Crossdresser: Um Outro Paradigma para a Masculinidade

Em um mundo fundamentalmente patriarcal e machista, um homem vestido de mulher representa uma clara subversão e enfrentamento à ordem vigente, certo?

Errado. A maioria dos homens que se vestem de mulher, no grupo dos chamados “crossdressers”, não têm nada de revolucionário. Muito pelo contrário, são quase todos “reacionários de carteirinha”, imbuídos do mais puro, e decadente “espírito da masculinidade”. O que estão tentando fazer, vestidos de mulher, é apenas dar vazão, da maneira mais narcísico-machista possível, à representação idealizada da mulher que carregam dentro de si, como faz qualquer outro macho, com a única diferença de buscarem realizar essa representação em si mesmos, utilizando o próprio corpo, e não correndo atrás da primeira fêmea que cruzar o seu caminho.

Longe de ser agente de renovação e mudança da cabeça (tronco e membros) do homem tradicional (que, aliás, anda em frangalhos…), o crossdresser típico é muito mais um agente conservador do patriarcado, que busca desesperadamente sobreviver nesta era de grandes avanços femininos e retrocessos masculinos ainda maiores.

Crossdresser típico é só mais um consumidor, vale dizer, mais um fetichista, já que consumo e fetiche são basica e fundamentalmente a mesma coisa na nossa sociedade ultra-mais-do-que materialista. Apenas mais um macho embalado pelo canto de sereia do discurso machista, seduzido pela vulgaridade de um feminino lerdo e servil, que ele tenta transformar em “descargas de adrenalina” saindo às ruas “vestido de mulher”, quase sempre na calada da noite e do modo mais caricato e “kitsch” possíveis, num estranho ritual em busca de alívio para o tédio e a insignificância de se ser homem nesses tempos pós-modernos.

O crossdresser típico se vende barato demais na sarjeta dos sonhos, enquanto se gaba, dentre outras asneiras, de ser macho e hetero, sem levar em conta de que anda por aí vestido de mulher. O crossdresser típico se orienta por uma nítida tentativa de conservação dos padrões clássicos de relacionamento homem-mulher, o que o transforma de potencial revolucionário com enorme poder de revolução, em grotesco simulacro de mulher vulgar e servil.

Contudo, não será por esses representantes tolos e alienados que o crossdressing masculino, melhor dizendo, que o travestismo masculino deixará de ser inerentemente revolucionário, trazendo em si um gigantesco potencial de mudança sócio-política da sociedade, na medida em que afronta premissas básicas do sagrado sistema binário de gêneros opostos e mutuamente exclusivos em que se baseia toda a imensa construção sociopolítica em que vivemos.

Evidentemente, o crossdressing revolucionário de que estou falando é infinitamente mais do que esse mero passatempo, essa atraente “diversão erótica” que deve ser praticada sempre às escondidas, em paralelo à vida de “machão ilibado”, que não pode correr o risco de manchar sua reputação “masculina” no caso de ser apanhado vestido de mulher…

Passatempo, pois sim! Deslavada mentira, essa aí. Não pode “divertir-se” quem anda às escondidas, dominado pelo discurso do medo, arrastando-se nas trevas do anonimato feito alma penada de si mesmo… Além do mais, o temor de revelar-se publicamente vestido de mulher – assim como a satisfação mórbida de manter as “montagens” e as “saídas” totalmente ocultas – é uma clara descrença no poder da fêmea, no empoderamento da mulher.

Crossdresser desse tipo é apenas um macho com uma psiquê ainda mais fragmentada do que um macho comum. Vive se jactando da sua “macheza”, afirmando que se veste de mulher apenas para se divertir (como se fosse possível alguém se divertir com algo assim…). Com caras, bocas, voz simulada e trejeitos, pode até pensar que incorpora e representa a mulher, quando, na verdade, está apenas fazendo pouco, apenas “zombando da feminilidade”, desqualificando ainda mais o “ser mulher”. Ao “fantasiarem-se” de mulher, escracham-na, em vez de promove-la, de dignificá-la e de incorporar seus grandes valores ao seu elenco de valores masculinos. Isso quando não se valem da própria mulher para sustentar aquele aborrecido discurso de machão heterossexual com que tentam disfarçar seus imensos conflitos de sexualidade não-resolvida….

