemos pela aceitação dos próprios desejos, a tarefa mais difícil de todas, já que somos exaustivamente treinados, desde pequenos, para rejeitar toda manifestação de desejo próprio, para nos submetermos tão somente aos desejos que os outros desejam para nós. É preciso encher-se de coragem e dar espaço – permitir – que se manifeste em nós um SER DESEJANTE PRÓPRIO. O que é que eu realmente quero para mim, independente do que as outras queiram que eu queira? O que é que realmente importa para mim nesse mundo? Que é capaz de me mover, de me levar adiante, a despeito de todos os obstáculos e dificuldades que surjam à minha frente?

No processo de auto-aceitação, o item de aceitar as próprias limitações é, sem dúvida, o mais fácil de todos, porque é o que a gente já faz, o tempo todo, ATÉ MUITO MAIS DO QUE DEVIA! Claro que ainda não é da forma que realmente deveria ser porque, em geral, as limitações que a gente aceita NÃO SÃO as nossoas próprias e verdadeiras, mas as que os outros nos impõem.

Letícia Lanz
04-06-2006

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