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Crossdresser. Foto do final do sec XIX
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Quem É Essa
Figura Insólita Chamada Crossdresser?
Letícia Lanz
Que é essa figura
insólita, sombria e miasmática, chamada crossdresser?
Quem é esse personagem tragicômico, que dia após dia se
arrasta nas sombras do seu palco-armário, evitando de
todas as formas submeter-se ao olhar público, ao mesmo
tempo em que busca por ele avidamente, como um mendigo
faminto de exposição, reconhecimento e legitimação?
Acima de tudo: - como legitimar alguém que se recusa a
existir?
Comecemos pelo próprio
vocábulo "crossdresser", que literalmente se traduz como
"aquele ou aquela que se traveste", ou seja, que se
veste com roupas culturalmente definidas como de uso do
gênero oposto ao seu". Ora, "crossdresser" nada mais é
do que um mero eufemismo de "travesti", termo carregado
de pesadíssimo estigma cultural, que designa um
personagem fortemente repelido pela atrasadíssima
sociedade patriarcal brasileira.
No discurso oficial das
"famílias", tal repulsa se dá em virtude dos vínculos do
travesti com prostituição, contravenção e comportamento
espalhafatoso e histérico em público. Mas a verdadeira
natureza desta repulsa tem outras origens. De um lado, é
um dos frutos malditos da formação machista da nossa
sociedade, onde o "ser macho" é o valor mais alto de
todos, devendo ser preservado a qualquer custo. Do outro
lado, o preconceito contra o travesti tem sua matriz no
pior de todos os estigmas sociais que existe: - a
pobreza. Travesti é tradicionalmente pessoa pobre,
oriunda de camadas na base da pirâmide social, que
raramente tem acesso à educação formal de melhor nível e
que, pelo terrível preconceito contra a sua condição de
transgênero, tem enormes dificuldades de encontrar
colocação no mercado de trabalho, o que o leva quase
sempre a ter que optar e permanecer na prostituição como
forma de ganhar o próprio sustento.
Embora estude o tema há
bastante tempo, ainda não consegui alinhavar de modo
minimamente consistente quais seriam as grandes (ou
mesmo pequenas) demandas e aspirações de um suposto
segmento "crossdresser" no Brasil. Todas as vezes que
tenho tentado fazer isso acabo sendo fortemente repelida
em minhas pretensões de traçar um perfil minimamente
consistente do que seria um crossdresser brasileiro. O
argumento mais comum contrário à identificação de traços
comuns no "crossdresser" brasileiro é que "cada uma é
uma", "cada uma tem suas próprias peculiaridades", "cada
caso é um caso" e o terrível, espúrio e esdrúxulo
argumento de que "é impossível classificar ou
generalizar o que quer que seja".
Tenho ouvido muitas e
muitas vezes que o único traço comum que possuímos, como
pessoas transgêneras, é o desejo de nos vestir e nos
comportar como mulheres genéticas. Entretanto, qualquer
pessoa com um mínimo de sensatez irá reconhecer que esse
traço em nada nos diferencia das travestis, das
transexuais, das drag queens ou mesmo das transformistas
performáticas. Em outras palavras, se esse for o "único"
traço comum identificador do crossdresser como
"categoria distinta dentro do universo GLSTB como,
repito, afirma a expressiva maioria dos CDs, torna-se
altamente arrogante qualquer tentativa nossa de nos
firmar como categoria autônoma e independente dentro da
classe transgênera.
Por outro lado, qualquer
olho e ouvido "mais atento" reconhecerá claramente que
as verdadeiras diferenças que distinguem um
"crossdresser" de um "travesti" são essencialmente de
natureza econômica, social e cultural. Nesse sentido, ao
nos afirmar como categoria autônoma, estaremos apenas
confirmando a continuidade do sistema de "classes
sócio-econômicas" dentro do universo da transgeneridade.
