Crises Existenciais

Basta a gente começar a tomar consciência real de quem a gente é e do que a gente realmente deseja nesse mundo – o que só é possível entrando em profunda crise existencial – para nos mandarem procurar médico, psicoterapeuta, psiquiatra, padre, pastor, pai de santo, exorcista e o escambau.

O discurso, falso e sacana, é “fulano deve estar doido, porque gente ‘normal’ não tem desses chiliques. Assim como a pressa geral em “empurrar o crisento” para tratamento médico-psicológico (leia-se “remédios”…) é em fazer com que a pessoa se “re-acomode” à vidinha aborrecida que está levando e siga em frente, como boi – vaca – em direção ao inevitável abatedouro.

Sem “crise existencial” nenhuma mudança é possível. A crise é justamente uma situação-limite, que absolutamente não comporta mais nenhum tipo de solução dentro do modelo de vida atual de uma pessoa. Ou seja, mantidas as coisas exatamente como elas estão, o sujeito vai se ver cada vez mais diante de um beco sem saída: – tudo que fizer é errado; todas as suas decisões, quaisquer que sejam, serão erradas; todas as suas ações parecerão “fora de ordem”, tendo em vista o arranjo atual. Esse conflito entre o que a pessoa “deve ser e querer” em função dos seus papéis e vínculos sociais e que ela “realmente é e quer” – tem por objetivo derrubar os obstáculos que estão impedindo a verdadeira essência de cada pessoa em desabrochar plenamente, que é, afinal, o grande objetivo da vida de todos nós. Segundo Jung, estar numa situação sem saída, estar vivendo um conflito sem solução, é o início do processo de libertação do eu verdadeiro de cada um (que ele chamou de “self”).

Diante do conflito existencial, a pessoa é levada a checar seus verdadeiros sentimentos e pensamentos – o seu desejo – devendo concluir se quer continuar vivendo “auto-iludida”, como peça programada da “matrix”, ou assumir sua verdadeira essência humana, nitidamente em choque com as exigências de ordem sócio-cultural. No calor da crise, a pessoa pode ter a felicidade suprema de descobrir que sua única saída real é dar chance ao seu “eu verdadeiro”, permitindo que ele tome as rédeas da sua vida e “dê as cartas” do seu presente e futuro. O término da crise só acontece quando a pessoa descobre que qualquer outra decisão que não seja a dela é basicamente ruim, por melhor que pareça ou lhe seja “vendida” pelos outros. Qualquer outra “saída” não a levará a lugar nenhum a não ser que ela “abra mão” do seu ego socialmente programado.

A superação da crise implica quase sempre na “perda da imagem socialmente aceitável” em favor do surgimento de uma “identidade pessoalmente desejada”. Por isso muita gente – infelizmente a maioria – tentando evitar a dor de perder vínculos e/ou ficar impedida de viver alguns papéis sociais – ainda que totalmente insatisfatórios – decide permanecer à margem da crise, sem tomar nenhuma decisão, adiando o enfrentamento do conflito para “dias melhores”. Isso, naturalmente, é mais uma ilusão na qual a pessoa viverá pois uma “crise adiada” tende a conhecer somente “dias cada vez piores”… Mais cedo ou mais tarde, tudo que ficou adiado voltará para a pauta da existência de cada pessoa, nem que seja no seu último segundo de vida.

Assim, o preço de se deixar intimidar pela “pressão do grupo” para o imediato “retorno à normalidade”, rendendo-se novamente a um “falso conforto”, é ter que enfrentar crises muito maiores, muito mais intensas e em prazo muito mais curto do que se imaginaria.

Entretanto, se a pessoa for suficientemente verdadeira para consigo mesma, se conseguir olhar para a sua própria verdade e encarar o seu desejo sem medo das consequências de “transformar-se nele”… Enfim, se puder mergulhar fundo e chegar ao centro da sua crise existencial, seu EU VERDADEIRO vai se manifestar e triunfar sobre toda mentira.

Há milênios os místicos nos afirmam que a crise existencial tem por objetivo forçar a pessoa a confiar em SI PRÓPRIA – considerando essa súbita AUTO-CONFIANÇA como a própria manifestação do Criador na criatura. Na linguagem psicológica dizemos que a crise existencial é construída, pacientemente, na surdina, pelo próprio EU VERDADEIRO de cada pessoa, exatamente com o objetivo da pessoa, finalmente, CONSCIENTIZAR-SE da existência desse seu EU VERDADEIRO e dar a ele o comando da sua vida (o eu verdadeiro age, é claro, sem que a pessoa se dê conta disso senão, amedrontada, ela abortaria todo o processo…).

Nota complementar

Se alguém tem plena consciência de que está entrando numa crise existencial profunda NÃO É BOM, de maneira nenhuma, recorrer ao uso de medicamentos ansiolíticos. Para alguém que JÁ SABE E ACEITA exatamente tudo que está se passando com ela mesma e consegue viver uma vida relativamente equilibrada, a despeito de “estar em crise”, o medicamento acaba sendo um inibidor de “energia criativa”, a força que a pessoa mais precisará para sair da crise em que se encontra.

Embora sofrendo os efeitos do aprofundamento da sua crise, se a pessoa pode continuar com seus afazeres e compromissos habituais, levando a vida da melhor maneira que pode, isso é o melhor que tem a fazer. Se puder agüentar firme o desenrolar da crise, muito em breve seus conflitos vão desaguar em um “ponto de mutação”, exatamente como acontece nas reações químicas. É nesses “pontos de mutação” que as “novas saídas” começam a aparecer e se tornam possibilidades concretas na vida das pessoas.

