Crossdressing (travestismo) e Crossdressers

Crossdressing (ou, preferencialmente, travestismo, em português) consiste no uso sistemático ou eventual de vestuário socialmente designado para o gênero oposto àquele que foi atribuído à pessoa no momento em que nasceu. Crossdressing corresponde meramente à ação de alguém se vestir com roupas do gênero oposto, não possibilitando o estabelecimento de vínculos de causa/efeito a partir desse fenômeno em si. Como afirmou Virgínia Prince(*) ainda na década de 1950, ela que foi pioneira do crossdressing norte-americano, “crossdressing é um termo que traduz o que nós fazemos, não o que nós somos“.

Embora permaneçam bastante obscuros os motivos que levam uma pessoa a ultrapassar as rígidas fronteiras sociais que separam os gêneros, é absurdo pensar que um dia, sem mais nem menos, alguém simplesmente resolva, do nada, querer praticar o crossdressing, ou seja, tornar-se um crossdresser (travesti). Evidentemente não é assim que acontece. Todo crossdresser costuma ter uma longa história de inadequações às exigências do código de conduta do gênero que o médico assinalou na sua ficha de nascimento.

Origens

A sociedade do tipo patriarcal, modelo que representa a quase totalidade das sociedades humanas surgidas a partir de 10.000 anos atrás, desenvolveu um rígido e complexo jogo de normas e procedimentos estético-filosóficos a respeito do tipo de roupa que é apropriada para cada gênero. Todo o arcabouço institucional do patriarcalismo, sistema em que o homem tem total supremacia sobre a mulher, inclusive na linha de descendência dos filhos, repousa na necessidade de reafirmação constante do poder masculino, que por sua vez depende da separação arbitrária e radical dos seres humanos em dois grandes grupos chamados de gênero. Nessas sociedades é fundamental que se distinga, por todos os meios, o gênero masculino do feminino sendo que a indumentária é um dos itens que melhor se prestam a essa função diferencial, por ser emblemática e poder ser reconhecida à distância. Como eu gosto de dizer, brincando com o antigo ditado popular, em se tratando de gênero, o hábito não faz o monge mas faz com que ele apareça de longe

Por ser um comportamento basicamente contrário às normas radicais de distinção dos gêneros, o travestismo é considerado um tipo de transgressão social, sobretudo quando é praticado por homens, pelas razões já expostas de necessitarem reafirmar permanentemente sua suposta supremacia sobre a mulher. Na sociedade patriarcal, também o contrário, ou seja, mulheres se trajarem com roupas de homem, é algo que já foi objeto de muita repressão.

Travestis criam confusão – por isso não são bem vindos. Num mundo em que tudo tem que estar enquadrado para ser reconhecido, cds adulteram e subvertem a “ordem natural” das coisas.

Embora não seja mais considerado como crime na maioria das sociedades ocidentais (era, até recentemente, em muitas delas), o travestismo masculino continua a ser objeto de forte discriminação e preconceito, até da parte dos próprios praticantes que, por isso mesmo, volta e meia, vivem momentos de muita culpa e angústia em virtude dessa prática.

Cumprindo sua função histórica de dar suporte ao pensamento das classes dominantes, a religião ocidental contribuiu enormemente para firmar o estigma que ainda paira sobre o crossdressing até os nossos dias. Em textos judaico-cristãos, como a bíblia, essa prática é especificamente citada como abominação: não haverá traje de homem na mulher, e não vestirá o homem vestido de mulher, porque qualquer que faz isto é abominação ao Senhor teu Deus (Deuteronômio, 22:5). Fato curioso, para quem lê a íntegra das proibições contidas nesse capítulo 22 do Livro do Deuteronômio, é que a maioria delas são totalmente esquecidas nas “pregações conservadoras” dentro dos templos. Da mesma maneira que a ridícula e absurda proibição de usar trajes do gênero oposto ao seu, o mesmo capítulo 22 está repleto de outras interdições totalmente “nonsense”.

Por mais que queiram associa-lo a qualquer outra coisa, está mais do que claro que travestismo é essencialmente um fenômeno produzido por interdições arbitrárias de caráter social relativamente ao uso de vestuário por cada um dos gêneros, tendo em vista o pensamento dominante de uma época. Os tais jovens que, no ano passado, apedrejaram uma doméstica na via pública diziam em sua defesa que se tratava de uma prostituta. A rigor, considerando-se a exigência do cumprimento da lei bíblica, eles não deveriam ser punidos. Estavam apenas exterminando o mal, segundo a bíblia…

Na segunda metade do século XX, as interdições de vestuário começaram a cair, pelo menos para as mulheres, e junto com outras tolices patriarcais-machistas como a autorização para porcos machistas apedrejarem “mulheres impuras” nas ruas. Graças a uma gigantesca ação política da mulher, foi levantada a antiga interdição, na sociedade Ocidental, das mulheres usarem roupa tradicionalmente associada com homens, como calças, ternos e gravatas. As calças foram definitivamente incorporadas ao guarda roupa feminino, e isso não é considerado como travestismo. Teriam ficado livres da abominação do Deuteronômio ou apenas silenciado, com a defesa intransigente dos seus direitos, a voz estúpida, aborrecida, prepotente e arrogante dos moralistas de plantão?