Travestir-se é um convite – um mandato! – para um homem explorar os subterrâneos mais profundos do seu inconsciente, buscando saber mais de si e do gênero masculino em que foi enquadrado por força de mera convenção social. Travestir-se é uma oportunidade única de detonar a camisa de força que é imposta pelo código rígido e ultrapassado do vestuário masculino. Travestir-se é um ritual de sensualidade e magia, de puro encantamento e erotismo com a própria pele, com o próprio corpo, de êxtase com a condição humana, coisas que são negadas, reprimidas e recalcadas no macho comum. Travestir-se é uma jornada de descoberta de possibilidades existenciais jamais sequer imaginadas pela dureza da carapaça masculina.

Travestir-se só é doença, e doença social grave, quando deixa de ser uma profunda e dolorida busca de identidade para converter-se na projeção barata e gratuita de uma sexualidade idealizada, onde homem continua homem – macho e heterossexual – mesmo quando se veste de mulher e/ou trepa com outro homem, como sustenta a ladainha neurótica e absurda daquele tipo de crossdresser que eu mencionei antes…

O foco nessa feminilidade idealizada denota o descaso absoluto dessa gente que se diz “crossdresser” com o próprio material psíquico trazido à tona pelo desejo de se travestir. Será que não percebem, no apelo inexorável do desejo que leva um macho a se travestir, a existência de uma parte do seu próprio ser que está sendo abandonada, esquecida e que implora por um canal de expressão? Essa parte precisa de ser empoderada, precisa se expor, de uma certa forma até se impor e encontrar o seu lugar no mundo. Em vez de socorrer essa parte do seu “ser homem”, que grita pelo direito de “ser mulher, esses crossdressers se rendem à obsessão pelo falso prazer de compor a figura idealizada de uma mulher heterossexual, que transa com macho, sendo, eles próprios, machos e heterossexuais. Em vez de abrir canais de expressão consistentes e duráveis para essas partes esquecidas do seu ser, buscam rápidas e furtivas manifestações fantasmáticas no meio da noite, com medo de serem pegos… pelos seus próprios fantasmas!

Durma-se com um barulho desses. A vida que está sendo forjada por esses “crossdressers” é um pastiche, um simulacro, de muito má qualidade e de péssimo mau-gosto (inclusive, e sobretudo, mau-gosto estético, pois como essa gente se veste mal!).

A revolução da masculinidade ainda está para acontecer e nela, indubitavelmente, o travestismo masculino tem um papel radical a cumprir, assim como teve no início das lutas de liberação da mulher. A liberação do uso pelo homem, sem culpa nem vergonha, de peças e adereços até hoje restritos ao uso da mulher será um grande passo na dissolução da “identidade masculina cacete”, mantida na camisa-de-força do terno cinza e do sapato marrom.

O crossdresser, quando está consciente do que se passa com ele mesmo e que, sem medo nem culpa, ouve e atende o apelo do desejo de se travestir, representa efetivamente a gênese de uma “outra masculinidade”, muito distinta da masculinidade-machista, hegemônica e decadente, que ainda tenta sobreviver ao tsunami do progresso feminino. Tal como a antiga masculinidade, também essa outra está assentada sobre o “corpo de um macho”, só que com uma flexibilidade infinita que permite, a qualquer macho que desejar, a possibilidade de aventurar-se por domínios estéticos (e até fisiológicos e anatômicos, por que não?) até aqui reservados exclusivamente à mulher e terminantemente interditados ao homem.

Não se trata, portanto, de reafirmar a masculinidade de maneira tão tola e ineficaz, como fazem tantos crossdressers por aí, guiados pelo medo de não serem mais reconhecidos como machos se forem apanhados vestidos de mulher. Não se trata, também, de reafirmar, de modo ainda mais tolo e não-convincente, uma heterossexualidade desnecessária e “forçada”, como se o desejo do macho tivesse que viver permanentemente subjugado às exigências contratuais de uma masculinidade absolutamente decadente e desacreditada no mundo de hoje.

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Um Comentário para Crossdresser: Um Outro Paradigma para a Masculinidade

  1. joao w nery says:

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    Parabéns Letícia. Como sempre desconstruindo o gênero e contribuindo, com uma escrita impecável, para desmistificar e denunciar as caricaturas. beijos
    joao w nery.
    ps: Postei no facebook e no twitter

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