O arsenal de medicamentos só deve ser usado se a pessoa NÃO TIVER CONSCIÊNCIA do que está se passando com ela e ainda REJEITAR tomar contato maior com a sua própria e verdadeira identidade. Pode ser insuportável demais conviver com a hipótese do conflito aberto e, assim, para preservar muitas vezes a sua própria integridade física e mental (pelo menos até que ocorram novos avanços pessoais…), o medicamento pode ser útil e até indispensável. Ainda assim um grande cuidado deve ser tomado na busca de profissionais de apoio medico-psicologico. Embora a relativa abundância de profissionais de saúde no mercado, nem todos gozam de boa saúde, nem física, nem mental. Uma ajuda medico-psicologica mal-administrada costuma ser pior e ter repercussões mais graves do que a própria (suposta) “doença” diagnosticada por maus profissionais.

Letícia Lanz
10-02-2010

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8 Comentários para Crises Existenciais

  1. Leonardo says:

    Olá! Bom dia. Gostaria de saber se essa crise existencial ameniza com tratamento psiquiátrico e psicológico e se tem recaida se a gente parar o tratamento depois de 2 anos?

    • Letícia Lanz says:

      Oi Leonardo,
      Ameniza sim. Na verdade, pode até ajudar a pessoa a sair da crise. Se volta ou se não volta, depende de cada pessoa, da seriedade com que levou os tratamentos, da competência do profissional por quem foi atendida e por inúmeros outros fatores. Bjs, Letícia

  2. Thiago Ribas Bella says:

    Perfeito o seu texto. Descobri agora que tenho uma crise existencial, achei que era depressão. É horrivel a sensação de vazio inteior, tudo que você acreditava perde o sentido, você se questiona de tudo. Você pode me ajudar a sair dessa? Mande-me pelo menos um e-mail. Muuuito Obrigadooo!

  3. Zenilda Candida says:

    Adorei o texto. Esses tempos tive dúvidas se eu era bipolar, borderline, mas por fim cheguei à conclusão que eu estava mesmo era numa crise existencial. Apesar de ser uma profissional da área da saúde, sempre tive preconceito quanto a fazer psicoterapia, e até agora não procurei e nem sei se vou procurar fazer. Vou contar um pouco do que sinto… Comecei a me questionar sobre o “meu eu”. Adoro o meu trabalho, mas não é isso que quero para o resto de vida. Tenho outros sonhos, planos e me pergunto pq eu não parto pra eles, em vez de ficar parada sem ação e sem energia para lutar pelo que realmente quero fazer. Gostaria de ser a pessoa que imagino poder ser. Cheguei a me odiar, sempre me comparando a essa outra pessoa, que eu ainda não sou. Faço questionamentos sobre tudo, principalmente sobre religião. Não aceito nenhuma, mas procuro saber um pouco de cada. Tenho DEUS como minha religião. E essa minha atitude de questionar tudo as outras pessoas não aceitam pq, na realidade, eu acabo sendo agressiva verbalmente, sendo mal interpretada. E mais uma: também não aceito meu corpo, não o vejo como realmente é, tenho um medo terrível de emagrecer, sempre penso em ficar musculosa. Descobri que tenho “vigorexia”; sempre tive desde a adolescência. Buscando Deus consegui superar a angústia que estava sentindo, mas sei que preciso melhorar, principalmente com os outros, na questão de não questionar tanto, e não criar expectativas que, no final, acabam fazendo com que eu fique decepcionada comigo mesma e com os outros.

  4. Rosana says:

    Eu acho que estou em uma crise existencial, mas não sei como sair dela!

  5. C. Neto says:

    Tá ruim demais pra mim. Há muito venho com uma crise existencial horrível, parece que nada faz sentido, vou vivendo normalmente, trato todos com respeito, mas por dentro sinto uma enorme necessidade de descobrir qual é o sentido da vida. Acredito muito em Deus, mas mesmo assim eu sei que tenho que fazer a minha parte. Eu entendo que devemos sonhar e tal, mas isso pra mim já tá muito clichê, não consigo me iludir com nada. Queria alguma resposta mais concreta, pois acho que não preciso provar nada pra ninguém. Por mim acho que já venci na vida, eu realmente sei o que é o amor, e quando morrermos as coisas materiais irão ficar…

    • Letícia Lanz says:

      O sentido da vida é a vida dos sentidos: ver, ouvir, tocar, sentir o cheiro e o gosto das coisas e movimentar-se livremente por esse mundão afora. Tô falando de corpo: cabeça, tronco e membros. Não conheço nada mais concreto do que isso.A falta de sentido é sempre falta de corpo: muita cabeça sem corpo.

  6. Marcos says:

    Eu creio que estou entrando em uma crise existencial pois não vejo mais sentido na vida , em buscar alguma coisa. Isso começou após eu usar muita maconha e refletir quem eu realmente sou, as vezes penso que tudo o que vivi e vivo , é realmente uma grande mentira, não sei explicar muito bem o que eu sinto mas é basicamente isso. E agr eu smp fico me perguntando se sou um robô, pois vivo exatamente a mesma coisa a semana inteira esperando alguma saída, smp antes de dormir fico olhando o céu estrelado pensando onde estou, quem sou eu e o que devo fazer pra ficar feliz. Uma observação, smp quando faço o uso de Maconha me sinto vivo, me sinto realmente dono de mim. Queria alguma resposta pra isso tudo q estou sentindo, apesar de saber que ninguém alem de mim pode saber.

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