Assim, hoje em dia, ao falarmos de crossdressing, estaremos falando basicamente de homens que se vestem de mulher, ainda que permaneçam sendo vistas como crossdressers algumas expressões homossexuais femininas, em que as mulheres se vestem habitualmente, mesmo fora do contexto de um posto de trabalho, de acordo com estereótipos extremamente masculinizados, como mecânico ou motorista de caminhão, sendo, por isso mesmo, muito discriminadas no seu próprio meio.

Crossdressing x Sexualidade

Como resultado de uma educação altamente patriarcal e machista, a maioria das pessoas automaticamente associa travestismo com homossexualidade quando, de fato, tais fenômenos não guardam necessariamente nenhuma relação entre si. Crossdressing é um comportamento que fere o dispositivo social relacionado à indumentária designada para cada gênero, enquanto homossexualidade diz respeito à orientação sexual (escolha de parceiros sexuais) de cada pessoa.

Diferentes Razões para Diferentes Manifestações de Crossdressing

Não somos MULHERES, nem trocando de sexo (Qualquer lésbica é mais mulher – NO SENTIDO EXATO DO TERMO MULHER – do que qualquer uma de nós, ainda que operadas; mulher, mulher, só nascendo de novo). Não somos HOMENS, mesmo possuindo o sexo dos homens (qualquer homossexual é mais HOMEM do que qualquer uma de nós – no sentido exato do termo HOMEM). DIGA LÁ, QUEM SOMOS? Mutantes? Imitantes? Atores hilariantes? CD – corpo deslocado CD – cara dividido CD – criatura divina (ou diabólica, ou divinamente diabólica…) CD – cara (completamente) descolado CD – convencido demais CD – criança depravada…

Somos pessoas transgêneras ou genderqueer ou ambas as coisas ou nada disso. Uma travesti afirma com orgulho: – não sou homem nem mulher: – sou travesti!

Há muitas teorias a respeito das razões para isso acontecer, mas nenhuma delas está totalmente comprovada, além de todas conterem uma série de pontos controversos.

Existem inúmeras e muito variadas formas de crossdressing (travestismo). Lá são muitas espécies diferentes do travestismo, e muitas razões diferentes por que um indivíduo poderia ocupar-se no comportamento de travestismo. Algumas razões pelas quais os homens se travestem:

1. Autoginecofilia
2. Transgressão de regras
3. Expressão da identidade de gênero
4. Socialização
5. Determinação biológica (herança genética)
6. Alívio de stress (tensões)
7. Fetiche (ismo – estimulação sexual)
8. Submissão e humilhação – antigamente, inclusive, para punir os garotos, os adultos os vestiam com roupas de meninas. Vestir-se de mulher (feminização forçada) também é parte muito freqüente em rituais sado
9. Dominação (olhem a poderosa)
10. Pura e simplesmente aparecer (olha eu aqui)
11. Driblar os sentimentos de ansiedade e culpa em relação à própria homossexualidade não-aceita
12. Influência do Grupo
13. Necessidade de chocar as outras pessoas
14. Fantasia de carnaval
15. Ganhar a vida
16. Simples Curiosidade

O travestismo, em si e por si mesmo, não é nem deve ser considerado distúrbio mental. No máximo, em diversos casos, pode ser reconhecido como fetiche, mas certamente não é uma forma de doença mental. Pelo contrário, na absoluta maioria das situações, o travestismo pode ser considerado são e benéfico. O travestismo ocasional é muitas vezes é usado como meio recreativo de aliviar stress ou a depressão. Também pode constituir um instrumento para se ganhar ou se aumentar a compreensão dos papéis que a sociedade destinou ao gênero oposto. Para uma transexual, o travestismo pode ser o primeiro veículo através do qual a pessoa começa a explorar e a perceber sua identidade sexual.

Sendo o travestismo uma forma de expressão do macho, segue que algumas observações importantes podem ser derivadas disso:

1. O travesti, sendo homem, vai tentar compor um perfil de mulher que seja o mais atraente

2. Todo travesti se veste de modo a preencher o seu próprio modelo de feminilidade e de atratividade da mulher.

3. quanto mais parecido com a mulher ele ficar, mais confortável e prazeroso ele vai se sentir.

Vale observar que o travestismo é progressivo, ou seja, quanto mais um indivíduo se traveste, mais sente necessidade de se travestir. Da mesma forma, não há relato de que o processo regrida e o seu desaparecimento por completo é uma ocorrência absolutamente rara.