Existirá um outro
sentido, uma outra "leitura" do que é um "crossdresser"
fora essa que acabo de expor? Pela sua condição
econômica, travesti não pode se dar ao luxo de
permanecer no armário: - tem que fazer pista. Tem que se
montar e se expor à violência e ao ridículo público,
diariamente. Não pode se dar ao luxo de se vestir apenas
"de vez em quando", refugiando-se na sombra do armário,
cultivando a transgeneridade como "fetiche secreto", por
sinal bastante oneroso, ao alcance de muito poucos,
sempre temendo ser "descoberto", pela mulher, pelos
amigos, pelos clientes.
No meio de travestis, não
existe "figuras públicas" importantes que "têm de manter
em total sigilo a sua imagem pública de machos
ilibados". Travesti é invariavelmente pobre; não tem
nenhuma "importância" ou expressão pública, nem
econômica, nem política, nem cultural. É escória social
em todos os sentidos.
Crossdresser não é travesti. Não pode ser nem se
identificar com "essa gente".
"Crossdresser" é um termo perfeito para abrigar pessoas
de "outros níveis" e que, entretanto, sofrem da mesma
"agonia íntima" com relação à sua própria identidade de
gênero, a mesma inquietude que ataca qualquer travesti.
Haverá uma outra leitura
possível do que seja "crossdresser" no Brasil?
Aqui a questão fica ainda mais complexa, pois
dificilmente saberemos. A grande maioria das chamadas
crossdressers não se manifesta nunca. E sua
não-manifestação torna impossível a tarefa de
identificar aspirações, necessidades, desejos e/ou
ideais comuns a essa "suposta" categoria.
Diante de tamanha
alienação, começo a acreditar que o maior traço comum da
"classe crossdresser" é se auto-preservar em todos os
sentidos. Ou seja, o que a grande maioria quer é
permanecer no armário, protegida, resguardada em suas
"imagens públicas" sem jamais correr o risco de ser
identificada como travesti (mesmo porque - como nós - o
grande público também não faz a mínima idéia do que seja
crossdresser. Para o povão, criado no machismo, tudo não
passa de bicha...).
Numa sociedade como a
nossa, ser reconhecido como TRAVESTI pode significar a
ruína pessoal. Nem é bom pensar! Crossdresser é
travesti, cujo nível social, econômico e político NÃO
RECOMENDA DEFINITIVAMENTE A SUA EXPOSIÇÃO PÚBLICA. É por
isso que uma cd chega na porta da casa de outra cd e não
sobe a escada. E é também por isso que outra cd pede o
seu desligamento sumário de um clube virtual quando se
vê convidada a participar mais, a deixar as sombras do
anonimato e conviver mais de perto com suas irmãs.
Estima-se que perto de um
por cento da população de machos, na faixa dos 18 aos 75
anos, pratique alguma forma de travestismo. Numa cidade
do tamanho de Porto Alegre, isso corresponde a cerca de
4.000 pessoas, em cifras aproximadas. De acordo com as
últimas estatísticas, cerca de 1/3 dessas pessoas têm
acesso à Internet, ou seja, 1.400 pessoas. O número de
associadas do maior clube brasileiro de crossdressers
não chega a 20 pessoas.
O que é crossdressing?
Quem somos nós? Representamos quem? Quais são as nossas
aspirações? Gostaríamos de defender exatamente o que? Na
ausência de um "breviário de intenções" que represente o
crossdresser como "categoria", não vejo como ser levado
adiante algo que possa ser chamado de "causa
crossdresser".
Assim, continua sendo
muito precário falar de um "segmento crossdresser
brasileiro". Que forma de exposição ou ação pública pode
ser esperada de um segmento social cujas componentes têm
medo de arranharem sua imagem pública com o simples ato
de subir uma escada, em sapo, para se encontrar com
outras cds? Mais ainda, o que se pode esperar de um
segmento, em termos de representatividade e legitimação
pública, quando seus membros têm horror de qualquer tipo
de exposição pública?
Os grandes responsáveis
pela falta de identidade e de afirmação dos CDs são os
próprios CDs que, pelos mais variados motivos do mundo,
não se assumem como CDs.
Até quando nós
crossdressers continuaremos "a reboque" das demandas e
conquistas, justas e necessárias, dos demais subgrupos
transgêneros? Até quando teremos de carregar uma
"estrela tatuada no braço", dentro do nosso próprio
"campo de concentração"?