(*) Virgínia Prince é considerada a boa-mãe dos crossdressers americanos, porta-voz sempre presente nas questões relacionadas ao crossdressing masculino, foi a primeira pessoa a utilizar o termo “transgênero”. Responsável pela publicação de muitas revistas especializadas, incluindo a famosa Transvestia e fundadora do Tri-ESS, o mais antigo e sólido grupo de CDs heterossexuais da America


⚧ Leituras Sobre o Assunto ⚧

KOGUT, Eliane Chermann. Crossdressing Masculino: uma Visão Psicanalítica da Sexualidade Crossdresser.
Tese de Doutorado em Psicologia Clínica, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2006. Nesta tese, se investiga a sexualidade de travestis masculinos, aqui denominados de crossdressers (cds) para diferenciá-los de travestis que se prostituem. Trata-se de uma pesquisa exploratória. Foram realizadas 39 entrevistas com cds, atendidos 8 pacientes cds por cinco anos em psicanálise, pesquisada a literatura produzida pelos próprios grupos de crossdressing (revistas, livros, sites de apoio, sites de encontros e sites eróticos) e conviveu-se com membros de um clube brasileiro de crossdressers.
Disponível aqui para leitura on line ou download.


ANDERS, Charles. The Lazy Crossdresser. CA,USA : Greenery Press, 2002.
Este guia, bastante útil e interessante, tornou-se referência obrigatória no meio cdssing. Prático, tanto para quem deseja exprimir sua natureza feminina em público, como em privado. O autor explica as dificuldades e dilemas do travestismo e dá numerosas dicas de autoconfiança, aperfeiçoamento, crescimento de barba, beleza, etc, etc. São dicas tão boas que podem ser usadas até por não-crossdressers.


LEIGH, Lacey. Out & About: The Emancipated Crossdresser. USA : Double Star Press, 2nd ed, 2002. Esta obra foi recentemente incluída na seleção de livros distribuídos a bibliotecas públicas do mundo inteiro pela Tri-Ess, a Sociedade Internacional de Crossdressers Heterossexuais. Abordagem muito inteligente sobre o que é o crossdressing. Lacey Leigh escreve de maneira simples e direta, sem recorrer a nenhum jargão psicológico, esclarecendo e estimulando os crossdressers a se livrarem da sua culpa, vergonha e negação, de modo a expressar seus atributos femininos com muita alegria, graça e estilo. Lacey ressalta que a cabeça de um crossdresser é o principal fator de angústia e bloqueio pessoal e sugere uma fórmula simples para se alcançar uma atitude positiva:

Aceite-se – negar não funciona;
Afirme-se – você merece o melhor;
Permita que você desfrute da sua nova liberdade.


LEIGH, Lacey. 7 Secrets of Successful Crossdressers : Turning Perceptions Inside Out. USA : Double Star Press, 2nd ed, 2002. “7 Segredos” são a continuação de “Out and About” (ver acima) e mais uma vez Lacey Leigh vira a percepção pelo avesso, mostrando que o travestismo é muito mais uma forma de expressão e comunicação do que qualquer outra coisa. Lacey é um advogado entusiástico do travestismo aberto – usando o poder pessoal de uma vida uma muito agradável e positiva junto à sua família para estimular a comunidade de crossdressers a aceitar essa condição de maneira natural e confortável, sem nenhum “ drama de consciência” . Com um estilo alegre e descontraído, Lacey explica seus “7 segredos”, que são: O Segredo da auto-aceitação e da conquista de poder pessoal (empowerment); O Segredo da mensagem certa no veículo adequado; O Segredo da prática do travestismo aberto; O Segredo da busca de apoio e suporte; O Segredo do respeito; O Segredo do “presente do gênero”, e O Segredo de se divertir.


NOVIC, Richard J. Alice in Genderland: A Crossdresser Comes of Age. USA : iUniverse, 2005. Pouca gente conhece o universo transgênero tão bem quanto Alice Novic, editora da revista Girl Talk. Esta excitante autobiografia, escrita pelo seu alter ego masculino, é uma viagem profunda e incrivelmente rica para exploração da alma de um crossdresser.
 → Partes deste livro podem ser lidas aqui


ALLEN, Mariette Pathy. Transformations: Crossdressers and Those Who Love Them. USA : Dutton Adult, 1990. Este livro foi a primeira obra a mostrar crossdressers na sua vida diária, dentros das suas relações, com uma atitude positiva sobre as suas vidas. Ele traz uma grande variedade de histórias pessoais de crossdressers, envolvendo seus cônjuges, filhos, colegas, amigos e comunidade. As fotografias são comovedoras, sensíveis e absolutamente respeitosas dessa condição humana.


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3 Comentários para Crossdressing (travestismo) e Crossdressers

  1. Alison Xavier says:

    Sem sombra de dúvida, tudo isso é muito estressante. Acredito não ter a coragem de sair por aí “montado”, mas confesso que para mim a ideia de me vestir e usar acessórios femininos é bastante excitante dentro de quatro paredes.

  2. andre pinter filho says:

    Não se trata de comentário. Apenas gostaria de saber onde encontrar próteses mamárias externas, pelo que antecipadamente agradeço.

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